Previous Next

1 de agosto foi Dia da Sobrecarga da Terra, data mais recente desde que o fenômeno começou em 1970

REPRODUÇÃO: Site eCycle

Foto: Rewat Wannasuk /Pexels

A humanidade esgotou no dia 1º de agosto os recursos naturais que o planeta é capaz de renovar em 2018, de acordo com a Global Footprint Network, uma organização internacional de pesquisa em sustentabilidade que calcula a Pegada Ecológica de países e indivíduos. O Dia da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day), calculado anualmente, marca a data a partir da qual o consumo de recursos naturais ultrapassa a capacidade de regeneração dos ecossistemas para esse ano.

A Pegada Ecológica é a área biologicamente produtiva necessária para suportar as necessidades de um individuo ou a população de uma dada região em termos de alimentação, fibras, produtos florestais, sequestração de carbono e área para infraestruturas. Atualmente, as emissões de carbono representam 60% da Pegada Ecológica da humanidade. Leia mais sobre o conceito: O que é pegada ecológica?

Desde que o planeta Terra entrou em sobrecarga pela primeira vez, no inicio da década de 1970, o Dia da Sobrecarga da Terra tem sido assinalado cada vez mais cedo. Em 1997, a data ocorreu no final de setembro; em 2015, no dia 13 de agosto, e agora em 2018 o dia se dará em 1º de agosto. Isso significa que atualmente existe uma demanda 1,7 vezes superior à capacidade de regeneração dos ecossistemas, ou seja, anualmente a humanidade usa os recursos equivalentes de 1,7 planetas Terra.

Em todo o mundo, os danos causados pela sobrecarga são cada vez mais evidentes: desflorestação, escassez de água doce, erosão do solo, perda de biodiversidade ou acumulação de dióxido de carbono na atmosfera. Por sua vez, estes danos acentuam e dão origem a fenómenos, tais como as alterações climáticas, secas severas, incêndios florestais ou furacões.

“As economias atuais estão a gerir um esquema de pirâmide financeira com o nosso planeta”, afirma Mathis Wackernagel, CEO e cofundador da Global Footprint Network. “Estamos usando os recursos futuros da Terra para operar nossas economias no presente. Como qualquer esquema de pirâmide, isso funciona por algum tempo. Mas à medida em que as nações, empresas ou famílias se aprofundam cada vez mais em dívidas, acabarão por entrar em colapso”.

“Chegou o momento para acabar com este esquema Ponzi ecológico”. Chegou o momento para mover a data (#MovetheDate). Isto é crítico para a humanidade prosperar”, acrescentou Wackernagel.

#MoveTheDate: mover a data rumo à sustentabilidade

No entanto, é possível inverter esta tendência. Se o Dia da Sobrecarga da Terra fosse adiantado 5 dias todos os anos até 2050, seria possível retornar ao nível em que usávamos os recursos de um só planeta. Para assinalar o Dia da Sobrecarga da Terra, a Global Footprint Network sugere alguns passos e é possível calcular seu impacto pessoal na alteração no Dia da Sobrecarga da Terra – assim como o seu Dia da Sobrecarga pessoal. Por exemplo: se 50% do consumo de carne for substituído por uma dieta vegetariana, a data é adiada em 5 dias; já uma redução de 50% do componente do carbono na Pegada Ecológica moveria a data em 93 dias.

Elementos da campanha de 2018

Calculadora da Pegada Ecológica agora disponível em Inglês, Francês, Italiano e Espanhol. Permite aos usuários calcular a Pegada Ecológica individual e o Dia da Sobrecarga da Terra pessoal.

Pelo terceiro ano consecutivo a Global Footprint Network e os seus parceiros convidam o público a explorar um conjunto de passos para mover a data (“Steps to #MoveTheDate”), o movimento global que apoia a saída da humanidade da sobrecarga ecológica.

As mudanças sistêmicas requerem um envolvimento individual, bem como a mobilização a uma larga escala para que instituições, de empresas a governos, se empenhem na redução da sobrecarga. A campanha inclui um apelo à ação: desde a sensibilização de amigos e família; à organização de eventos locais para promover a ideia de prosperar dentro dos limites planetários; ao contacto com governantes; até à criação de programas no local de trabalho para demonstrar aquilo que a Pegada Ecológica pode fazer.

“Na Global Footprint Network acreditamos que o uso excessivo dos ecossistemas da Terra constitui um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta na atualidade, sendo que as alterações climáticas são uma parte importante desse desafio”, concluiu Wackernagel. “Transformar as nossas economias para responder a este desafio não é uma tarefa fácil. No entanto, da mesma forma que no passado a humanidade usou criatividade e engenho, poderemos fazê-lo novamente para criar um futuro próspero, livre de combustíveis fósseis e destruição do planeta”.

É possível consultar os resultados da Pegada Ecológica de países de todo o mundo na plataforma de dados: data.footprintnetwork.org.

