Os desafios da economia criativa no Brasil

Diante de uma plateia formada por calouros da ESPM, Sérgio Sá Leitão, diretor-presidente da RioFilme e secretário municipal de cultura do Rio de Janeiro, disse que um dos maiores obstáculos da economia criativa no Brasil é a questão da capacitação profissional. “Precisamos de pessoas para atuar com excelência, não basta apenas fazer, mas realizar com qualidade. É preciso que os profissionais criativos se atualizem constantemente.”

Para motivar ainda mais os novos estudantes de graduação, Sérgio apresentou estatísticas desta economia, tão ampla, que inclui atividades de música, produção de software, design, artes cênicas, televisão, cinema, artesanato, entre outras. Só em 2010, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), esse mercado movimentou mais de 1,8 trilhões de dólares em todo o mundo.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a receita proveniente da economia criativa representou 2,5% do Produto Interno Bruto em 2010, porém foi responsável por apenas 1,7% dos empregos registrados naquele ano. Já no Rio de Janeiro, as taxas foram maiores: 4,1% do PIB do estado e 2,2% dos cargos de trabalho. “Isso mostra que a informalidade é muito grande e a legislação não facilita a contratação. As regras trabalhistas precisam ser atualizadas para esses setores mais flexíveis”, apontou.

Apesar da baixa fatia de empregos legalizados, o diretor-presidente da RioFilme lembrou que a média dos salários da economia criativa é bem maior do que de outras áreas. “Pensando por esse viés, temos um gigantesco potencial não realizado”, acredita.

Em um contexto em que as matérias-primas são gente, tecnologia, capital e diversidade cultural, Sérgio disse que a liberdade para que haja troca e produção de conhecimento é fundamental. “Precisamos também de tecnologia, uma área que em estamos atrasados em relação aos outros países. Nossas ações em pesquisa e desenvolvimento estão defasadas.”

Para que a gestão do setor criativo não sofra interferências dos gestores públicos, Sérgio ressaltou que esses empreendedores e produtores precisam receber apoio do governo, mas não podem se tornar dependentes de seus estímulos financeiros, como editais e leis de incentivo. “Foi o que aconteceu com o cinema brasileiro no começo da década de 1990. Quando o então presidente Collor fechou a Embrafilme, empresa brasileira produtora e distribuidora de filmes, o setor entrou em crise.”

Outra frente de atuação dos governos, que o gestor apontou como necessária, é em relação à pirataria dos bens culturais ligada ao crime organizado. “Estamos sangrando nossas indústrias culturais.” Para ele, o caminho é reeducar o olhar do público e buscar promover o ganho de escala na produção para que os produtos se tornem acessíveis a um maior número de pessoas. “Precisamos ampliar o consumo interno para, consequentemente, sermos mais competitivos no exterior.”

Desde 2009, quando Sérgio assumiu a direção da RioFilme, a empresa passou a atuar como uma agência de desenvolvimento focada no mercado carioca e dedicada a investir em projetos que combinassem valor comercial e artístico.

A RioFilme possui linhas de investimento não reembolsável, como a criação da Cine Carioca Nova Brasília, primeira sala de cinema no Complexo do Alemão, e reembolsável, quando a empresa, que é vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, torna-se sócia dos projetos que recebem financiamento do município.

Em 2012, a RioFilme investiu em 9 das 10 maiores bilheterias cinematográficas do ano passado. Nos últimos quatro anos, 32 filmes receberam 26,5 milhões de reais em financiamento. Essas produções geraram 540 milhões de reais do PIB brasileiro e criaram 8.340 fontes de trabalho.

A fim de inspirar os jovens alunos, Sérgio terminou sua apresentação com duas citações musicais: “Tudo muda o tempo todo no mundo”, de Nelson Motta e Lulu Santos, e “O novo sempre vem”, de Belchior. “Temos que ser sempre contemporâneos. O Brasil precisa que estejamos sempre à frente para surfar nossas próprias ondas e não tardiamente as ondas alheias”, concluiu positivamente.

FONTE: Nós da Comunicação

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