Por Paula Gotelip
Setembro é o mês do Acessa BH, um festival que se consolida como referência no Brasil ao trazer para o centro da cena a produção artística de pessoas com deficiência. Criado sob a máxima “Nada sobre nós, sem nós”, o festival garante acessibilidade em todas as etapas: da comunicação (com peças em braile, legendas, Libras, audiodescrição, contraste cromático, linguagem simples) à experiência presencial (rampas, corrimãos, banheiros adaptados, piso tátil, receptivo preparado, audiodescrição, intérpretes de Libras em posição visível). No Acessa BH, acessibilidade não é favor, mas direito e prática ética de produção cultural.
É nesse espaço que apresentamos o Spectrum, experiência cênica sensorial concebida por mim e construída a partir das pesquisas de Cristiane Muños, Rosa Adelina e Patrícia Ragazon, em interlocução prática com César Rossi, César de Castro. Hoje, 75% da nossa equipe é formada por pessoas com deficiência. O Spectrum nasce para um público pequeno, mas historicamente invisibilizado: crianças com deficiência.
Ao observar o cenário cultural brasileiro, é impossível não notar uma lacuna grave: não há políticas públicas voltadas especificamente à cultura para a infância, tampouco ao acesso de crianças com deficiência. Ainda mais raras são as pesquisas que tratam da permanência dessas crianças em espaços culturais. Essa ausência revela o quanto o debate ainda precisa avançar. Por isso, o Acessa BH cumpre um papel fundamental: não se trata de preencher cotas, mas de reconhecer pessoas com deficiência como produtoras de estética, arte e cultura, capazes de pensar práticas que contemplem todos os corpos, para além da normatividade.
O cuidado da equipe organizadora, coordenada por Laís Vitral e Daniel Vitral, mostra como a acessibilidade vai além da cena. Aspectos como a seletividade alimentar de uma integrante, a mobilidade reduzida de outro ou a necessidade de deslocar a mesa de luz para o palco não são tratados como problemas, mas como demandas legítimas de trabalho. Estar no Acessa BH é estar em um espaço onde não somos vistos como problema, nem como exceção, mas como artistas em plena potência criativa.
Setembro, portanto, nos convida a refletir sobre essa urgência: falar de cultura sem falar de infância e de deficiência é reforçar um vazio que não podemos mais aceitar. O Acessa BH e o Spectrum, cada um a seu modo, demonstram que outro caminho é possível, um caminho em que todos os corpos podem não apenas estar presentes, mas também criar, permanecer e transformar o cenário cultural brasileiro.
acesse o link Acessa BH – Um festival multicultural com foco na acessibilidade
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]