O Big Brother Brasil (BBB), um dos programas com maior audiência da televisão brasileira na atualidade, parece estar preocupado com a representação da diversidade entre os participantes em suas últimas edições, e as reações e manifestações do público em relação à manutenção de um padrão étnico, racial e de gênero excludente e não representativo.
Avanço na diversidade
A edição de 2005 foi marcada por um acontecimento importante para a comunidade LGBTQIA+. Jean Willys foi o primeiro participante homossexual assumido a ganhar o programa. Jean afirmava que sofria dentro da casa por ser um homem gay. Em 2010, Dicesar foi a primeira Drag Queen a participar do programa e revelou sua drag Dimmy Kier ao Brasil.
Na edição número 11, a participante Ariadna Arantes se tornou a primeira transexual a entrar na casa mais vigiada do Brasil. Sua jornada no programa não foi longa, pois saiu logo na primeira semana.
Em 2020, apenas três participantes negros estavam entre os 18 participantes da edição. Entretanto, a ganhadora foi exatamente uma mulher preta, a médica Thelma Assis. Após manifestações positivas, no ano seguinte a produção parece ter entendido a importância da diversidade no reality e buscou ampliar sua presença na composição dos participantes. No BBB21, houve um aumento considerável de integrantes negros na edição. Além disso, questões de sexualidade geraram discussões dentro e fora da casa. O Brasil acompanhou os conflitos do participante Lucas Penteado ao beijar Gil do Vigor na boca, e seus desafios e medos de sofrer homofobia na família, entre amigos e na sociedade em geral. O acontecimento teve uma repercussão muito grande na comunidade LGBTQIA+ e nos movimentos emancipatórios da população negra brasileira.
BBB 2022 e a Diversidade
Na história do programa, a edição de 2022 é a mais diversa no que se refere à questão de gênero.
Após longos 11 anos, a segunda representante da comunidade trans e travesti apareceu. É a cantora e ativista Linn da Quebrada, ou como ela mesma se registrou oficialmente: Lina, que entrou na edição 2022 compondo o elenco “Camarote” do programa.
Ao mesmo tempo que vemos mudanças em relação à diversidade, podemos considerar que a emissora demorou muito a entender a importância disso. Percebemos os avanços, mas não o suficiente para considerar a emissora a maior aliada da comunidade LGBTQIA+.
Em 2021, o programa contou com a participação de uma lésbica, Lumena Aleluia, dois gays, Gil do Vigor e João Luiz Pedrosa, e as cantoras Karol Conká e Pocah, duas bissexuais. Já em 2022, além da diversidade de gênero, há a participação de pessoas com corpos que não reproduzem padrões de normatividade e de beleza. A edição inclui uma travesti, a cantora, atriz e militante Linn da Quebrada, uma lésbica, a bailarina Brunna Gonçalves, dois gays, o cantor e ator Tiago Abravanel e o influencer Vinicius Fernandes, o bailarino bissexual Luciano Estevan, além de Natália Deodato, portadora de vitiligo.
Entretanto, o dia a dia da casa revela o quanto a disputa pelo prêmio de R$ 1,5 milhão assume contornos preconceituosos, reproduzindo o racismo e a discriminação existente na sociedade. A passividade em relação ao racismo, à homofobia e à transfobia mata. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os considerados crimes de ódio (racismo, feminicídio e os crimes contra a população LGBTQIA+) crescem ano a ano no Brasil. De acordo com o anuário, o número de homicídios entre a população LGBTQIA+ aumentou 25%, e o de estupros, 21%, em 2020. Também houve aumento de 21% no número agressões: 1.169 registros de lesão corporal em 2020, ante 967 em 2019. Ainda segundo o anuário, 75% das vítimas da violenta letal no Brasil são negras, de acordo com os dados de 2019. Jovens negros morrem mais do que jovens brancos e policiais negros, embora sejam 37% do efetivo das polícias, integram 51,7% dos assassinados. Também são as mulheres negras quem morrem por assassinato e sofrem mais assédio.
E por que falamos tanto de diversidade na televisão? Por que é tão importante ter uma pessoa como a Lina na maior audiência do Brasil?
De acordo com Jaqueline de Campos Medeiros, em recente artigo que trata a relação da diversidade e BBB, “estamos falando de meios de comunicação geridos como indústrias, que são naturalmente mutantes, e que, portanto, sua formulação é confrontada frequentemente seja pela política atuante, seja pela classe dirigente, seja pelas mudanças sociais que se contrapõem a essa forma de saber hegemônico.”
Portanto, a presença de pessoas com identidades e corpos tão distantes dos padrões dominantes de normatividade, escancara a necessidade de aprofundamento dos debates e da efetiva garantia de cidadania plena a todos, todas e todes brasileiros. Mas tudo isso ainda é pouco e as mudanças efetivas acontecem muito devagar. Somente em janeiro desse ano a Organização Mundial da Saúde (OMS) alterou a Classificação Internacional de Doenças (CID), definindo a transexualidade, até então considerada doença mental, como incongruência de gênero e não mais como distúrbio de identidade de gênero.
Ainda é importante ressaltar que “(…) as emissoras carregam consigo interesses de um grupo dominante que ao institucionalizar seus interesses, impõe regras a toda sociedade, assim como padrões de conduta e os “ modos de racionalidade que tornam normal e natural o seu domínio” (ALMEIDA, 2018).
Com essa edição as questões identitárias tão evidentes e urgentes na sociedade brasileira ganham ressonância ao se fazerem presentes no ambiente das mídias massivas. Mas, revela também a necessidade de mais avanços, tanto no programa quanto na própria sociedade. Reconhecer a resistência e a luta dos perseguidos por suas diferenças, mas sem aceitar o pouco que é feito com suficiente. Este parece ser o desafio.
Referência:
ALMEIDA, Silvio Luiz. O que é racismo estrutural?. Belo Horizonte: Letramento, 2018.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
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