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Olympia: A Perman锚ncia e o Tempo – Por Marcelo Bones

Por Marcelo Bones聽

Andante 鈥 Gest茫o de Cultura | Marcelo Bones

Este 茅 um artigo diferente dos outros que escrevi at茅 aqui. Se em textos anteriores meu pensamento se organizava a partir das tens玫es, dos limites e das contradi莽玫es das pol铆ticas p煤blicas para as artes, aqui o movimento 茅 outro; n茫o menos pol铆tico, mas deslocado para um territ贸rio mais sens铆vel, mais humano, mais inst谩vel. Este texto nasce do encontro entre duas exist锚ncias que, de formas distintas, atravessam minha vida h谩 d茅cadas: Dona Olympia Ang茅lica de Almeida Cotta e o espet谩culo Olympia. Uma mulher que viveu nas fronteiras entre mem贸ria e imagina莽茫o e uma obra teatral que, ao longo de vinte e cinco anos, insiste em habitar exatamente essas mesmas fronteiras.

Acabamos de realizar, em Belo Horizonte, uma breve temporada, muito exitosa, de quatro apresenta莽玫es desse espet谩culo Olympia, produzido pelo Grupo Teatro Andante. O espet谩culo tem minha dire莽茫o, concep莽茫o e atua莽茫o de 脗ngela Mour茫o e texto de Guiomar de Grammont; uma obra constru铆da em cria莽茫o compartilhada, tecida lentamente entre pesquisa, escuta, mem贸ria oral, dramaturgia e corpo. Esta temporada marca a abertura das comemora莽玫es dos vinte e cinco anos de exist锚ncia do espet谩culo que, de maneira simb贸lica, coincide com os cinquenta anos da morte de Dona Olympia Cotta. Dois tempos que se encontram; o tempo hist贸rico de uma vida que se tornou mito urbano e o tempo vivo de um trabalho art铆stico que se recusa a se tornar passado.

Talvez este texto seja, no fundo, uma tentativa de pensar essa dupla personagem, porque, ao longo dos anos, ficou cada vez mais dif铆cil, para mim, separar onde termina a hist贸ria de Dona Olympia e onde come莽a a hist贸ria do espet谩culo. E talvez nunca tenha sido necess谩rio separar. Existem hist贸rias que n茫o pertencem apenas ao campo da biografia; pertencem ao campo da perman锚ncia. Olympia, a mulher, habitou as ruas de Ouro Preto; Olympia, o espet谩culo, habita o territ贸rio invis铆vel onde mem贸ria, inven莽茫o e presen莽a continuam produzindo sentido. Escrever sobre isso hoje n茫o 茅 apenas revisitar um processo de cria莽茫o; 茅 tentar compreender como algumas vidas continuam agindo sobre n贸s muito depois de terem deixado o mundo concreto.

Minha hist贸ria com Dona Olympia n茫o come莽a no teatro. Come莽a muito antes, num territ贸rio de inf芒ncia. A fam铆lia de minha m茫e nasceu e viveu em Ouro Preto. Depois de se casar com meu pai, cuja fam铆lia era de Itabira, outra cidade hist贸rica, ela passou a viver em Belo Horizonte. Mas Ouro Preto nunca deixou de ser apenas um lugar de origem; permaneceu como um lugar de retorno. Duas vezes por ano, nas f茅rias, eu voltava para l谩, recebido por minha av贸, por meus tios, por uma cidade que, naquele tempo, ainda permitia que as crian莽as atravessassem suas ladeiras como se fossem uma extens茫o da pr贸pria casa. Eu tinha uma turma ali. A cidade era, ao mesmo tempo, cen谩rio hist贸rico e territ贸rio vivo. E havia ainda uma coincid锚ncia geogr谩fica que hoje me parece simb贸lica: a casa de Dona Olympia, perto da Igreja do Pilar, ficava muito pr贸xima da casa de minha av贸, como se, sem que eu soubesse, nossas trajet贸rias j谩 habitassem um mesmo per铆metro afetivo.