Link permanente para este artigo: http://observatoriodadiversidade.org.br/site/1-de-agosto-foi-dia-da-sobrecarga-da-terra-data-mais-recente-desde-que-o-fenomeno-comecou-em-1970/

Sobre discriminação, preconceito e outras expressões da desigualdade

REPRODUÇÃO: Blogs CartaCapital

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Corrigir as desigualdades é um passo fundamental para que se construa uma sociedade mais justa. Isso implica rever as arbitrariedades seculares, estruturais e cumulativas que têm mantido os privilégios de um grupo em detrimento da difusão de direitos fundamentais para a totalidade da população.

Já sabemos que a malfadada classe média brasileira se preocupa muito mais com privilégios do que com direitos e, considerando que as relações sociais deste País são profundamente marcadas pela escravidão, percebemos o quanto a manutenção de negros e negras, bem como de suas produções culturais (incluindo a religiosidade), em posições de subalternidade configura-se como um componente perverso nas formas de praticar a segregação e o racismo.

Só que no Brasil ninguém é racista, embora quase todos conheçam alguém que o seja. Na verdade, falta a boa parte dos brasileiros uma conceituação simples, elementar, que lhes permita reconhecer na prática situações de discriminação, preconceito e intolerância e outros tantos fatores relacionados ao racismo.

Discriminação, por exemplo, é sinônimo de separação e procura estabelecer diferenças entre as pessoas. É um componente básico das políticas de segregação, que visam afastar e isolar minorias raciais, sexuais ou religiosas, impossibilitando que participem da vida social de forma integral e em igualdade de condições.

Ao dispensar a determinado grupo tratamento pior ou injusto em razão de características étnicas ou culturais, de orientações sexuais ou nacionalidade e mesmo por condições físicas e vitais, como deficiências, envelhecimento ou doenças crônicas, comete-se um ato que quebra o princípio da igualdade, ou seja, uma discriminação.

Qualquer distinção que implique exclusão, restrição ou preferência é uma atitude discriminatória. Se for motivada por raça, cor, sexo, nacionalidade ou religião deve ser enquadrada na esfera criminal. Na prática, quando alguém é impedido de entrar em algum lugar ou de fazer algo por ser negro incorre-se num crime de discriminação racial.

Ao lado da discriminação temos o preconceito, que é uma opinião formada antecipadamente, sem base, sem ponderação e sem conhecimento dos fatos. Em outras palavras, é uma ideia preconcebida, elaborada sem uma análise crítica e fundada num sentimento desfavorável e generalizado ou numa concepção irracional e a priori.

O preconceito gera suspeitas, ódio, aversão a outras raças, crenças, povos ou orientações sexuais, impelindo a ações discriminatórias e hostis. Um exemplo corriqueiro é não se sentar no transporte público ao lado de uma pessoa vestida de branco e com insígnias de religiões afro-brasileiras ou segurar a bolsa com mais cuidado quando se depara com um negro ou uma travesti.

O conjunto dessas atitudes preconceituosas e discriminatórias constitui o que chamamos de intolerância. É como agem aqueles que não admitem opiniões divergentes das suas, tanto em relação a questões sociais e políticas, quanto a expressões de religiosidade ou sexualidade.

A intransigência de algumas denominações evangélicas em relação às religiões de matriz africana, por exemplo, tem fomentado uma série de violências, como invasão a terreiros e ataques a adeptos. São comportamentos que tentam reprimir por meio de coação e da força (inclusive midiática) doutrinas que esses segmentos desaprovam ou julgam ser falsas.

O fato é que vivemos numa estrutura social racista, que alinha discursos, olhares e ações para traduzir na prática as definições de discriminação, preconceito e intolerância, fortemente imbricadas, e determinar a manutenção das desigualdades e injustiças.

Grosso modo, é como se negros não fizessem parte da sociedade e, apesar dos dados objetivos e subjetivos e dos propósitos políticos e jurídicos que nos ajudam a compreender as questões do racismo, tipifica-lo enquanto um crime tem sido um desafio para profissionais do direito e principalmente para as vítimas.

No Brasil, a polícia e a justiça escolhem tratar as pessoas em função do que lhes parecem ser. Em outros termos, policiais, promotores e juízes, em boa parte dos casos, não estão isentos de preconceitos ao imputar a lei e muitas vezes o fazem de forma discriminatória. A rigor, não há legislação que possa obrigar um indivíduo branco a amar um negro, mas é fundamental que a lei não permita que o direito de um cidadão seja violado pelo fato de ser negro, homossexual ou afro-religioso, por exemplo.

Existem aqueles que pensam mandar na sociedade em razão de uma suposta superioridade racial, econômica, sexual ou religiosa. Entretanto, não se pode permitir que determinados grupos sejam confinados, tornando-se legítimo e necessário que negros, indígenas, mulheres, LGBTs, afro-religiosos busquem lugares mais importantes na sociedade e tenham garantido total acesso a seus direitos.

