Fonte: Outras Palavras
Em Belo Horizonte um projeto gestado por tr锚s mulheres resgata a provocadora pintura de rua da virada do s茅culo e convida a enxergar a chance de outra vida urbana

Quem viveu Belo Horizonte nas d茅cadas de 1990 e 2000 talvez se lembre das pinturas curiosas que surgiram em edif铆cios no centro da cidade: um z铆per que se abria e descortinava, por tr谩s da paisagem cinza, uma natureza exuberante; uma torneira jorrando 谩gua em que um homem surfava; golfinhos voadores sobre uma cidade fabril.
Estas pinturas, feitas por um franc锚s e um brasileiro com poucos recursos, em cadeirinhas penduradas em cordas a dezenas de metros de altura, marcaram uma gera莽茫o. E mudaram a paisagem do centro da cidade, criando novas refer锚ncias: aquele pr茅dio com a pintura de Tiradentes, a esquina da cachoeira, etc.
Essas pinturas j谩 desapareceram, mas tiveram seu papel no impulsionamento de uma nova cena de arte p煤blica na cidade, que surgiu com o Cura 鈥 Circuito Urbano de Arte. O Cura 茅 um festival criado por tr锚s mulheres que chegou a sua terceira edi莽茫o e j谩 cobriu com tintas quase 10.000 metros quadrados em dez empenas cegas do centro de BH.

Empena cega 茅 aquela parte do pr茅dio que n茫o tem janelas, onde os 鈥渙lhos da rua鈥 (termo usado pela jornalista Jane Jacobs para a rela莽茫o estabelecida entre edif铆cios e espa莽o p煤blico) deixam de existir.
O centro da cidade tem dezenas dessas empenas, e certo dia as organizadoras do Cura perceberam que era poss铆vel ver muitas delas a partir da rua Sapuca铆 鈥 uma rua hist贸rica de onde se tem uma vis茫o privilegiada do centro, gra莽as 脿 topografia acidentada e 脿 dist芒ncia das constru莽玫es altas promovida pelas linhas do trem e do metr么, pra莽a da Esta莽茫o e arredores. Ali h谩 um Belo Horizonte.
A ideia do Cura 茅 simples e genial: a cada edi莽茫o do Festival, alguns artistas s茫o convidados para pintarem uma empena. Durante o per铆odo da pintura, instala-se na rua Sapuca铆 um mirante, onde as pessoas podem ir assistir 脿s pinturas, participar de oficinas, debates ou simplesmente passear.
A pintura de uma empena de dezenas de metros n茫o 茅 algo simples. Voc锚 precisa instalar andaimes no alto do pr茅dio e um forro sobre o telhado, para estruturar os balancinhos que descer茫o pela fachada. Artistas e seus assistentes passam dias pendurados nesses balancinhos. No Cura, quem leva bin贸culos para a rua Sapuca铆 pode assistir a esse processo em detalhes.
Quando Alberto da Veiga Guignard era professor de artes em Belo Horizonte, na d茅cada de 1940, levava os alunos para assistirem C芒ndido Portinari pintar os murais da igreja da Pampulha. Minha av贸, Maria Helena Andr茅s, era uma dessas alunas e lembra o quanto essas expedi莽玫es foram importantes na sua forma莽茫o como artista. Hoje, observar a atua莽茫o ao vivo dos artistas que interferem na cidade 茅 uma possibilidade aberta.
H谩 quem se preocupe com a possibilidade de projetos como o Cura gerarem aquilo que se chama 鈥済entrifica莽茫o鈥: com o embelezamento da regi茫o, provocar uma onda de aumento de alugu茅is e elitiza莽茫o do espa莽o. Processos assim ocorrem em cidades como Berlim, Paris, Nova Iorque e Barcelona.
Tenho dois coment谩rios sobre isso. O primeiro 茅 que n茫o temos, na periferia da periferia do capitalismo, condi莽玫es s贸cio-econ么micas semelhantes, como classes m茅dias crescentes e interesse tur铆stico. O segundo 茅 que, mesmo nos lugares em que a gentrifica莽茫o de fato ocorre, o debate tem sido cada vez mais sobre como evitar os impactos 鈥 e n茫o sobre deixar de fazer melhorias urbanas.

As cidades n茫o s茫o somente lugares da fun莽茫o e do trabalho. Elas possuem sentido simb贸lico e de congrega莽茫o. As melhores cidades t锚m espa莽os p煤blicos de refer锚ncia, locais do encontro e do lazer: desde as pra莽as da matriz nas cidades do interior at茅 a Avenida Paulista aberta nos finais de semana.
Em Belo Horizonte, a rua Sapuca铆 apresenta esse potencial, de ser o lugar em que fam铆lias v茫o com crian莽as durante o dia, casais passeiam no final de tarde, a cultura ferve 脿 noite. Lugar de ver e ser visto, de estar em comunidade.
O Cura potencializa essa voca莽茫o e nos faz imaginar aquela rua destinada aos pedestres, com cal莽adas largas, 谩rvores, bancos, bares e restaurantes que atendam a diversas classes econ么micas. Gente que caminha e gente que para, observando a galeria a c茅u aberto de dia e de noite. Os olhos da rua em pleno funcionamento, ainda que seja de bin贸culo.
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