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Mito do 7 de setembro é uma versão palaciana e monárquica, afirma Lilia Schwarcz

REPRODUÇÃO: BAND NOTÍCIAS

O Canal Livre recebeu a antropóloga, historiadora e escritora Lilia Schwarcz. A entrevista deste domingo faz parte do projeto “Band nos 200 anos da independência”. Lilia é grande estudiosa do Brasil do século XIX e autora de um novo livro sobre o 7 de setembro de 1822.

A historiadora começou falando sobre o novo trabalho, “O Sequestro da Independência” que fala sobre a construção do mito do dia 7 de setembro.

“A gente trabalha muito com essa noção de sequestrar no sentido de roubar uma cena, um sentido ou um conceito. No livro, a gente mostra como essa versão vitoriosa do 7 de setembro que nós temos, de Dom Pedro nas margens do Ipiranga e tudo mais, foi uma construção! Que em 1822, a independência foi saudada na própria capital, que era o Rio, a partir da sagração e da coroação de Pedro I. Essa versão colada ao 7 de setembro, ela foi um primeiro sequestro. Porque em 1830, Dom Pedro já andava muito mal, iria renunciar em 31 com muitas aspas. E ele lança um documento falando do majestoso acontecimento às margens do Ipiranga. Até então ninguém falava do Ipiranga! E assim se construiu essa versão palaciana, monárquica e com o protagonismo de Dom Pedro.” afirmou.

E além desse sequestro, Lilia enumerou outros momentos que são falados em sua nova obra.

“Em 1922, centenário da Independência, São Paulo sequestra a Independência! Então a ideia e a construção do museu paulista. O vínculo com o bandeirismo, com o tropeiro e tudo mais tem a ver com a noção de que São Paulo quer chamar pra si a o protagonismo da emancipação política do Brasil. Mas podemos falar também de 1972, que é um sequestro militar nos 150 anos da Independência” finalizou.

Lilia destacou as mulheres fundamentais na Independência. A escritora falou do papel que teve a Princesa Leopoldina na nossa história.

“Ela tem um papel fundamental para emancipação brasileira. E podemos ver isso na pintura da Georgina de Oliveira, onde a Leopoldina aparece dialogando e tomando a decisão da emancipação. A outra tela que ficou famosa com a Leopoldina, representada como mãe, foi uma encomenda do museu paulista, do Toné. E ele justamente queria ao lado da famosa tela do Pedro Américo, para que ela aparecesse ao lado como esposa.

 

Então é muito interessante a gente pensar que as duas telas estão faceadas. Dom Pedro como o grande protagonista da Independência na tela do Pedro Américo, e na tela de Georgina, Leopoldina como a mãe de Pedro II, e portanto a esposa de Pedro I.  Essa organização das telas, na minha opinião, fala muito dessa visão oficial da história do Brasil. Se nós tomarmos a visão vitoriosa, que é a visão que está na tela de Pedro Américo, qual é a visão que temos da nossa emancipação? Nós temos uma imagem da nossa emancipação europeia, palaciana e masculina; sem o povo, sem negros, sem indígenas e sem mulheres”.

Um dos fatos históricos que mais contribuiu para o processo da Independência, a Conjuração Mineira, também foi tema do programa.

“Eu falaria de duas conjurações, né?! A conjuração mineira e a conjuração dos alfaiates, que é a conjuração em Salvador. Que na minha opinião é uma conjuração mais radical do que a conjuração mineira, porque ela é mais popular. Por que a conjuração mineira tem esse papel tão fundamental? Por que ela é quem fala em liberdade. Até então você tinha movimento nativistas que não falavam em emancipação política. Esse desejo pela liberdade, e por isso que eu acho que esse processo começa lá em Minas” afirmou.

 

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