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Representatividade LGBT+ no cinema: o que foi, o que é e o que ainda falta

Foto: Cena do filme “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017)

Por Rúbia Padilha

 

O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ é celebrado em 28 de junho como um ato de memória, resistência e afirmação. A data marca a Revolta de Stonewall, ocorrida em 1969, quando frequentadores do bar Stonewall Inn, em Nova York, reagiram à violência policial. Foi ali que começou uma onda de protestos que mudaria o rumo da luta por direitos civis da comunidade LGBTQIA+. Como afirma Tatiana Furtado (2023), foi “a primeira vez que houve uma reação coletiva significativa da comunidade LGBTQIA+ contra os abusos das autoridades”.

No Brasil, essa luta também tem raízes profundas. Apesar dos avanços legais, o país ainda é marcado por altos índices de violência e discriminação. Segundo Camila Boehm (2024), o país “tem uma longa história de luta por direitos da população LGBTQIA+”, com organizações e militantes que seguem em defesa da vida, da liberdade e do amor em todas as suas formas. O 28 de junho aqui, também é um grito por justiça.

Dentro desse cenário de disputa simbólica e política, o cinema se mostra um território importante. Ele tem o poder de narrar histórias, moldar percepções e construir referências. Falar sobre diversidade no cinema, portanto, é uma forma de continuar a luta iniciada nas ruas. Representar corpos LGBTQIA+ na tela, com verdade e humanidade, é um gesto de respeito e um convite à empatia. É por isso que refletir sobre essa representatividade importa, porque o que não se vê, muitas vezes, não existe para os olhos do mundo.

A presença de pessoas LGBTQIA+ no cinema nem sempre foi sinônimo de respeito ou visibilidade. Por muitos anos, essas identidades foram escondidas, distorcidas ou tratadas com desprezo. Um dos marcos históricos desse silenciamento foi o chamado Código Hays, adotado em Hollywood a partir de 1934, que impunha regras severas sobre o que podia ser mostrado nas telas. Conforme pontuado no texto “Não pode nos filmes” (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2023), “foi instituída uma série de regras que proibiam a representação de personagens LGBT+ na tela”. Isso fez com que o cinema, durante décadas, apagasse ou criminalizasse essas existências.

Mesmo após o fim do código, nos anos 1960, a maneira como pessoas LGBT+ eram retratadas continuava marcada por preconceitos. Em muitos filmes, elas apareciam como vilãs, figuras ridículas ou personagens trágicos. Segundo Renato Nogueira (2023), “o cinema muitas vezes transformava o homossexual em objeto de chacota ou em alguém a ser punido no final da história”. Esse tipo de representação reforça estereótipos nocivos e contribui para o isolamento e a marginalização dessas pessoas na vida real.

Com o tempo, surgiram produções que buscavam romper com essas imagens negativas. Filmes como O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Me Chame Pelo Seu Nome (2017) marcaram uma virada ao contar histórias mais sensíveis sobre amor e desejo entre pessoas do mesmo sexo. Ainda assim, são exceções dentro de uma indústria que segue pouco aberta à diversidade. Em muitos casos, quando personagens LGBT+ aparecem, ainda são colocados em papéis secundários ou suas histórias são mal desenvolvidas.

Segundo levantamento da GLAAD, citado pela Exibidor (2024), “a porcentagem de personagens LGBT+ em filmes de grandes estúdios caiu para 22,6% em 2023, uma queda de 6,9 pontos percentuais em relação ao ano anterior”. Embora tenha havido um aumento no protagonismo, com 45% dos filmes trazendo personagens LGBT+ em papéis principais ou relevantes, o espaço ainda é pequeno diante da realidade social. Muitas dessas personagens são construídas de forma superficial, sem profundidade emocional ou conexão com suas vivências reais.

