Reprodução Instagram / Federação Povo Huni Kui AC

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Povo Huni Kui: a prática para a preservação da floresta

Foto de capa: Reprodução Instagram / Federação Povo Huni Kui AC (@fephac.hunikuin)

No âmbito da programação realizada ao longo do mês de maio último sobre a contribuição da cultura para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, o Observatório da Diversidade Cultural convidou a liderança Ninawa Inu, presidente da Federação do Povo Huni Kui do Estado do Acre (FEPHAC), para apresentar seu projeto de Escola Agroambiental como exemplo de contribuição da cultura para os ODS da Dimensão Ambiental. Impossibilitado de participar da conversa online realizada no dia 25 de maio, Ninawa se fez representar pela colaboradora Joana Euda Barbosa, mais conhecida como Joana Munduruku, com quem o ODC fez a entrevista a seguir.

Observatório da Diversidade Cultural – Quem é Joana Munduruku?

Joana Munduruku – Sou do povo Munduruku, do Pará. Atualmente, estou como colaboradora na FEPHAC aproximadamente há cinco anos. Trabalhei no Mato Grosso, mas minha vida de 25 anos de trabalho, luta pelos povos indígenas e defesa da cultura foi no Estado do Tocantins e também no Ministério da Cultura, durante 10 anos, como colaboradora com a finalidade de criar e implantar o Colegiado Indígena e defender o direito de um assento para representação indígena no Conselho Nacional de Cultura, que foi uma luta muito boa! E, sempre junto com Ninawa, nós desenvolvemos todo esse trabalho e continuamos juntos aqui na FEPHAC. Ele está presidente há 12 anos, e está terminando um mandato. E eu estou, atualmente, como chefe de gabinete da FEPHAC. Mas, durante esse tempo todo, temos trabalhado com o objetivo de alicerçar a Federação, seja como instituição representativa, implantando um sistema de governança e protocolo próprio, seja com o fortalecimento cultural e o desenvolvimento, beneficiando as comunidades Huni Kui.

ODC – Você pode falar um pouco sobre o povo Huni Kui e sobre a liderança Ninawa?

Joana Munduruku – O povo Huni Kui é formado por aproximadamente 16.400 pessoas, só no Acre. Eles são um povo que se estende além do Brasil, até o Peru. Eles têm 117 aldeias, que estão aumentando a cada ano. Existem 12 territórios Huni Kui e eles são o único povo no Estado do Acre que tem um governo próprio. Nós temos uma governança que foi criada na última assembleia, em 2019, e assim, podemos dizer que temos buscado praticar o que a legislação brasileira nos concede, autonomia para desenvolver as atividades que precisamos.

O Ninawa é um guerreiro que sempre trabalhou em defesa da questão ambiental e climática, respeito aos direitos dos povos indígenas, fortalecimento cultural e autonomia. Ele participa de eventos internacionais e compõe o conselho dos Guardiões Internacionais da Mãe Terra, que reúne líderes e representantes de todos os povos nativos para essa luta.

ODC – Como é o Projeto da Escola Agroambiental que o Povo Huni Kui está desenvolvendo?

Joana Munduruku – A Escola Agroambiental já nasceu na prática, e aos poucos estamos rascunhando o projeto no papel, o que temos conversado e observado ser importante, embora já estejamos colocando em prática.

O povo Huni Kui é reconhecido como os guardiões dos segredos medicinais da floresta. Nós somos povos da floresta, pois eu também sou filha de povo da floresta. E a floresta, para os povos nativos, assim como o Huni Kui, é sagrada. Tudo o que está dentro da floresta é sagrado. Tanto é que o kenê, que são os grafismos sagrados dos Huni Kui usados nas tramas das roupas tecidas de algodão nativo pelas mulheres, trabalhando nos teares antigos e próprios, os desenhos do kenê fazem referência a tudo que compõe o meio ambiente – os animais, os rios, enfim, um contexto único; nós não conseguimos separar.

