Por Paula Gotelip
Estamos no segundo ciclo da Política Nacional de Blanc (PNAB), e uma queixa recorrente entre proponentes é a aprovação constante dos mesmos projetos e nomes. Já abordei esse assunto em outro momento e não pretendo me aprofundar nele agora. Gostaria, contudo, de compartilhar uma perspectiva de alguém que participou de forma menos ativa de alguns editais culturais pelo Brasil este ano.
Abordo o tema com franqueza, já que entre os pareceristas o uso de medicamentos para ansiedade e depressão, relatos de insônia, dores no corpo e esgotamento foi normalizado, fruto da insegurança jurídica e da precariedade que cercam a função. É frequente ver que editais sejam publicados com prazos curtos para análise e sem estimativa realista do volume de propostas que cada ente federativo receberá. O resultado é uma sobrecarga desmedida em janelas curtíssimas de tempo, ainda que exija rigor e isenção absolutos.
Reuniões que atravessam o dia inteiro, às vezes mais de um dia, são comuns, onde os projetos são debatidos em equipe, justamente para garantir uma avaliação conjunta e imparcial. Além disso, há um atraso significativo nos pagamentos, que podem levar de 4 a 6 meses para serem recebidos. Entre os pareceristas, circula a piada amarga de que o atraso nos pagamentos acaba transformando nosso trabalho em uma espécie de financiador involuntário do fluxo de caixa da gestão pública.
Outro problema é a exposição indevida de dados pessoais (CPF, telefone, endereço e até e-mail), em documentos públicos de resultados. Essa falta de cuidado já resultou em ameaças concretas por parte de proponentes insatisfeitos com suas notas. Também não são raros os relatos de pressão velada ou direta de gestores locais sobre o teor das análises, o que desloca o debate para um terreno grave: qual é o limite de salvaguarda institucional de quem avalia?
Salvo iniciativas isoladas de algumas comissões que criam protocolos internos, a regra no país ainda é a desproteção prática. Somam-se a isso o silêncio institucional diante de dúvidas técnicas, pedidos redundantes de certidões já entregues e alterações de regras no meio do certame. O quadro resultante culmina inevitavelmente em esgotamento mental e físico.
Fica a impressão de que o empenho em analisar a produção, memória e saberes culturais do país com rigor e sensibilidade não recebe o mesmo cuidado institucional em contrapartida. A crítica de que são sempre os mesmos projetos aprovados ganha outra dimensão quando nos perguntamos: quem tem fôlego para continuar avaliando sob essas condições, e quantos profissionais com sólida formação desistem pelo caminho, abrindo espaço para avaliações superficiais, sem o devido estofo técnico ou repertório crítico? A concentração de resultados tem múltiplas causas, e a precarização estrutural do trabalho de parecerista certamente é uma das mais silenciadas. Exige-se rigor técnico e integridade de quem está na ponta, mas oferece-se em troca quase nenhuma segurança jurídica, financeira e humana.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]