COLUNAS

No cais do rio Cricaré, a cultura bota pra pocar – Por Fayga Moreira

Por Fayga Moreira, jornalista, pesquisadora, produtora cultural, escritora e mãe.

Julho de 2026. Preciso registrar no diário imaginário para não esquecer. À margem do rio Cricaré, Conceição da Barra, extremo norte do Espírito Santo. Lugar que guardava na memória por ser a terra natal de uma amiga de infância, onde passamos carnavais bem baianos, vale registrar. Para além dessa minha experiência afetiva, pouco sabia sobre o território que me proporcionou uma das vivências mais sublimes dos últimos tempos: ser atravessada pelo potencial sensível e disruptivo da arte e da cultura em uma cidade do interior.

Como uma fã inconteste de festivais, mal podia acreditar que encontraria ali, no cais do rio Cricaré, em uma cidade com cerca de 30 mil habitantes, um festival do tamanho do Pocar. A grandiosidade aqui adjetivando o que há de mais rico em um evento desse porte: a curadoria sensível; o diálogo entre a cultura do território e as de outros estados; a interseccionalidade entre tradição e experimentação, entre matrizes e linguagens culturais diversas (música, teatro, artes visuais, cinema, dança).

Pocar é uma expressão muito típica também entre nordestinos e foi interessante perceber certo descuido etnocêntrico da minha parte ao estranhar a utilização em um estado do Sudeste. Entendi que era um signo em disputa quando um capixaba me disse algo como “oxi, pocar é um patrimônio linguístico nosso, uma gíria característica do Espírito Santo”. Para não se transformar em um entrevero regional, entramos em acordo na partilha desse conceito que nos é caro.

Pocar vem do Tupi PO’KA, que significa algo que faz barulho, que é ruidoso. A expressão ‘botar pra pocar’ vem daí, anunciando que algo ou alguém ‘chega chegando’, não passa despercebido, ‘estoura a boca do balão’. O festival, assim, diz a que veio. Eu, uma baiana que chegou de mansinho, pisando naquele território com todo respeito e curiosidade, reconheci rapidamente que eles entregam uma experiência à altura da expressão.

Mas havia algo de diferente nesse pocar capixaba, uma nuance que só fui descobrir ao pesquisar sobre a história da ocupação da região. Terra de Tupinambás, foi palco de um dos genocídios mais perversos praticados por colonizadores. Um conflito sangrento, que dizimou milhares de indígenas, em um rio de águas tranquilas. Um rio chamado pelos tupis de Kiri-Kerê, dorminhoco.

O contraste entre a fluidez calma do Cricaré, a beleza do seu cais[1] e a resistência dos povos originários, ecoa no pocar capixaba. O festival encarna muito bem esse espírito ao reverenciar suas raízes culturais quilombolas – o Ticumbi, Reis de Boi, Jongo –[2] sem deixar de desaguar no mar que interconecta o território do Sapê do Norte com a produção artística e cultural do Brasil e do mundo.

Nesse cenário, Didito Camilo, produtor cultural e idealizador do festival, tece uma curadoria que passeia, brinca, dança com as camadas que compõem seu lugar de vivência. A programação esquentava, acalmava, divertia, sacudia, provocava e fazia flutuar. Vinda de Minas, da Bahia, de Pernambuco, de Conceição da Barra, de Vitória, a arte na praça ecoava, ofertada gratuitamente para todos os barrenses como um direito de todos os cidadãos. E assim é. E assim deveria ser em todos os rincões do Brasil Profundo.

Como lá, entre o rio e o mar, o Pocar[3].

 

[1] Registros fotográficos da amiga querida, Fernanda da Fonseca Ferreira, barrense e prima da minha amiga-irmã, Helô Fonseca, que mencionei no início da coluna. Reverenciar quem caminha com a gente é parte do reconhecimento sensível da realidade.

[2] Agradecer demais a Paula Depra, multiartista de São Mateus, que me deu aulas sobre as manifestações culturais do Sapê do Norte.

[3] https://www.pocarfestival.com.br/

[4] Primeira coluna de uma série que vem aí sobre esse e outros festivais realizados no interior.

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1 Comentário para “No cais do rio Cricaré, a cultura bota pra pocar – Por Fayga Moreira”

  1. Marcelo Cruz disse:

    Esse texto deixou meu coração tão aquecido! Eu, que ainda preservo a nostalgia do Pocar, fui abraçado demais. E ainda vieram com citações sobre Helô e Paula, que têm lugares especiais no meu coração. Gratidão imensa por esse texto-luz.

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