Com a questão da pandemia, a preocupação era a suficiência alimentar, pois a pandemia atingiu os povos indígenas de forma tão violenta, que as comunidades tomaram a decisão de se isolar e suspenderam a entrada de qualquer pessoa não Huni Kui nas aldeias; somente a equipe da saúde. E começamos a pensar como iríamos gerar uma sustentabilidade para a manutenção do povo sem que afetasse o meio ambiente, sem que destruísse as florestas.

A FEPHAC, com o apoio do Banco do Brasil, já vinha desenvolvendo uma produção agrícola orgânica para ampliar, aumentar a quantidade da produção em quatro aldeias. E foi tão positivo o resultado que o próprio Banco investiu para comprar essa produção através da FEPHAC, e distribuir para as comunidades indígenas e não indígenas que não tivessem alimentação. Com esse trabalho, todos se envolveram e foram atendidos. Essa experiência nos levou a pensar na criação de um banco de sementes e na continuidade da segurança alimentar. Nós não podemos perder isso de vista e, também, buscar minimizar o uso da alimentação que vem da cidade. Grande parte dos produtos não são naturais e as pessoas adoecem. Então, era preciso garantir a preservação dos conhecimentos sobre o uso das ervas medicinais, e continuar a produzir os alimentos tradicionais que foram usados e mantiveram as comunidades protegidas. Então, vamos produzir, aumentar e garantir aquilo que é nossa produção alimentar – isso é cultura, isso vem da terra, é um conhecimento que completa o todo de uma cultura. “Então, vamos criar uma escola agroambiental Huni Kui”, e junto com o Ninawa e a comunidade, decidimos.

Comecei a rascunhar o projeto, aí eles disseram: “professora, o projeto vai demorar. Vamos começar logo”. Então, Ninawa começou o projeto nas três comunidades dele e, a experiência dando certo, a ideia era ampliar. Então, enquanto eu escrevia o projeto, ele chamou as três comunidades e eles começaram a fazer os canteiros. A proposta foi dividida em: coletar as sementes das árvores tradicionais, árvores frutíferas tradicionais, mas que não são comuns na aldeia, que vêm de outros lugares, mas com que eles também se alimentam; a produção da continuidade daquilo que é a tradição alimentar, como a mandioca, o cará, a banana (pois é um povo que, juntamente com os 16 povos indígenas do Acre, são os maiores produtores de banana. Toda a alimentação deles, inclusive a massa da farinha que eles usam para se alimentar, vem da banana). Então, ele chamou as mulheres, chamou os homens, que trouxessem seus filhos, distribuiu a ideia, conversaram e ele disse: “vamos fazer aqui na aldeia uma espécie de laboratório; vamos começar a fazer os canteiros, cada um vai coletar as sementes que tiverem”. E eles começaram a trabalhar nisso. Algumas pessoas gostaram do trabalho que estavam desenvolvendo e foram tentando ajudá-lo. E ele, então, ao invés de sentar para explicar, ele leva as crianças e vai trabalhando, para pegar o paú – que é uma mistura da terra com folhas podres e que é preparado quando a folha já está bem digerida pela terra. Mostra como preparar os canteiros. Se alguém quiser ver, está no Instagram da FEPHAC ele trabalhando com as crianças em torno dele, fazendo as mudas e fazendo esse preparo e falando.

ODC – E qual é o objetivo da Escola Agroambiental do Povo Huni Kui?

