Imagem de capa: Secretaria Nacional da Economia Criativa e Diversidade Cultural
Por Luana Vilutis[1]
Em 2010, após dez anos de atuação profissional no campo cultural e de economia solidária, procurei focar meu projeto de doutorado na convergência e intersecção entre essas duas áreas. Por acompanhar o programa Cultura Viva e os pontos de cultura desde o início, tinha inquietações acerca dos alcances e limites das políticas públicas na promoção da diversidade cultural e no fomento à sustentabilidade de organizações da sociedade civil. É nesse contexto que a pesquisa se insere: na disputa política e simbólica existente em ações públicas de valorização da diversidade cultural voltadas à promoção da autonomia comunitária e à sustentabilidade de grupos e iniciativas culturais.
No ano de 2011 ingressei no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos – IHAC na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e fiz minha tese de doutorado sob orientação do Professor Albino Rubim. A pesquisa analisa as presenças e ausências da economia solidária nas políticas culturais brasileiras de 2003 a 2014, em especial no programa Cultura Viva. Os limites dos instrumentos de fomento público a associações culturais foram verificados no âmbito mais amplo dos desafios das relações entre o Estado e a sociedade civil e, mais especificamente, nas premiações de pontos de cultura realizadas ao longo da história do Cultura Viva.
A pesquisa de campo debruçou-se em uma ação pública desse programa chamada Economia Viva, implementada entre 2010 e 2012, e buscou investigar sua intencionalidade, seus alcances práticos e o perfil das iniciativas premiadas. Os três principais esforços empreendidos nesta investigação foram: compreender os desafios enfrentados pelos pontos de cultura para formar empreendimentos culturais e realizar projetos produtivos de forma continuada e participativa; pesquisar a forma de organização e o sentido do trabalho associativo em rede dos pontos de cultura e a relação com a sua sustentabilidade em uma concepção multidimensional; e analisar o papel do Estado em promover a diversidade econômica de iniciativas culturais voltadas ao desenvolvimento territorial e à autonomia coletiva.
A partir das experiências pesquisadas, pudemos identificar algumas recorrências e singularidades que oferecem importantes aprendizados relativos às múltiplas dimensões da sustentabilidade. A atuação dos pontos de cultura pesquisados combina integração produtiva com promoção da diversidade cultural; inovação social e pertencimento comunitário; mobilização social e formação política; relações de alteridade com laços de solidariedade; coesão social e autonomia institucional; desenvolvimento territorial e articulação em rede, dentre outras convergências. A complementariedade desses aspectos aponta para uma sinergia de ações culturais, sociais, econômicas, ambientais e políticas que reforçam a importância de compreender a sustentabilidade também de forma plural. Ao final, buscamos compreender a conexão dessas práticas com as políticas culturais voltadas à promoção da diversidade cultural e de geração de renda, como proposto no programa Cultura Viva e no Prêmio Economia Viva.
Mesmo tendo sido escrita antes do golpe de 2016 e sem poder prever tamanho retrocesso das políticas culturais em curso a partir de então, foi possível sinalizar na pesquisa algumas contradições, limites e desafios do fomento público às iniciativas que integram cultura e economia solidária no Brasil.
A tese está disponível no Repositório da UFBA e pode ser acessada aqui: http://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/30703
Boa leitura!
[1] Socióloga e educadora, trabalha com formação e pesquisa nas áreas de políticas públicas e desenvolvimento, com ênfase em estudos intersetoriais de cultura e economia solidária. Doutora em Cultura e Sociedade pela UFBA, Mestre em Educação pela USP. Integra a equipe de pesquisadores e professores do Observatório da Diversidade Cultural – ODC.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]