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João Monlevade – Jornal Bom Dia – 23/04/2010

Matéria publicada no jornal Bom Dia, de João Monlevade, no dia 23/04/2010

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Bogotá sem indiferença

Muito tem se falado, ultimamente, de Bogotá como exemplo de uma cidade que superou em parte a violência e impôs uma qualidade de vida a partir da cultura. De fato, transformações possibilitadas por políticas culturais e cultura políticas democráticas, apoiadas por uma gestão municipal progressista.

Como ilustração, podemos seguir os acontecimentos de uma semana de outubro de 2009 na capital colombiana.

Dia 23, sábado. Em um belo centro cultural situado no bairro histórico La Candelaria ocorre o encerramento de um curso de quatro meses sobre direitos humanos promovido pela Universidade Distrital com 400 integrantes, entre crianças, jovens, adultos e representantes da melhor idade. A ideia é que os/as formandos/as possam atuar como multiplicadores/as em suas comunidades sobre as questões discutidas.

Dia 24, domingo. Dia Nacional do Patrimônio Histórico e a Alcaldía Mayor (a prefeitura) promove o programa Siga, Esta Es Su Casa, com roteiros que nos levam para as ruas operárias, para os bairros industriais ou para a rota das artes públicas, entre outras opções. Os museus estão abertos gratuitamente e o povo faz fila para entrar. Outro tanto de pessoas está na rua, caminhando, andando de bicicleta, se divertindo nos inúmeros parques municipais.

Dia 25, segunda. Abertura do XXII Encontro Latino-Americano de Faculdades de Comunicação Social na Pontifícia Universidade Javeriana, uma das inúmeras unidades de ensino superior da cidade, e cujo curso de jornalismo completa 70 anos. A palestra inaugural foi de Jesús Martín-Barbero, referência dos estudos de comunicação e de cultura na América Latina, em especial das pesquisas em recepção. Martín-Barbero, professor da Javeriana, abordou o tema central do encontro: “Cidadanias em tempos de incerteza”.

Dia 28, sexta. As mulheres na rua defendem o “Dia pelo fim das penas ao aborto na América Latina e no Caribe”. Afirmam seus direitos de decidirem livre e responsavelmente o momento de serem mães, sem pressões sociais, religiosas ou legais.

Dia 29, sábado. Acontece o encerramento da Missão Internacional de Verificação sobre a Situação Humanitária dos Povos Indígenas na Colômbia. Promovida pelo Conselho Nacional Indígena de Paz, reuniu lideranças de vários povos indígenas com observadores internacionais. Juntos avaliaram o grau de cumprimento, por parte do governo colombiano, das recomendações feitas pela ONU em prol dos direitos humanos e das liberdades fundamentais dos povos indígenas.

Algumas destas e outras ações faziam parte, ou eram apoiadas, pelo projeto Bogotá sin indiferencia (Bogotá sem indiferença) coordenado pela Alcaldia Mayor da capital colombiana. A proposta era favorecer a vida entre os diferentes na cidade, uma cidade de um país marcado pelas violências física e simbólica causadas pelos aparatos militar, paramilitar, guerrilheiro e pelos EUA.

Mas uma cidade rica em patrimônio material e imaterial, com seu casario colonial e igrejas barrocas, seus museus arqueológicos e históricos. E também uma cidade contemporânea como demonstravam as obras reunidas em 2009 no 40o Salão Nacional de Artistas, onde instalações, performances, vídeos e outras expressões visuais nos falavam da vida cotidiana dos colombianos, de suas tradições, de sua modernidade, de seus híbridos pós-modernos.

Toda essa agenda positiva e como saber dela? Por nossos meios de comunicação pautados pelas grandes agências internacionais a quem não interessa romper com a imagem simplista de uma Bogotá violenta?

Como fazer com que as incertezas de nosso tempo, em muito causadas pelas “certezas” mídiaticas, possam “ser também o ponto de partida para a construção de uma sociedade menos dogmática e menos maniqueísta, e para que nos agrupemos como sociedade diversa, mas capaz de compartilhar e construir juntos projetos novos de sociedade”, como provocou Martín-Barbero em sua intervenção na Pontifícia Universidade Javeriana?

Bogotá está arriscando nesse sentido. Mas nada sabemos, pois na telinha, a Colômbia se resume à guerrilha e ao tráfico. E continuamos nossa vidinha cheia de indiferenças.

*Alexandre Barbalho é Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA e professor dos PPgs em Políticas Públicas da UECE e em Comunicação da UFC onde pesquisa sobre políticas culturais e de comunicação e sobre cultura das minorias. Autor e organizador de inúmeros livros entre os quais: Relações entre Estado e cultura no Brasil (1998); Comunicação e cultura das minorias (organizado junto com Raquel Paiva – 2005); Políticas culturais no Brasil (organizado junto com Albino Rubim – 2007) e Brasil, brasis: identidades cultura e mídia (2008).

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Culturas em Diálogo(?)

Um dos mais novos museus de Paris, o Musée du quai Branly situa-se próximo ao rio Sena e à torre Eiffel. Também um dos mais visitados, não apenas pelos turistas, mas pelos citadinos parisienses ou de outras paragens francesas. É lá onde as culturas dialogam, diz a propaganda oficial. Nesse exato momento, é possível visitar, entre outras, uma exposição sobre a cultura Dogon, de Mali, ou uma mostra de roupas femininas do Oriente Próximo com curadoria do costureiro Christian Lacroix.

Parte considerável de seu acervo (em torno de 300.000 peças) vem da época da França imperial, presente na África, Ásia, América e Oceania. Portanto, fruto de pilhagem dos bens culturais de diversas etnias colonizadas. Resulta da junção da coleção de objetos oriundos do laboratório de etnologia do Museu do Homem e do Museu Nacional de Artes da África e da Oceania.

É claro que hoje a disposição dos variados objetos não responde mais ao olhar etnocêntrico e evolucionista e à possibilidade de contatar esses Outros excêntricos e atrasados. A exposição privilegia a informação de cada um deles em sua relação com a realidade de origem. Para isso, recorre a vídeos, documentários de época ou feitos mais recentemente. Um museu politicamente correto que não procura apenas espetacularizar culturas, mas disponibilizar elementos para uma leitura crítica, relativista, de religiões, costumes, moradias que não aquelas que margeiam a Avenue des Champs-Élysées e que culminam no Arco do Triunfo.

No entanto, há algo que soa estranho nessa passagem demorada de franceses em frente a vitrines que mostram roupas e utensílios de povos não-europeus. O ruído se dá porque se vive, naquele país, um momento de acirramento da população indígena com os estrangeiros oriundos exatamente daqueles lugares que admiram por detrás do vidro.

Na era Sarkozy, quando a expressão cultural do uso da burca torna-se proibida e a história do garoto curdo que é perseguido pelas novas leis da sociedade de controle francesa vira o filme “Bem-vindo” de Philippe Lioret, como compreender esse afã em visitar o quai Branly? Certamente, grande parte dos franceses não está envolvida nessa rede social de intransigência contra árabes, africanos, latinos, mas ainda assim é uma pergunta relevante. Talvez uma boa pesquisa de público, que agrada tanto aos órgãos gestores da cultura na França, possa nos dizer algo sobre esse paradoxo.

Ou simulacro. Quem sabe não descobriríamos ali apenas a sombra das maiorias silenciosas?

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