A história da representatividade LGBT+ no cinema é marcada por silenciamentos, resistências e, aos poucos, alguns avanços. Desde o tempo em que ser LGBT+ era considerado impróprio para as telas até os dias de hoje, houve conquistas importantes, mas ainda insuficientes. O cinema começou como um espelho que recusava refletir a diversidade do mundo, e agora tenta, aos poucos, se ajustar para acolher todas as cores que existem fora da moldura.

Apesar de algumas vitórias, como o aumento de protagonistas LGBT+ e o surgimento de filmes mais sensíveis, os dados mostram que ainda há pouco espaço para essas narrativas. A queda no número de personagens LGBT+ em grandes produções revela que, para muitos estúdios, essa pauta ainda não é prioridade. Além disso, os riscos de retrocesso, com censuras e discursos conservadores, lembram que o direito de existir nas telas ainda precisa ser defendido.

Diante disso, algumas perguntas continuam ecoando: que histórias ainda não foram contadas? O que perdemos quando negamos a complexidade das vivências LGBT+ nas telas? E qual é o nosso papel, como público, como artistas, como sociedade,  na construção de um cinema mais justo e verdadeiro? Talvez seja hora de não apenas assistir, mas também de enxergar.

Para ver:

  • Meu Corpo é Político (2017, Brasil) – Retrata a vida de quatro pessoas trans moradoras da periferia de São Paulo. Fundamental para pensar sobre interseccionalidade e visibilidade.
  • Bixa Travesty (2018, Brasil) – Documentário sobre a cantora e ativista Linn da Quebrada. Um grito contra a normatividade e a transfobia.
  • Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014, Brasil) – Daniel Ribeiro
  • Um romance adolescente delicado sobre um garoto cego que descobre o amor e a própria sexualidade.
  • Moonlight (2016, EUA) – Vencedor do Oscar, retrata a vida de um jovem negro e gay nos EUA em três fases da vida, enfrentando racismo, homofobia e pobreza.

Para ler:

  • Amora – Autora: Natalia Borges Polesso – Coletânea de contos sobre amores entre mulheres. Escrita ágil, sensível e potente. Ganhou o Prêmio Jabuti.
  • Seja o Seu Foco – Autora: Helena Vieira – Relatos e reflexões de uma mulher trans negra ativista, acadêmica e intelectual.
  • Devassos no Paraíso – Autor: João Silvério Trevisan – História da homossexualidade no Brasil, da colônia à contemporaneidade.

Para surfar na rede:

  • Canal da Linn da Quebrada no YouTube – Performance, música e discurso político potente.
  • Canal da Rita Von Hunty (Tempero Drag) no YouTube – Educação política com humor e crítica social em drag.
  • Canal TransPreta – com Alice Guél – no YouTube – Poesia, vivências, reflexões sobre negritude e transgeneridade.

Referências:

AGÊNCIA BRASIL. Dia do Orgulho LGBT+: país tem longa história de luta por direitos. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-06/dia-do-orgulho-lgbt-pais-tem-longa-historia-de-luta-por-direitos-0. Acesso em: 23 jun. 2025.

CAFÉ HISTÓRIA. O homossexual no cinema: o dilema da representação. 2023. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/o-homossexual-no-cinema-o-dilema-da-representacao/. Acesso em: 23 jun. 2025.

CNN BRASIL. 28 de junho: conheça a origem do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/28-de-junho-conheca-a-origem-do-dia-internacional-do-orgulho-lgbtqia/. Acesso em: 23 jun. 2025.

EXIBIDOR. Representatividade LGBT+ diminui nos filmes de 2023, apesar do aumento no protagonismo, aponta estudo. 2024. Disponível em: https://www.exibidor.com.br/noticias/mercado/14283-representatividade-lgbt-diminui-nos-filmes-de-2023-apesar-do-aumento-no-protagonismo-aponta-estudo. Acesso em: 23 jun. 2025.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA. Não pode nos filmes: Código Hays e censura autoimposta. 2023. Disponível em: https://ufrb.edu.br/bibliotecacecult/noticias/376-nao-pode-nos-filmes-codigo-hays-censura-autoimposta. Acesso em: 23 jun. 2025.

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