Foi nessas andan莽as que encontrei Sinh谩 Olympia muitas e muitas vezes. Sempre num campo dif铆cil de nomear: curiosidade, medo, fasc铆nio, estranhamento. Dormia ali na sua casa perto da igreja do Pilar. E, quando a doen莽a j谩 n茫o permitia que subisse 脿 Pra莽a Tiradentes, permanecia sentada 脿 porta, ao lado de um cajado, habitando aquele limite delicado entre vida privada e espa莽o p煤blico, recebendo turistas curiosos, moradores habituados e estudantes estr茅pitos, como quem sustentava um posto na geografia sens铆vel da cidade. No programa de estreia do espet谩culo, em 2001, escrevi algo que ainda hoje me atravessa e que preciso revisitar aqui:

鈥淩adicalizo. Para mim, filho de ouropretanos, fazer um teatro baseado em D. Olympia significa uma remiss茫o. Passei dezenas de f茅rias na rebuscada arena barroca. Mas tinha vida. Vida empurrada por pessoas. Olympia aparecia ali. Certeza n茫o tenho, mas devo ter jogado pedras em Sinh谩. No m铆nimo, chamado aquela senhora de homem. Por certo, ter sonhado com ela e seu cajado.鈥

Escrever isso hoje n茫o 茅 confiss茫o nem ajuste de contas com a inf芒ncia. 脡 reconhecimento de tempo, de forma莽茫o e de deslocamento. 脡 admitir que algumas presen莽as atravessam nossa vida antes que sejamos capazes de compreend锚-las. E talvez o teatro, muitos anos depois, tenha sido a forma que encontrei de voltar a essa figura, n茫o mais do lugar do estranhamento, mas do lugar da escuta.

Na verdade, o espet谩culo baseado em Olympia ou Sinh谩 Ol铆mpia, como era conhecida tamb茅m, n茫o nasceu de um desejo direto ou de um projeto previamente formulado. Ele foi se aproximando. Depois de algumas viagens 脿 Europa, eu e 脗ngela, minha companheira de arte e vida, em que fomos conhecer o trabalho de diferentes grupos, sobretudo aqueles ligados ao chamado Teatro Antropol贸gico, voltamos com muitas perguntas, poucas certezas e muitos desejos. Havia, naquele momento, uma inquieta莽茫o forte sobre presen莽a, corpo e mem贸ria como material de cena. N茫o era exatamente a busca por uma hist贸ria espec铆fica, mas por um tipo de rela莽茫o entre vida e cena que nos parecia mais radical. Nesse contexto, 脗ngela manifestou o desejo de criar um espet谩culo solo, algo que, naquele per铆odo, aparecia com frequ锚ncia entre atrizes que transitavam por essa vertente do teatro contempor芒neo e que poderia evidenciar as pesquisas c锚nicas que busc谩vamos. Em nossas conversas e pesquisas, foi ficando claro que quer铆amos uma constru莽茫o que abrigasse mais de uma voz: a personagem, a atriz, a mem贸ria coletiva na forma de uma narradora, e talvez at茅 aquilo que escapa a qualquer nomea莽茫o.

Come莽amos, ent茫o, a investigar figuras femininas que atravessavam hist贸ria e mito ao mesmo tempo; nomes como Joana d鈥橝rc e Anita Garibaldi apareceram nesse percurso inicial. N茫o lembramos com precis茫o quem trouxe, pela primeira vez, o nome de Dona Olympia para a conversa. Mas lembramos com muita nitidez da sensa莽茫o quando ele surgiu; houve um reconhecimento imediato, quase silencioso, de que ali havia alguma coisa que nos interessava profundamente. O que nos atraiu, naquele primeiro momento, foi justamente o car谩ter aparentemente n茫o espetacular de sua figura. Dona Olympia n茫o era uma hero铆na hist贸rica, nem uma personagem monumental. Era, ao menos 脿 primeira vista, uma 鈥減essoa comum鈥, conhecida dentro de um determinado universo, de uma cidade, de uma paisagem humana espec铆fica. E, ao mesmo tempo, desde o in铆cio sab铆amos que a palavra 鈥comum鈥, nesse caso, era apenas um ponto de partida. Porque existem pessoas que parecem comuns apenas at茅 o momento em que come莽amos a escutar o que elas carregam de tempo, de mem贸ria, de inven莽茫o. Olympia era uma dessas.