Apoiar as lutas das minorias deve ser um compromisso de todos aqueles que acreditam na construção de um país melhor por meio de políticas compensatórias e de reparação. Os déficits que assolam o Brasil têm raízes históricas bem demarcadas, haja vista os problemas de habitação no campo e nas cidades, o encarceramento e o genocídio da população negra, a distribuição desigual de renda etc.

Não se pode exigir que a grande maioria da população aceite um discurso oficial que mantenha privilégios em detrimento de direitos. É acintosa a maneira como o atual governo vem tratando ou simplesmente desprezando temas fundamentais que os movimentos sociais levaram décadas para colocar em pauta. E é muito triste assistir à criminalização desses movimentos.

Não se pode condenar um povo inteiro a esperar por mais de século que a “evolução natural” da sociedade venha trazer-lhe dignidade e justiça. Mais do que nenhum direito a menos, é preciso assegurar o pleno exercício da cidadania, com liberdade de expressão, de consciência e de crença, com a garantia de ir e vir, sem nenhum tipo de discriminação e com plena igualdade.

Link permanente para este artigo: http://observatoriodadiversidade.org.br/site/sobre-discriminacao-preconceito-e-outras-expressoes-da-desigualdade/

A seleção francesa é um time africano?

REPRODUÇÃO: redação RFI em espanhol

 

Foto: Reuters/Damir Sagolj

“Não foi a França que ganhou a Copa, foi a África”. Essa frase foi lida com frequência nos últimos dias nas redes sociais. A presença de muitos jogadores de origem africana na seleção levou a muitos comentários racistas em diversos países europeus. Antes mesmo da final entre França e Croácia, o ex-jogador croata Igor Sticmac, convidado pela federação de seu país para estar presente na Rússia, fez a seguinte pergunta em sua página no Facebook: “alguém sabe contra quem jogaremos a final? ”. O comentário estava acompanhado de uma lista do site Sporf publicada no Twitter onde se via a lista de vários jogadores franceses ao lado de bandeiras africanas, subentendendo que muitos deles não são de nacionalidade francesa.

Comentários racistas

“É um comentário profundamente racista que não reflete a realidade do time francês. É injusto pois mesmo se, de fato, muitos pais nasceram em outros países, todos os jogadores são franceses”, afirmou Carole Gomez, pesquisadora do IRIS, o Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas.

Vários comentários do mesmo tipo foram publicados em nossas redes sociais. “É um roubo de talento descarado que a França faz com a África, antes roubavam recursos naturais, agora levam esses rapazes e suas famílias”, disse um internauta. Outro classificou os “bleus” de “seleção africana internacional” e afirmou que era “preciso verificar o local de nascimento da maioria dos jogadores”.

As verdadeiras origens

A realidade é bem diferente. Dos 23 jogadores selecionados por Didier Deschamps para representar o país na Rússia, 21 nasceram na França, como se pode ver na lista publicada pela Federação Francesa de Futebol (FFF). Kylian Mbappé nasceu por exemplo em Bondy, ao norte de Paris, enquanto que Paul Pogba é natural de Lagny-sur-Marne. Ngolo Kanté nasceu em Paris e Blaise Matuidi em Toulouse.

Somente dois jogadores nasceram em outro país: Steve Mandanda (República Democrática do Congo) e Samuel Umtiti (Camarões). Ambos chegaram na França aos dois anos de idade. Cresceram e tiveram a educação em escolas francesas. Além de terem tido toda a formação esportiva em clubes de bairro onde se destacaram até chegar ao mais alto nível.

A origem dos jogadores e a religião de cada um deles são temas extremamente delicados na França, onde as feridas do colonialismo continuam abertas. A vitória de 1998 foi interpretada na época como um triunfo da França “Black, Blanc, Beur”, ou seja, negra, branca e árabe.

As críticas da extrema direita

A extrema direita sempre criticou essa diversidade. O ex-líder do partido Front National (Frente Nacional, em português), Jean-Marie Le Pen, chegou a dizer em 2006 que o país não se “sentia representado em sua seleção” e criticou a presença de jogadores “de cor”.

Este ano, o partido, liderado por Marine Le Pen, preferiu a discrição. Chegaram a elogiar o espírito de fraternidade que havia no time, e que foi considerado como um dos fatores chave da vitória francesa.

Deschamps: “a diversidade é uma riqueza”

Didier Deschamps reivindicou a diversidade cultural de seu time. “A França tem jogadores de origem africana e dos territórios ultramarinos. Sempre foi uma riqueza para o futebol e para todos os esportes franceses”, declarou o treinador. Já os jogadores, como Pogba, Griezmann e Mbappé, por diversas vezes, declararam seu amor à República Francesa. A frase “Vive la République et vive la France”, tradicional nos discursos presidenciais, se tornou um bordão desta seleção que conquistou sua segunda estrela.

Link permanente para este artigo: http://observatoriodadiversidade.org.br/site/a-selecao-francesa-e-um-time-africano/

Carregar mais