Por Fayga Moreira*
Janiyah é uma mãe enfrentando um dia devastador. Uma mãe solo. Uma mãe preta. Uma mãe periférica. Uma mãe sem rede de apoio ou de proteção. Uma mãe estadunidense. Uma mãe desesperada diante da falta de assistência médica gratuita para sua filha. Uma mãe violentada pela sociedade. Uma mãe levada à loucura. Uma mãe que só é vista quando já perdeu tudo.
Cada camada dessa delicada equação poderia retratar a vida de muitas de nós. Mas narra apenas um dia da protagonista do filme “Até a última gota”[1], disponível na plataforma de streaming Netflix.
Janiyah é, sobretudo, uma mãe que luta para garantir a sobrevivência da sua filha, que sofre de um problema de saúde delicado. Contudo, ela não é apenas mais uma mãe.
À luz da interseccionalidade, faz toda diferença para o roteiro e para a construção dessa personagem, delinear os marcadores de classe, cor, condição parental, além da composição sócio-econômica do país onde se passa a história: EUA, o epicentro do neoliberalismo.
Não existe saúde mental possível para uma mãe que tem o seu direito ao cuidado negado. Falo aqui em direito e não em dever. O pressuposto de que cuidar é uma tarefa essencialmente materna já não se sustenta, tampouco é um fazer conjugado apenas no singular.
A obra dá uma aula bem didática sobre o impacto do neoliberalismo na saúde mental das mães que exercem as tarefas de cuidado sem qualquer apoio e sem um tecido social com políticas públicas garantidoras do mínimo de dignidade para existir, resistir, ganhar dinheiro e maternar. Não à toa o filme, com essa temática tão urgente e contundente, com uma carga dramática pesada, ficou em primeiro lugar na lista dos 10 filmes mais assistidos na Netflix em inúmeros países. Cada mãe, cada pessoa que cuida, se conecta (em muitas dimensões) com o sofrimento de Janiyah.
A verdade é que nossa sociedade criou uma vida in-sus-ten-tá-vel para as mães. Se para algumas não parece tão pesado, injusto e adoecedor, significa que seus privilégios amortecem o impacto da sobrecarga, do desamparo, das violações e violências que pesam sobre a saúde mental materna. E, aqui, precisamos nos lembrar que nós brasileiras já contamos, na largada, com um privilégio: habemus SUS. E esse acesso universal à saúde gratuita já faria muita diferença no maternar de Janiyah.
Se não existe aldeia[2], tampouco comunidade; se a família já não é uma rede de apoio possível (cada um no seu corre, inclusive os avós); se a coletividade é um sonho que só se materializa em um pedido de favor e não em um senso de corresponsabilidade; se tudo se resume a ter ou não ter dinheiro para pagar por serviços fundamentais para minimizar a sobrecarga insuportável e garantir uma qualidade de vida básica; se o neoliberalismo corrói todas as políticas públicas que poderiam garantir não só a sobrevivência, mas também a saúde mental materna; nos perguntamos: até que ponto uma mãe é capaz de chegar? Qual é a última gota?
Essa interseção entre patriarcado e neoliberalismo, entre falta de equidade de gênero e invisibilização do peso oneroso das demandas de cuidados com uma criança, põe a mãe em um labirinto cruel, do qual nem todas conseguem escapar.
Janiyah não conseguiu.
A cada curva do labirinto, um Minotauro[3] a enfrentar sozinha. E não, não cabe nenhuma ilusão ou romantismo, porque aqui na vida mundana nenhum Teseu virá lhe salvar. É só você, ela, nós e nossos ‘bêos’, nossos boletos, nossos perrengues para criar (manter viva, educada, limpa, alimentada, segura, saudável, acolhida, amada) uma criança. E Janiyah lá, segurando com força na borda da ribanceira para não cair no precipício e ser devorada pelo Minotauro.
Mas foi. E muitas são. O que ela (a protagonista do filme) esfrega em nossa cara é que uma mãe sempre está no limiar do delírio, do surto, da depressão e, em último caso, da prisão, fruto do abandono que sofrem (sofremos): primeiro do pai[4] da criança, depois da sua própria família e da comunidade onde vive, por fim e o mais importante na realidade societária que vivemos, o abandono do Estado.
Por isso, entoamos no filme (metáfora da vida): liberdade para Janiyah, liberdade para Janiyah!
Para que mães não cheguem (simbolicamente) à beira do abismo e sejam tragadas para o precipício, urge mudar toda a estrutura social; mas, agora, pela perspectiva de quem cuida.
O problema de Janiyah não é individual. Ele é coletivo e sistêmico.
As imagens que ilustram este texto fazem parte da série intitulada “Procuradas”, de minha autoria, apresentada no III SEMINÁRIO MATERNIDADE E UNIVERSIDADE DA UFRJ.
(*) Por Fayga Moreira, jornalista, pesquisadora, produtora cultural, professora universitária, escritora e mãe.
[1] Até a Última Gota (2025) – 1h 45m – Direção e Roteiro: Tyler Perry. Até a Última Gota (2025) – IMDb
[2] Referência ao provérbio africano, que tem suas raízes na filosofia humanista Ubuntu, derivada das línguas bantu (subfamília nguni) da África do Sul: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Fonte: https://www.rbac.org.br/artigos/volume-48-n-3-editorial/
[3] Minotauro: origem, labirinto, morte, resumo – Mundo Educação
[4] De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, em 2023, 11 milhões de mulheres criam sozinhas os filhos no Brasil. Fonte: No Brasil, 11 milhões de mulheres criam sozinhas os filhos | Agência Brasil
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