Em 2026 completam-se cinquenta anos da morte de Dona Olympia. E, como este artigo se move no territ贸rio das mem贸rias e hist贸rias, 茅 necess谩rio, antes de qualquer outra reflex茫o, situar quem foi Olympia. N茫o como personagem folcl贸rica, nem como curiosidade hist贸rica, mas como parte constitutiva de uma mem贸ria afetiva que ajudou a moldar Ouro Preto e, em certa medida, a pr贸pria imagina莽茫o simb贸lica de Minas Gerais. Existem hist贸rias que n茫o se organizam a partir de feitos heroicos. Algumas vidas constroem a hist贸ria a partir da presen莽a. Olympia foi uma dessas vidas. E talvez por isso mere莽a ser continuamente lembrada; porque esquecer figuras como ela 茅 empobrecer a mem贸ria coletiva, 茅 perder as camadas humanas que sustentam a hist贸ria oficial das cidades.

Olympia nasceu em 31 de agosto de 1889, em Santa Rita Dur茫o, distrito de Mariana, em um Brasil em plena transi莽茫o do Imp茅rio para a Rep煤blica. Filha do Coronel Jos茅 Gomes de Almeida Cotta e de Am茅lia Carneiro Le茫o da Silva Ramos, descendente de linhagem aristocr谩tica mineira, cresceu em um ambiente de educa莽茫o formal rara para mulheres de seu tempo. Estudou no Col茅gio das Freiras Vicentinas, teve forma莽茫o intelectual s贸lida, dominava leitura, escrita, m煤sica e, segundo registros e tradi莽茫o oral, chegou a estudar franc锚s. Ainda jovem, tudo indicava que seguiria uma trajet贸ria dentro dos padr玫es sociais da elite mineira do final do s茅culo XIX: casamento dentro do mesmo c铆rculo social, vida dom茅stica estruturada, participa莽茫o discreta na vida cultural e religiosa.

Por volta das primeiras d茅cadas do s茅culo XX, sua trajet贸ria sofre uma inflex茫o profunda. A tradi莽茫o oral, que em Ouro Preto se mistura com a Hist贸ria, narra uma desilus茫o amorosa como ponto de ruptura. Apaixonada por um homem que n茫o correspondia 脿s expectativas sociais de sua fam铆lia, teria sido impedida de levar adiante essa rela莽茫o, o que teria contribu铆do para uma mudan莽a radical em seu modo de existir. A partir da铆, Olympia passa a ocupar um territ贸rio amb铆guo entre a vida social tradicional e uma exist锚ncia pr贸pria, regida por outra l贸gica de tempo, mem贸ria e realidade. Chegou a ser internada por um per铆odo em um sanat贸rio, experi锚ncia que aparece em registros narrativos ligados 脿 sua biografia e na tradi莽茫o oral da cidade.

Com a mudan莽a definitiva da fam铆lia para Ouro Preto, a cidade passa a ser o grande territ贸rio de sua exist锚ncia p煤blica. Ao longo das d茅cadas entre 1940 e 1970, Sinh谩 Olympia se torna presen莽a constante nas ruas, especialmente na Pra莽a Tiradentes. Vestia-se de forma singular: m煤ltiplas saias, casacos pesados independentemente do clima, chap茅us ornamentados com flores artificiais, fitas, broches e pequenos objetos encontrados pela rua. Caminhava apoiada em um cajado, muitas vezes fumando, abordando turistas, estudantes e moradores para contar hist贸rias. Misturava fatos hist贸ricos, mem贸rias pessoais e inven莽玫es narrativas com absoluta convic莽茫o. Dizia ter convivido com personagens da Inconfid锚ncia Mineira, relatava encontros com figuras da monarquia e tratava a pr贸pria cidade como se fosse um organismo vivo que ela ajudava a sustentar. Recebia pequenas contribui莽玫es financeiras dos turistas, mas h谩 relatos recorrentes de que frequentemente redistribu铆a esse dinheiro a pessoas ainda mais vulner谩veis.

