“A explosão não vai acontecer hoje. Ainda é muito cedo… ou tarde demais”. É assim que começa Pele negra, máscaras brancas, o livro seminal do martinicano Franz Fanon, publicado originalmente em 1952. Médico psiquiatra, aluno de Aimé Césaire ainda na Martinica, leitor e admirador de Jean Paul Sarte, Fanon é um pensador fundamental para se entender as questões raciais e a luta contracolonial, como diria Nêgo Bispo, na
contemporaneidade.
Mais de sete décadas depois de Fanon expor o processo de subjetivação racista imposto pela máquina colonial, pode-se perguntar: ainda é cedo ou tarde demais para a explosão? Talvez a resposta seja, nem um tempo, nem outro, a revolução é agora, está ocorrendo no tempo presente.
Certamente não uma macro-explosão, abalando macro-estruturas, mas micros, se dando nas inúmeras resistências, desde as mais cotidianas, até às institucionais, que, por meio de agenciamentos coletivos, produzem outras subjetividades que escapam do imperativo do “Ser colonial” e de suas alteridades subalternizadas. Ainda que essas linhas de fuga estejam atravessadas por ambiguidades, contradições, controvérsias, essencialismo e reterritorializações. Mas o que importa ressaltar é o fluxo, o movimento contínuo, a desterritorialização provocada pelas ações molares e suas táticas.
Um desses movimentos é a ocupação do Museu das Favelas com a exposição-explosão Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon (https://www.museudasfavelas.org.br/imaginacao-radical-frantz-fanon/). O museu é um equipamento da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, localizado no Largo Páteo do Colégio – território considerado o berço da cidade, fundado em 1554 e por onde andou o jesuíta padre Anchieta. É um equipamento
recente, criado em novembro de 2022, e ocupa o Palácio do Campos Elíseos, construído no século XIX para ser residência de uma família que integrava a elite cafeeira e depois adquirido pelo Governo de São Paulo para abrigar sua sede.
Segundo o Dicionário de Favelas Marielle Franco, o Museu das Favelas “é um ponto de encontro inspirado na potência das favelas e que traz um novo entendimento a respeito do papel de um museu na sociedade: um
espaço que inclui as vivências que partem da periferia, dos assentamentos, ocupações, quilombolas e populações ribeirinhas. Em outras palavras, uma experiência que marca pessoas, saberes, conhecimentos e territórios” (https://wikifavelas.com.br/index.php/Museu_das_favelas).
A homenagem a Fanon que fica em cartaz até do dia 28 de maio, reúne 130 obras de pessoas artistas contemporâneos de 8 países (Brasil, Venezuela, Marrocos, Espanha, Angola, Colômbia, Argélia e Bolívia) a partir das ideias do pensador martinicano com concepção, direção artística e curadoria de Thais de Menezes (https://thaisdemenezes.com/) – curadora e pesquisadora de arte, com atuação na Europa e na América Latina a partir de uma perspectiva decolonial e de partilha de saberes. A proposta curatorial se organiza em quatro eixos temáticos: identidade, corpo, território e sonho, apostando na “imaginação como uma prática radical de transformação da realidade”.
Um século de Fanon, e as explosões estão aí, para quem quiser e souber ver, ouvir e ler.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]