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Narrativas n茫o expressam diversidade brasileira, dizem escritoras

REPRODU脟脙O: UNIVERSA UOL

Imagem: EFE

Mais de 70% dos livros publicados no Brasil entre 2005 e 2014 s茫o de homens, com uma predomin芒ncia de 97,5% de autores brancos, revela pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contempor芒nea da Universidade de Bras铆lia (UnB).

Para escritoras brasileiras, o dado expressa uma realidade sentida por autoras que reivindicam “narrativas a partir de outras vozes”. “A gente escreve sobre um universo que nos 茅 familiar. Como essa literatura feita hoje chega a um leitor que n茫o se identifica com esse universo?”, questionou a escritora Ana Maria聽Gon莽alves, autora de “Um defeito de cor鈥.

Ela participou esta semana em S茫o Paulo, junto com a tamb茅m escritora Bianca Santana e a chilena Sara Bertrand, do Semin谩rio Leitura e Escrita: lugares de fala e visibilidade, no qual debateram sobre o tema “Direitos Humanos e Literatura鈥.

“A gente luta pela diversidade dessas hist贸rias, dessas mulheres e homens negros que est茫o a铆 tentando fazer uma literatura, que dificilmente vai chegar at茅 voc锚s. 脡 algo que tem que ir atr谩s. Quando voc锚 quer s贸 ler mulheres negras, tem que ir atr谩s, perguntar, n茫o 茅 espa莽o f谩cil. Outras hist贸rias precisam ser contadas”, disse Ana Maria.
Sara Bertrand tamb茅m enfatiza a necessidade de uma literatura plural. “Existe um coro de vozes que merecem ser escutados. Merecemos. O mundo talvez fosse diferente se deixassem de temer a linguagem e come莽armos a entender a causa desse medo, medo de come莽ar a escutar as mulheres, os homossexuais”, disse a autora de “A mulher da guarda鈥.
Nascida na ditadura chilena (1973-1990), a escritora aponta que essa experi锚ncia marca sua escrita. “N茫o vejo distin莽茫o entre o que escrevo a partir da mem贸ria, da identidade e a pergunta ‘para onde vai a humanidade?鈥”.

Trajet贸rias

As autoras destacam a import芒ncia da pr贸pria trajet贸ria na constru莽茫o das narrativas. “Um defeito de cor” foi um livro chave na forma莽茫o da minha identidade. A gente que tem essa identidade mesti莽a no Brasil, minha m茫e 茅 negra e meu pai 茅 branco, desde muito cedo as pessoas te incentivam a abandonar essa negritude”, relatou.
Ela conta que ao escrever este livro buscou hist贸rias que n茫o teve acesso. “Uma hist贸ria que me foi negada historicamente, socialmente, culturalmente e que me foi negada a ponto de quererem que eu n茫o seja parte desse lado”, explicou. A obra 茅 sobre uma africana idosa e cega que viaja ao Brasil em busca do filho perdido h谩 d茅cadas.
Bianca Santana conta que tamb茅m trouxe de suas experi锚ncias e da “necessidade de saber” a base para a sua escrita. “Veio da necessidade de saber as hist贸rias de qualquer coisa que n茫o sei o que 茅. Gosto muito de ouvir hist贸rias鈥.
Ela relembrou epis贸dios da inf芒ncia em que ficava fascinada pelo mundo dos livros, mas que estranhava hist贸rias distantes da sua realidade. “Lembro de perguntar muito pra minha m茫e e av贸: ‘Mas e as hist贸rias ind铆genas?’. N茫o tinha tanto acesso 脿 informa莽茫o. E elas falavam: ‘Mas 铆ndio n茫o escreve, menina. Que bobagem!'”, contou.

Pesquisa

O levantamento desenvolvido pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contempor芒nea da Universidade de Bras铆lia (UnB) revela tamb茅m que mais de 60% dos autores moram no eixo Rio-S茫o Paulo. A pesquisa, que tra莽a um panorama dos romances brasileiros, analisa tr锚s per铆odos: de 1965 a 1979, de 1990 a 2004 e 2005 a 2014.
Em rela莽茫o ao sexo dos autores, percebe-se que h谩 um pequeno avan莽o na participa莽茫o feminina entre o segundo (27,3%) e o terceiro per铆odo (29,4%). O percentual na d茅cada de 1970 era de 17,4%. Em rela莽茫o 脿 quest茫o racial, a participa莽茫o de brancos se ampliou, passando de 93% de 1965 a 1979, chegando a 93,9% de 1990 a 2004 e alcan莽ando 97,5% de 2005 a 2014.
Para a coordenadora do estudo Regina Dalcastagn猫, professora do Departamento de Teorias Liter谩rias e Literaturas da UnB, os dados demonstram que o racismo estrutural na sociedade brasileira tamb茅m est谩 presente no meio liter谩rio.
“O racismo, quando n茫o exclui simplesmente, dificulta o acesso dos negros a todos os espa莽os legitimados de produ莽茫o e enuncia莽茫o de discursos – espa莽os de poder, em suma. N茫o se trata de acusar um editor ou outro de ser racista ao n茫o publicar autores negros, 茅 mais complexo que isso, e por isso mesmo 茅 pior鈥.
Ela avalia que o campo liter谩rio – formado por escritores, editores, cr铆ticos, professores, jornalistas, curadores, bibliotec谩rios, leitores – aceita “muito mal a produ莽茫o de autores negros”. “Quando muito, coloca-a em um nicho para evitar que se misture 脿 Literatura com ‘l’ mai煤sculo, aquela coisa que n茫o teria cor, sexo, classe, orienta莽茫o sexual, idade”, apontou.
Para a pesquisadora, no entanto, esse contexto vem, aos poucos, se alterando. “Nunca tivemos tantos escritores negros e negras produzindo e sendo lidos – 茅 preciso lembrar que o acesso dos negros ao letramento no Brasil foi muito tardio e que o acesso 脿s universidades 茅 recent铆ssimo鈥.
Regina Dalcastagn猫 avalia que redes sociais, publica莽玫es independentes, coletivos de escritores, pequenas editoras t锚m apontados novos caminhos na democratiza莽茫o da literatura. “O caminho n茫o parece ser o das grandes editoras, das grandes livrarias e da grande m铆dia”.

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