Joana Munduruku – A proposta dessa escola que ainda está informal é, futuramente, aos poucos, fazer o prédio com espaços para as atividades formais, normatizar um curso para formar profissionais indígenas na área ambiental e, por fim, fazer um banco de sementes para acondicionar as sementes para que essas sementes perdurem. Se houver uma perda de sementes tradicionais, que tenha lá no banco de sementes dentro do projeto da escola, para poder dar continuidade à produção, para eles não ficarem sem aquela alimentação. E a escola é prática. A ideia é, aos poucos, construir um espaço físico com as tradições indígenas Huni Kui, e trazer jovens, trazer outras pessoas para trabalhar com os mais velhos, coletar sementes e mudas específicas e distribuir para as aldeias que estão precisando fazer um reflorestamento. E a proposta é que seja feito com plantas nativas, próprias da região deles, próprias da floresta, e que não venham de espaços estranhos que não têm nada a ver com a floresta. Projetando que futuramente a escola venha a se tornar um centro de formação, preparando profissionais Huni Kui na área ambiental, utilizando os conhecimentos tradicionais.

E, no final de tudo, garantir que, caso venha a acontecer uma pandemia, eles tenham as sementes e tenham a produção alimentar garantida, fortalecendo a cultura alimentar, a diversidade da expressão cultural deles, porque em tudo deles está incluída a floresta – e os animais também fazem parte disso. Tanto é que o Huni Kui tem dentro do seu clã, a onça, um símbolo sagrado, além de serem o povo da jiboia. A jiboia é extremamente sagrada para eles, porque ela é a grande mestra dos conhecimentos, pois de acordo com a cosmologia histórica a jiboia ensinou às mulheres os desenhos (Kenê), é ela que transmite para as mulheres os desenhos que elas podem usar no Kenê, na hora do trabalho. Sendo que para fazer um desenho elas têm precisam entoar o canto sagrado e, assim, terem permissão de ver o desenho e de reproduzir no tear ou na pintura. Então, isso é a vida cultural do povo Huni Kui.

ODC – Como a Pandemia de Covid-19 afetou o povo Huni Kui até agora?

Joana Munduruku – A primeira atitude do povo Huni Kui foi se isolar. Nós temos um protocolo, uma lei interna que rege o povo Huni Kui e, então, cada comunidade também criou normativas locais e se fechou, para que ninguém entrasse e ninguém saísse. Somente o cacique tinha autorização de ir até a cidade e voltar, sendo que ele tinha que se preparar quando voltasse para poder entrar na aldeia. Os mestres que conhecem os segredos dos remédios da floresta – o que se chama hunirawa (pajé) – começaram a aplicar seus conhecimentos para cuidar de quem estivesse infectado pelo Coronavírus e, também, para prevenir. Essa iniciativa das comunidades ajudou, evitando que a pandemia tivesse proporções de disseminação maiores que o esperado. Aconteceram óbitos, principalmente de idosos, sendo uma preocupação que a gente tem. Mas, houve uma proteção maior e podemos dizer que foi mínima a ida deles para o hospital, e isso repercutiu. Os chás preparados com as ervas minimizaram o impacto do Corona e vimos que isso era importante, e eram segredos guardados por eles. O que fizemos foi passar a pensar na alimentação. Infelizmente, a enchente levou a maior parte dos canteiros, mas estamos com a proposta de recomeçar e recuperar tudo de novo.

ODC – Qual é o papel das mulheres do povo Huni Kui no projeto?

Joana Munduruku – Dentro desse trabalho da escola, as mulheres têm um papel importante porque, além de ajudarem com os canteiros, elas têm muitos conhecimentos sobre cultivos, além de usarem os cantos sagrado para que os legumes produzam. Tudo o que se faz com os Huni Kui tem o canto sagrado. Se você vai plantar, tem um canto sagrado, o canto dos legumes, o canto das frutas para a mãe terra poder liberar e haver a produção. Então, as mulheres fazem apresentações de lives para divulgar a escola, e elas trabalham no sentido de ajudar, de divulgar, de coletar o material (sementes). Dentro desse projeto, temos a proposta de trabalhar com as mulheres e, em especial, canteiros de legumes mais utilizados pelos Huni Kui, canteiros de ervas medicinais coletadas na floresta – proposta feita pela engenheira agrônoma, consultora que nos ajuda – e, também, aumentar a produção do algodão nativo, que é o algodão próprio de fazer a roupa de Kenê. Então, isso também faz parte desse projeto.