Sua figura ultrapassou o cotidiano local e entrou no imagin谩rio cultural brasileiro. Foi fotografada, filmada, citada em textos liter谩rios, inspirou m煤sicos e artistas. H谩 registro fotogr谩fico de encontros com visitantes ilustres como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, e relatos de que se comunicava com estrangeiros, muitas vezes misturando idiomas e inven莽玫es pr贸prias. Foi associada 脿 contracultura, sendo chamada por alguns de 鈥渁 primeira hippie do Brasil鈥; especula-se que o termo tenha partido de Rita Lee. Tornou-se tema de m煤sica, como a de Toninho Horta; filmes como o de Luiz Alberto聽Sartori, refer锚ncia em desfiles carnavalescos, como o de 1990 da Escola de Samba Mangueira do Rio de Janeiro com o enredo 鈥淒eu a Louca no Barroco鈥; inspira莽茫o para cole莽茫o de Ronaldo Fraga e personagem recorrente em narrativas sobre Ouro Preto. J谩 idosa e com a sa煤de fragilizada, deixou de circular pela Pra莽a Tiradentes, passando a permanecer mais pr贸xima de sua casa, perto da Igreja do Pilar, onde continuava recebendo pessoas, sentada 脿 porta. Morreu em 1976, mas, de certo modo, nunca deixou completamente o espa莽o p煤blico de Ouro Preto. Porque existem pessoas que permanecem na mem贸ria viva de uma cidade.

Entre essa presen莽a viva que atravessou o s茅culo XX em Ouro Preto e o tempo do teatro existe um intervalo que, na verdade, 茅 menos ruptura do que continuidade. Porque, enquanto em 2026 lembramos os cinquenta anos da morte de Sinh谩, tamb茅m atravessamos os vinte e cinco anos de exist锚ncia do espet谩culo Olympia, solo de 脗ngela Mour茫o, do Grupo Teatro Andante, estreado em 2001. Dois tempos distintos, mas atravessados por uma mesma perman锚ncia simb贸lica. Se at茅 aqui procurei situar a figura hist贸rica de Olympia, n茫o como curiosidade, mas como parte da mem贸ria afetiva de uma cidade e de um territ贸rio cultural mais amplo, a partir de agora o movimento 茅 outro. Vou me concentrar na Olympia que nasce no campo da cria莽茫o art铆stica, que n茫o pretende representar uma biografia, mas conviver com uma presen莽a, dialogar com uma mem贸ria e reinventar, no tempo da cena, aquilo que continua vivo no imagin谩rio coletivo.

No espet谩culo, a figura de Olympia nunca foi tratada como reconstru莽茫o biogr谩fica ou como personagem psicol贸gica tradicional; ela sempre funcionou como territ贸rio de debate. Desde a origem da montagem, interessava-nos esse lugar de fronteira que a pr贸pria Olympia habitava; entre sanidade e loucura, entre mem贸ria e inven莽茫o, entre vida cotidiana e constru莽茫o simb贸lica, entre exclus茫o social e reconhecimento p煤blico. O espet谩culo se estrutura justamente a partir dessa multiplicidade de vozes; a voz da personagem, a voz da narradora, a voz de uma m谩scara e, em alguns momentos, a voz da atriz no pr贸prio tempo presente, atrav茅s de 脗ngela, dialogando com o p煤blico. O material dramat煤rgico, constru铆do a partir da pesquisa hist贸rica, mem贸ria oral e cria莽茫o em sala de ensaio, aponta para quest玫es que seguem absolutamente atuais: quem define o que 茅 normalidade, como a sociedade lida com o que escapa ao padr茫o, qual 茅 o lugar social das pessoas consideradas 鈥渆stranhas鈥, qual 茅 a linha real entre fic莽茫o e realidade, entre identidade e narrativa social. Ao mesmo tempo, o espet谩culo tamb茅m discute mem贸ria coletiva; como uma cidade constr贸i seus mitos, como transforma pessoas reais em s铆mbolos e como, muitas vezes, protege e rejeita essas mesmas figuras ao mesmo tempo. Olympia, no espet谩culo, deixa de ser apenas uma pessoa espec铆fica e passa a funcionar como lente; uma forma de olhar para temas permanentes da experi锚ncia humana, que continuam atravessando o presente com a mesma for莽a que atravessavam o tempo em que ela caminhava pelas ruas de Ouro Preto.

