Por Kenia Cuna
No último sábado de maio (dia 30), participei de um evento em menção ao Dia de África, organizado pela escola dos meus filhos. O Dia de África foi instituído em 1963, a fim de fundar a Organização da Unidade Africana (OUA), hoje conhecida como União Africana. Sua constituição está atrelada à luta contra o colonialismo e à independência dos países africanos, à integração e cooperação continental, bem como à reverberação da riqueza e diversidade cultural tão presente em África.
Participar do Dia de África no âmbito escolar fez com que, inevitavelmente, eu fizesse um paralelo com o Brasil e refletisse sobre como o
continente ainda é tão desconhecido pela população brasileira e como esse desconhecimento alimenta estereótipos, carrega as ligações entre Brasil e o continente africano em perspectivas históricas cristalizadas, o que, ao mesmo tempo, limita, no tempo presente, trocas e parcerias construtivas. Especialmente para a população negra brasileira, isso se configura em perdas muito grandes do ponto de vista do debate racial, do seu processo de identificação e afirmação.
É instigante ver crianças e adolescentes se mobilizarem em torno de um evento que amplia o conhecimento acerca da história, política e cultura do continente africano. É inspirador quando a educação escolar extrapola a sala de aula e envolve múltiplos atores. Assim, vê-se, de fato, como ela pode ser transformadora e impulsionar a construção de uma sociedade mais justa e que respeita a diversidade.
Cada classe representava um país do continente e deveria apresentá-lo ao público por meio da dança, música, teatro, culinária, vestimenta e exposição de produtos. Pelo menos durante três semanas antes do evento, esse era o assunto que reinava em casa, devido às pesquisas realizadas, à construção de como as narrativas seriam apresentadas, à escolha das vestimentas, dos penteados, das danças e à confecção da ornamentação. Foi interessante ver a movimentação, desde a repetição do que seria dito nas encenações, o ensaio tímido dos passos relacionados às danças, até a avó que ficou incumbida de comprar os tecidos e levar a neta ao alfaiate para providenciar a vestimenta escolhida e típica do Mali.
O que se viu no dia do evento foi uma explosão de uma parte da diversidade cultural de África, expressa em cores, estética, sonoridade, ritmos, línguas e sabores. Ver um público em tão tenra idade disseminar o conhecimento acerca dessa terra por meio de ferramentas da arte e da cultura é uma experiência muito potente. A potência se revelou, principalmente, pela entrega de cada classe na forma de retratar o país que representava e, por outro lado, na forma como essa representação transitou entre aspectos políticos, históricos, econômicos e culturais.
Houve desde teatro que narrava a luta pela independência até roteiros que tratavam da importância do casamento e de como este é celebrado de forma veemente nas sociedades africanas, tornando-se um momento de novas alianças, estreitamento de laços e sociabilidade única.
Há um peso muito forte em assistir crianças em um palco, de punhos cerrados, dizendo que são Nelson Mandela e Winnie Mandela, e começarem a narrar em primeira pessoa quem esses atores são e o que eles significam para a história de África. Fica explícito que eles sabem quem são as referências, em quem podem se espelhar no âmbito da luta e da garantia de direitos, que são inegociáveis.
Foi belo observar a corporeidade manifestar-se nas vestimentas, nas danças étnicas e nos ritmos contemporâneos, como a Marrabenta, o Kizomba, o Amapiano e o Afrobeat. A experiência envolveu o público de tal maneira que a separação entre palco e plateia foi diminuindo, à medida que os ritmos ressoavam e a performance atravessava seus limites.
Experienciar esse momento deixa evidente como é inadequado resumir os países do continente a uma visão homogeneizadora, cunhada em perspectivas exóticas que ressaltam a escassez e a pobreza. Nesse ponto, alimento a discussão com uma ideia desenvolvida por Bikoi (2026)[i]. Bikoi argumenta que não há consenso em relação à origem do heterônimo África, mas o fato é que se trata de uma designação exógena, utilizada de forma totalizante, homogeneizadora e dominadora, marcada por dois momentos distintos de exploração: pelos povos árabes e pelos povos europeus. Isso culminou, ao longo do tempo, na construção de estereótipos negativos em relação ao continente e no desconhecimento, por outros povos, das diferentes culturas, formas de organização política, social e dinâmicas econômicas existentes nos países africanos.
Entre os diferentes aspectos discutidos por Bikoi em seu texto, é particularmente provocador o convite que ele faz para que haja uma apropriação endógena e estratégica do heterônimo África, ao invés de sua rejeição, devido ao fato de ser uma atribuição externa, cunhada na subjugação, desumanização e que desencadeou uma ideia hegemônica de uma África onde tudo falta, sendo o “tudo” definido em comparação ao que o Ocidente considera possuir.
O convite de Bikoi está centrado na forma como a China representa o continente africano por meio de um ideograma que, ao ser traduzido, representa o “vazio”. Contudo, o vazio, na epistemologia e cultura chinesa — e em várias vertentes da cultura oriental —, não significa o nada. Pelo contrário, nessa perspectiva, o vazio é possibilidade, fonte de conhecimento e criação. Essa parece uma boa ideia para se apropriar, pois, a maioria das construções exógenas sobre África são ratificadas a partir do desconhecimento do que o continente e seus povos são e produzem, da forma como vivem e se organizam, bem como da prática de classificá-los a partir do que não são em relação a outros povos, sobretudo os ocidentais.
Voltando ao ponto da discussão que se refere ao desconhecimento da sociedade brasileira sobre o continente africano, fazemos valer, mais uma vez, um aspecto explorado por Bikoi (2026), quando ele traz para a discussão o Sankofa: um símbolo africano que retrata um pássaro em movimento, cuja cabeça se orienta para trás, evidenciando um olhar luminoso. Esse símbolo carrega várias ideias, mas uma das principais é a de que se pode olhar para o passado para aprender com ele, enquanto se caminha no tempo presente em direção ao futuro.
Nesse sentido, o conhecimento e a ligação do Brasil com África precisam transcender o passado, mais especificamente a escravidão, tão tardiamente reconhecida como um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade. Ela não deve ser esquecida, jamais. Mas a conexão da população brasileira com o continente não pode se resumir a ela.
É necessário mirar o Sankofa e aprender o que a escravidão nos roubou — e ainda nos rouba — na construção de um presente que nos permita reconhecer que a ausência de referências e narrativas advém de um desconhecimento construído de forma intencional e estratégica. Se aprendermos a ver o vazio como fonte, potência e força criadora, há um mundo de possibilidades de descobertas, trocas e construções promissoras que podem advir do estreitamento entre o Brasil e o continente africano.
[i] BIKOI, Charles Binam. A palavra África e seus desafios estratégicos: da atribuição heterônoma à apropriação endógena. In: UNESCO. História geral da África, v. 9: História geral da África revisitada. Brasília: UNESCO, 2026, p. [143].
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