ODC – No Projeto da Escola Agroambiental, como se dá o diálogo entre a preservação do meio ambiente e a promoção da cultura do Povo Huni Kui?

Joana Munduruku – O povo Huni Kui tem uma cultura tão viva e normal do dia a dia, que não há como se separar cultura e meio ambiente, e a escola agroambiental vem propor o fortalecimento disso, cada vez mais envolvendo os jovens e promovendo a conscientização de que são eles que darão continuidade a ações de preservação de todas as formas de expressão cultural, que as crianças tenham educação ambiental na prática desde o início de suas vidas – a criança com seis anos já está lá, ajudando, vai para a escola formal, mas continuam na prática cotidiana a educação ambiental, a preservação ambiental e o cultivo da sua alimentação tradicional, que entendemos  depender desse trabalho.

ODC – Qual a importância dos bancos de sementes no contexto em que vivemos?

Joana Munduruku – O banco de sementes é um sonho que eu alimento há muitos anos, desde quando trabalhei com os Krahôs e vi a perda de sementes e a dificuldade alimentar deles. Então, eu vim alimentando esse sonho e, quando começamos a falar sobre a escola agroambiental, começamos a fazer experiências no Território Jhenê Bariá Namakia, na aldeia Yskuiá Yuxibu, como um embrião.  Eu disse para Ninawa: “eu tenho um sonho que gostaria de colocar dentro desse projeto: um banco de sementes. Nunca houve um banco de sementes dentro de um povo indígena”. Ele me pediu para explicar como é esse projeto, e eu expliquei e disse que o dinheiro do banco é a própria semente. Esse banco vai ajudar comunidades que tiverem o seu banco, ao mesmo tempo em que ele pode ajudar outras comunidades que não têm mais a semente, a terem novamente. É um negócio com sementes, pois a troca é sempre em sementes. Depois que estivermos com tudo estruturado, com todas as nossas sementes tradicionais, originárias nossas, nós podemos promover uma feira de sementes, convidando outros povos para debater, conversar sobre isso. Então, o banco de sementes foi uma ideia que eu vinha acalentando e que foi abraçada pelo presidente da FEPHAC, já que ele também abraçou a proposta da escola agroambiental. O banco de sementes tem que ser bem trabalhado para acondicionar as sementes, de forma tradicional, sem que estraguem e que de um ano para outro eles tenham sementes suficientes para fazer as suas plantações.

Dentro da alimentação dos Huni Kui existe o amendoim (Tamar), e nós conhecemos o amendoim do mercado, vermelhinho. Eles são grandes produtores de amendoim porque a comida básica deles é a banana com amendoim, e um tipo de milho que não é o milho amarelo, mas um outro tipo de milho, que é todo colorido e a massa é diferente. Então, a cada ano, eles têm que aumentar a produção desse amendoim. Ele é plantado praticamente na beira do rio, vem a enchente e, quando baixam as águas e aparece a praia, as famílias plantam. Quando os amendoins são tirados, uma parte eles usam durante o ano, mas eles têm que acondicionar as sementes para plantar no ano seguinte. O pessoal, geralmente, amarra as sementes e pendura acima do fogo, dentro de casa, para que a fumaça afaste qualquer bicho. Mas, a ideia é levar para dentro de um banco de sementes em uma casa tradicional deles e buscar um apoio, se possível da Embrapa, para que a gente possa dar continuidade. Porque, no caso dos Krahôs, quem conseguiu recuperar as sementes perdidas do milho sagrado foi a Embrapa.

 

Para saber mais sobre o trabalho da FEPHAC: https://fephac.wixsite.com/fephac

Link para a live do ODC sobre Cultura e Proteção Ambiental: https://www.youtube.com/watch?v=eq8DYoG_vOI&t=3888s

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