COLUNAS

Slamize-se quem puder – Coluna Alexandre Barbalho 10/09/2024

O slam brasileiro revela uma pot锚ncia po茅tica que desafia os centros culturais e conquista novos p煤blicos

Por聽Alexandre Barbalho

 

Outubro de 2023. Na laje do Museu de Arte do Rio (MAR), abria a exposi莽茫o 鈥Gira da poesia: 15 anos de slam no Brasil鈥. A curadoria de Roberta Estrela D鈥橝lva, Luiz Rom茫o e J煤lio Ludemir dava a ver parte do acervo do N煤cleo Bartolomeu e da Festa Liter谩ria das Periferias (FLUP). No andar imediatamente baixo, j谩 nas salas de exposi莽茫o do MAR, estava em cartaz 鈥FUNK: Um grito de ousadia e liberdade鈥. Com curadoria da equipe do museu e mais Ta铆sa Machado e Dom Fil贸, e a colabora莽茫o de Deize Tigrona, Celly IDD, Tamiris Coutinho, Glau Tavares, Sir Dema, GG Albuquerque, Marcelo B Groove, Leo Moraes, Zulu TR, a mostra trazia um pouco do universo do funk carioca.

Situado na pra莽a Mau谩, zona portu谩ria no centro da cidade do Rio de Janeiro 鈥 聽vizinho do s铆tio arqueol贸gico do Cais do Valongo, principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil 鈥, o MAR parecia 脿 vontade para receber as duas exposi莽玫es e seus p煤blicos, a despeito da impon锚ncia dos pr茅dios que lhe constituem: um palacete ecl茅tico e um edif铆cio modernista.

Julho de 2024. A mesma gira chega ao Instituto Tomie Ohtake como parte de um projeto mais amplo, o festival 鈥Poesia聽em presen莽a 鈥 Entre cenas, slam, spoken word e rap鈥. Com curadoria de聽Dani Nega, o festival, al茅m da exposi莽茫o, proporcionou oficinas, debates e performances, com a presen莽a de importantes聽slams聽brasileiros:聽Slam Coalkan,聽ZAP! Slam,聽Menor Slam do Mundo,聽Slam da Guilhermina,聽Slam das Mul茅聽e o聽Slam do Corpo. Na parte de baixo do Tomie, uma exposi莽茫o reunia dois cl谩ssicos modernistas: Calder+Mir贸.

Margeando a avenida Brigadeiro Faria Lima, centro financeiro e comercial de S茫o Paulo, o Instituto recebeu p煤blicos poucos usuais nesses dias de festival. 聽Pelo pr茅dio projetado por Ruy Ohtake com formas geom茅tricas e suas cores 鈥 que se destaca de seus vizinhos austeros, mais adaptados ao humor do mercado 鈥, passaram pessoas que nunca imaginaram (ou quiseram), at茅 ent茫o, quebrar a barreira simb贸lica que impedia o seu acesso gratuito 脿quele espa莽o expositivo.

Essa passagem do slam da rua para dentro de institui莽玫es consagradas e consagradoras no campo das artes 茅, talvez, a face mais vis铆vel para quem mora nas partes nobres das urbes, de um movimento potente de produ莽茫o po茅tica situado fora do centro liter谩rio brasileiro. Nas margens, nas periferias das cidades em todo o pa铆s a poesia corre solta!

Se o Rio sedia a FLUP e S茫o Paulo a Cooperifa, em Fortaleza, como exemplo para sair do eixo, ocorrem saraus em bairros onde n茫o chega a elite cultural da cidade. A exemplo do Sarau da B1 que acontece desde 2015 na pra莽a da avenida Bulevar 1, no Conjunto S茫o Crist贸v茫o, parte do Grande Jangurussu 鈥 na 鈥淩ampa do Jangurussu鈥, por vinte anos, se depositou todo o lixo produzido na capital cearense, sem qualquer tipo de tratamento.

A cada m锚s, a leitura re煤ne dezenas de poetas e interessados/as em poesia, a maioria jovens, que v锚m de diferentes territ贸rios para a pra莽a do bairro, tornada uma 鈥渜uebrada鈥. O acontecimento 茅 realizado pelos Poetas de Lugar Nenhum e l谩, como informa o Mapa Cultural do Cear谩, 鈥渟e encontram v谩rias matizes, v谩rios credos e classes. L谩 n茫o se fala em preconceito, a n茫o ser para combat锚-lo. Poetas de estilos variados. Pessoas com sede do novo. Sarau da B1 茅 da comunidade pra comunidade. L谩 a poesia salva!鈥

Francisco Silva, Geovani Jac贸 de Freitas, Claudiana Nogueira de Alencar e Kaciano Barbosa Gadelha falam dessa presen莽a coletiva que faz da B1 um 鈥渓ugar-encontro um espa莽o de festa, poesia, luta e afetos鈥. Trazendo seus poemas, seja decorado, seja lendo da publica莽茫o na internet, do digitado no celular ou escrito no papel, 鈥渃ada poeta 茅 uma poema, um arquivo-vivo de territ贸rios perec铆veis – por ser da ordem da transmuta莽茫o, a fuma莽a que se transforma em outra coisa antes de queimar. Entre o dentro e o fora, a Poeta 茅 uma caminhante, um griot聽que tem [e est谩 sendo] no corpo escrituras de luta e sonhos germinando鈥.

脡 por a铆, pelas quebradas, por meio do microfone aberto 鈥 tomando emprestado a imagem mobilizada por R么mulo, Geovani, Claudiana e Kaciano 鈥 que vai se dando essa gira po茅tica. Quem quiser, 茅 s贸 chegar junto.

 

Refer锚ncia:

Francisco Silva, Geovani Jac贸 de Freitas, Claudiana Nogueira de Alencar e Kaciano Barbosa Gadelha. Microfone Aberto.聽Trabalhos em Lingu铆stica Aplicada, v. 62, p. 337-350, 2023.

 

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