O processo de constru莽茫o do espet谩culo n茫o seguiu uma l贸gica linear de cria莽茫o, nem partiu de um texto fechado a ser encenado depois. Ele nasceu de camadas; pesquisa hist贸rica, entrevistas com pessoas que conviveram com Olympia, experi锚ncias corporais, experimenta莽茫o vocal, improvisa莽玫es em sala de ensaio e um di谩logo cont铆nuo entre dire莽茫o, atua莽茫o e dramaturgia. Desde o in铆cio, interessava-nos construir uma dramaturgia que n茫o fosse apenas narrativa, mas tamb茅m sensorial e estrutural, onde o corpo da atriz, o som das palavras, os objetos de cena e as imagens criadas em ensaio tivessem o mesmo peso dramat煤rgico que o texto escrito. O texto de Guiomar de Grammont foi sendo tecido junto com o processo, atravessado pelas descobertas de ensaio, pela pesquisa sobre a vida de Olympia e pela busca de uma linguagem que n茫o separasse mem贸ria e inven莽茫o. Ao mesmo tempo, a pesquisa material foi fundamental; figurinos, objetos, m谩scaras, o ba煤, o cajado, tudo foi sendo incorporado como extens茫o da narrativa e n茫o como ilustra莽茫o. O espet谩culo foi se formando como uma arquitetura de vozes e presen莽as, onde a personagem, a narradora, a atriz e aquilo que emerge no encontro com o p煤blico convivem no mesmo territ贸rio, sustentando uma cena que nunca pretendeu representar Olympia, mas conviver com ela no tempo do teatro.

脗ngela Mour茫o constitui um pilar fundamental da tr铆ade que sustenta toda a cria莽茫o: dire莽茫o, dramaturgia, atua莽茫o. Desde o surgimento da primeira ideia, passando pela pesquisa, pelos processos em sala de ensaio, pela constru莽茫o da concep莽茫o c锚nica e pela pr贸pria materializa莽茫o da cena, sua presen莽a foi estruturante. Muito do que hoje reconhecemos como a evolu莽茫o do espet谩culo ao longo de vinte e cinco anos est谩 diretamente ligado 脿 sua disciplina, 脿 sua capacidade de transforma莽茫o corporal, 脿 sua escuta de cena e ao amadurecimento cont铆nuo de uma atriz de rara consist锚ncia. Em trabalhos de longa dura莽茫o, existe um ponto em que o trabalho do diretor, do dramaturgo, do cen贸grafo, do compositor e de toda a equipe criativa tende a se estabilizar como estrutura; o trabalho da atriz, no entanto, permanece vivo, em transforma莽茫o permanente. 脡 ela quem sustenta a respira莽茫o do espet谩culo no tempo, garantindo qualidade, presen莽a e capacidade de continuar produzindo encontro, mesmo d茅cadas depois da estreia.

