Por Paula Gotelip
No ano passado, acompanhamos o início do Mapeamento Acessa Mais, uma iniciativa do Ministério da Cultura (MinC) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA). O projeto, coordenado por Edu O. e Marilza Oliveira, reuniu uma equipe formada majoritariamente por pessoas com deficiência, vindas de todas as regiões do país, para realizar o primeiro levantamento nacional sobre artistas e agentes culturais com deficiência e profissionais da acessibilidade cultural com e sem deficiência.
Embora eu não tenha tido acesso direto ao relatório oficial, participei do processo em alguns momentos e mantive contato com artistas e pessoas próximas que se inscreveram. Eu, Paula Gotelip, juntamente com Cristiane Muñoz, colaboramos com o mapeamento no desenvolvimento de estratégias de participação voltadas a pessoas neurodivergentes. Atuamos diretamente, oferecendo contribuições para a concepção e a acessibilidade do site do Mapeamento AcessaMais e dos formulários de inscrição, compreendendo a acessibilidade não apenas como um conjunto de requisitos técnicos, mas como uma política de cuidado. A construção do site buscou garantir conforto, previsibilidade e permanência, com tipografia legível, contraste equilibrado, ajustes de brilho e espaçamento adequados, além de uma estrutura de leitura que evitasse dispersão e exaustão sensorial.
Essa atenção se estendeu aos processos de inscrição e contato. Os formulários foram elaborados em linguagem simples e acessível, e canais alternativos, como WhatsApp e e-mail, foram pensados para atender diferentes perfis de usuários. Entendemos que, em um país tão diverso, padronizar é uma forma de excluir; por isso, a diversidade de meios de comunicação foi adotada como princípio ético e metodológico.
Foi possível perceber como essa ação despertou pertencimento e motivou reflexões importantes. Muitos artistas se reconheceram como parte de uma rede maior, sentindo-se fortalecidos ao perceberem que suas trajetórias, tantas vezes invisibilizadas, eram reconhecidas como relevantes para a cultura brasileira. Ao trazer esses artistas para o centro do debate, o AcessaMais contribui para o fortalecimento de uma política cultural comprometida com a diversidade, que reconhece a diferença como princípio constitutivo da criação e da vida cultural, e não como exceção.
De acordo com as informações disponíveis no site do Ministério da Cultura, das 3.476 respostas aos formulários do mapeamento, 62,5% são de agentes culturais com deficiência — um dado expressivo que reafirma a presença e a atuação dessas pessoas em toda a cadeia produtiva da cultura.
Durante o processo, pude acompanhar pequenos gestos de transformação: pessoas que antes não se reconheciam como artistas passaram a reivindicar esse lugar, enquanto outras se sentiram encorajadas a retomar projetos, estudos e vínculos com o campo cultural. Para as pessoas neurodivergentes, em especial, essa abertura teve um significado profundo, pois trouxe à cena debates sobre dislexia, TDAH, dispráxia, dispraxia verbal, dislalia, síndrome de Tourette, discalculia, altas habilidades/superdotação, discalculia e outros modos de funcionamento neurológico. Falar dessas experiências dentro do contexto cultural ajuda a romper a visão restrita que associa a neurodivergência apenas ao autismo, reconhecendo a amplitude e a complexidade da neurodiversidade e os múltiplos modos de pensar, sentir e criar que enriquecem o cenário artístico brasileiro.
Duas percepções emergem desse processo. A primeira diz respeito ao movimento recente, e ainda tímido, de alguns editais de fomento que passou a incluir a dislexia como deficiência. É um passo ainda tímido, mas de grande importância simbólica e prática, pois amplia o reconhecimento das neurodivergências e permite que pessoas disléxicas tenham suas propostas avaliadas de forma mais justa. Esse reconhecimento desloca o olhar biomédico da deficiência — centrado na falta e no erro — para uma perspectiva cultural, que compreende as diferenças cognitivas e sensoriais como formas legítimas de expressão.
Entretanto, não basta mapear: é preciso reformar. Os dados e experiências acumuladas até aqui indicam que é hora de repensar a infraestrutura dos espaços culturais. Se queremos garantir participação plena, é necessário que teatros, museus, centros culturais e bibliotecas sejam adequados para acolher corpos neurodivergentes e pessoas com deficiência. Isso significa que, desde a concepção arquitetônica, devem ser previstas salas de regulação sensorial, camarins acessíveis, rampas, elevadores e passagens livres que assegurem o deslocamento seguro. Significa, também, varas de luz rebaixáveis, que permitam a montagem de iluminação por pessoas com mobilidade reduzida, e cabines de operação que não estejam isoladas por escadas ou barreiras físicas.
Mas a transformação mais profunda talvez seja institucional: é urgente que os espaços culturais contem com coordenadores de acessibilidade permanentes. A responsabilidade não pode recair apenas sobre os proponentes de projetos, como se a acessibilidade fosse uma demanda pontual a ser prevista em planilhas orçamentárias. A acessibilidade deve ser compreendida como função estruturante da gestão cultural, sustentada por profissionais capacitados que conhecem o público que frequenta aquele espaço e podem ajustar as condições de cada evento.
O Mapeamento AcessaMais ainda está em fase de análise, mas já deixou evidente que a diversidade precisa ser entendida como ponto de partida, e não como exceção. Mais do que uma ação técnica, ele foi vivido como uma política de cuidado: escutou, registrou e deu visibilidade a quem historicamente foi silenciado.
Esses debates precisam ser fomentados e consolidados em políticas públicas, integrando cultura, educação e direitos humanos. O Mapeamento AcessaMais é um passo pioneiro nessa direção um gesto de escuta que transforma dados em ação, e ação em cuidado. Que ele tenha continuidade e inspire a criação de políticas de permanência, não apenas de acesso. E que, no futuro próximo, falar em acessibilidade cultural não seja mais sinônimo de adaptação, mas de planejamento, pertencimento e justiça sensorial.
Referência bibliográfica:
BRASIL. Ministério da Cultura. Setembro Verde: MinC e UFBA divulgam dados preliminares do Mapeamento Acessa Mais. Brasília, 19 set. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/setembro-verde-minc-e-ufba-divulgam-dados-preliminares-do-mapeamento-acessa-mais. Acesso em: 16 out. 2025.
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