Ao longo desses vinte e cinco anos, o espet谩culo foi se constituindo no tempo da circula莽茫o n茫o apenas como agenda de apresenta莽玫es, mas como experi锚ncia viva de deslocamento. Olympia atravessou capitais, cidades m茅dias, pequenas cidades do interior, espa莽os formais de teatro e espa莽os onde o teatro chega quase como acontecimento raro. Circulou pelo Brasil de norte a sul, em vinte e quatro estados, atravessou fronteiras e se apresentou em sete pa铆ses, encontrando p煤blicos culturalmente muito distintos. Em cada lugar, a hist贸ria de Olympia parecia encontrar um ponto de resson芒ncia inesperado; 脿s vezes na mem贸ria de figuras locais que ocupavam lugares semelhantes nas cidades, 脿s vezes na identifica莽茫o com a ideia de algu茅m que vive entre mundos, 脿s vezes simplesmente na for莽a da presen莽a c锚nica. O espet谩culo nunca se comportou como uma obra fixa que se repete; ele foi sendo reescrito pela experi锚ncia da circula莽茫o, pela escuta dos territ贸rios e pela mem贸ria que cada cidade devolvia.

A rela莽茫o com o p煤blico sempre esteve no centro dessa experi锚ncia. Desde a concep莽茫o, interessava-nos construir uma cena que n茫o estabelecesse uma separa莽茫o r铆gida entre palco e plateia. Rigoroso na constru莽茫o t茅cnica e formal, mas capaz de estabelecer di谩logo direto com p煤blicos muito distintos. A pr贸pria estrutura do espet谩culo, com suas m煤ltiplas vozes e seus momentos de di谩logo direto, cria um campo onde o p煤blico n茫o 茅 apenas espectador, mas tamb茅m presen莽a ativa na constru莽茫o do sentido. Muitas vezes, ao final das apresenta莽玫es, surgiam relatos espont芒neos; pessoas que lembravam de algu茅m de sua cidade, hist贸rias de figuras consideradas 鈥渆stranhas鈥 ou 鈥渇ora do padr茫o鈥, mem贸rias familiares que apareciam quase como resposta 脿 experi锚ncia da cena. Aos poucos, ficou claro que o espet谩culo n茫o falava apenas sobre Dona Olympia; ele abria um espa莽o para que outras mem贸rias tamb茅m viessem 脿 superf铆cie. Como se cada apresenta莽茫o reativasse uma esp茅cie de arquivo afetivo coletivo.

Talvez seja por isso que o tempo longo do espet谩culo nunca tenha sido vivido como repeti莽茫o. Vinte e cinco anos n茫o s茫o apenas um dado cronol贸gico; s茫o uma transforma莽茫o cont铆nua. A atriz muda, o diretor muda, o p煤blico muda, o mundo muda, e o espet谩culo precisa se reorganizar dentro dessas transforma莽玫es. Ao longo desse tempo, Olympia deixou de ser apenas uma obra criada em um momento espec铆fico e passou a ser uma experi锚ncia de dura莽茫o. Um trabalho que amadurece junto com quem o faz e junto com quem o encontra. Talvez alguns espet谩culos perten莽am ao tempo da estreia. Outros pertencem ao tempo da perman锚ncia. Olympia, ao que tudo indica, escolheu permanecer. E permanecer, no teatro, nunca significa ficar igual; significa continuar produzindo encontro, sentido e pergunta.

Escrever sobre Olympia hoje, no marco desses cinquenta anos de aus锚ncia f铆sica e vinte e cinco de presen莽a c锚nica, 茅 compreender que o teatro n茫o 茅 apenas o lugar onde se guarda a mem贸ria, mas onde ela se atualiza e ganha f么lego para seguir adiante. Ao olhar para o futuro, percebo que essa trajet贸ria n茫o se encerra em uma celebra莽茫o de datas, mas se projeta como uma forma de resist锚ncia 茅tica e po茅tica; um convite para que continuemos habitando nossas cidades e nossos palcos com a mesma disposi莽茫o de quem recusa o esquecimento. Se Olympia escolheu permanecer, na presen莽a c锚nica de 脗ngela, 茅 porque ainda h谩 muito a escutar nos seus sil锚ncios e muito a aprender com sua liberdade. Que este espet谩culo continue sendo um espa莽o de encontro, onde o tempo da hist贸ria e o tempo da arte se cruzam para manter viva a 煤nica coisa que realmente importa; a humanidade que insiste em brilhar naquilo que o mundo insiste em chamar de loucura. Ou que pode ser chamado de arte.

Viva Olympia!!!

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