COLUNAS

Al茅m dos Editais: notas para um novo paradigma de fomento 脿 cultura e 脿s artes – Por Marcelo Bones

Por Marcelo Bones

O texto que segue nasceu de uma fala apresentada no MICBR 2025, no painel multissetorial 鈥淎l茅m dos Editais: novos caminhos para o fomento 脿 cultura鈥, realizado em 4 de dezembro. Ao lado de L茅o Lessa, diretor executivo da Funarte; Ra煤l Neftal铆 Castillo Rosales, Ministro da Cultura de El Salvador; e Leandro Maciel Silva, coordenador de Pol铆ticas para as Artes da Secretaria de Cultura do Cear谩; com media莽茫o de Lia Baron, compartilhei algumas inquieta莽玫es que venho acumulando h谩 anos sobre o esgotamento do modelo de editais e seus efeitos sobre o ecossistema art铆stico brasileiro. A fala, lida ali em voz alta, nasce da pr谩tica, da cena, das fric莽玫es entre cria莽茫o e pol铆tica, e carregava o desejo de provocar um deslocamento, ainda que pequeno, no modo como temos pensado o fomento. Ao transform谩-la agora em texto, mantenho o mesmo gesto: o de oferecer uma reflex茫o que n茫o pretende encerrar nada, mas abrir passagens para que possamos imaginar, juntos, um outro horizonte para as artes e para a cultura no pa铆s.

Segue a fala:

Quero, mais uma vez, compartilhar e dividir algumas reflex玫es que venho acumulando nos 煤ltimos anos. Falo deste lugar h铆brido, para mim sempre f茅rtil: o artista, o gestor, 脿s vezes gestor privado, 脿s vezes gestor p煤blico, e em certos momentos at茅 as duas coisas misturadas e, ainda, o pesquisador informal da pr谩tica, o inquieto e uma pontinha de prazer pela provoca莽茫o. Talvez essa mistura me obrigue, h谩 d茅cadas, a olhar as pol铆ticas p煤blicas pelo prisma da cena, da cria莽茫o, da pr谩tica, do cotidiano e, claro, da pol铆tica enquanto espa莽o de disputa e, tamb茅m, de inven莽茫o.

Come莽o afirmando algo simples, mas complexo, que tenho repetido nos v谩rios textos que escrevi neste ano de 2025: precisamos reconhecer o que chamei de o COLAPSO DOS EDITAIS. N茫o 茅 exagero, creio, dizer que estamos chegando ao limite de um modelo. N茫o se trata de negar a import芒ncia dos editais. Pelo contr谩rio. Esse instrumento foi fundamental em muitos per铆odos, no processo de democratiza莽茫o da distribui莽茫o de recursos p煤blicos, acabando com o 鈥渂alc茫o鈥 institucionalizado e, sobretudo no p贸s-pandemia, quando ajudou a garantir a sobreviv锚ncia de artistas, grupos, coletivos e espa莽os, pelas leis de emerg锚ncia cultural. Mas reconhecer a import芒ncia de algo n茫o nos impede de admitir que esse modelo, tal como est谩聽colocado, exauriu sua capacidade. Hoje ele n茫o resolve mais o que precisa resolver. Chamo isso, nos meus textos, de a Era dos Editais, uma era em que o edital deixou de ser meio e passou a ser fim. Uma era em que transformamos uma ferramenta em objetivo final. E quando isso acontece, o instrumento come莽a a governar a pol铆tica, e n茫o o contr谩rio.

O que vemos muitas e muitas vezes pa铆s afora, seja nas capitais ou nos pequenos munic铆pios, 茅 um cen谩rio que mistura correria, improviso, hiper competitividade e uma sensa莽茫o crescente de esgotamento. Um esgotamento f铆sico e mental. O processo da PNAB escancarou isso de uma forma quase pedag贸gica. Para dar um exemplo, em meu estado, Minas Gerais, foram mais de dezoito mil inscri莽玫es na PNAB. Para a grande maioria dos editais, menos de quatro por cento das propostas foram contempladas. De cada cem, quatro foram aprovadas. Isso n茫o 茅 fomento, 茅 loteria. 脡 escassez institucionalizada. 脡 uma pol铆tica que funciona, com muita boa vontade, para pouqu铆ssimos e frustra a imensa maioria.

E digo isso com muito respeito aos gestores p煤blicos que est茫o tentando fazer o poss铆vel com ferramentas limitadas e, tamb茅m, com enorme respeito aos pareceristas, porque conhe莽o bem esse trabalho. Mas a verdade 茅 que o modo como os pareceristas foram incorporados aos editais recentemente revela uma fragilidade estrutural s茅ria. S茫o processos pouco transparentes, crit茅rios pouco precisos, metodologias n茫o compartilhadas, an谩lises feitas em isolamento, sem comiss玫es plurais ou espa莽os de debate, sem uniformidade m铆nima. Sem falar na fase de recursos, que costuma ser pouco transparente e nas interfer锚ncias superiores, que t锚m sido denunciadas recentemente. 脡 um sistema que gera inseguran莽a, ru铆do e desconfian莽a. E quando uma pol铆tica p煤blica perde a confian莽a do setor, ela perde quase tudo.

O que se estabeleceu no Brasil foi uma gincana. Gincana desigual e desgastante. O poder p煤blico corre para lan莽ar editais, avaliar editais, pagar editais, fechar planilhas. A sociedade civil corre para se inscrever no maior n煤mero poss铆vel, torcendo para que algum projeto passe. E todos n贸s vamos repetindo coletivamente uma maquinaria absurda que se retroalimenta e n茫o produz ac煤mulo. Tudo, ou quase tudo, sem acompanhamento e avalia莽茫o de indicadores. N茫o sabemos o impacto dos editais. N茫o sabemos o que mudou, o que se fortaleceu, o que se perdeu. N茫o h谩 avalia莽茫o real. H谩 anos vivemos um ciclo sem mem贸ria, sem cr铆tica, sem planejamento. E, portanto, sem futuro.

Talvez o caminho para a revis茫o profunda que precisamos empreender n茫o esteja em solu莽玫es imediatas, mas na capacidade de nos aproximarmos de experi锚ncias que j谩 operam fora da l贸gica da competi莽茫o permanente. N茫o se trata de reproduzir modelos, mas, sim, de observar processos que nasceram do acompanhamento cont铆nuo, do di谩logo com artistas e territ贸rios, da curadoria como pr谩tica cotidiana, da constru莽茫o de v铆nculos e de planejamento que n茫o recome莽a do zero a cada ano. Temos experi锚ncias, no Brasil e fora daqui.

A partir dessa observa莽茫o, chegamos a uma conclus茫o: n茫o se trata de acabar com os editais, mas de recoloc谩-los no lugar certo. N茫o como centro do universo, mas como um instrumento entre v谩rios. Precisamos de ferramentas h铆bridas. Precisamos de fundos continuados, pol铆ticas plurianuais (de tr锚s, quatro, cinco anos), modelos curatoriais, redes de equipamentos, programas de manuten莽茫o, equipes qualificadas e planejamento de longo prazo. Precisamos de uma pol铆tica que ofere莽a menos aleatoriedade e mais estrutura, menos competi莽茫o e mais continuidade. E n茫o a maratona de editais.

Arte e Cultura

Gostaria ainda de sublinhar um ponto que, para mim, 茅 importante e se relaciona ao colapso dos editais: a confus茫o entre arte e cultura. Tratei disto tamb茅m nos meus artigos. Essa confus茫o produz efeitos diretos na formula莽茫o de pol铆ticas. A cultura 茅 territ贸rio dos modos coletivos de vida, 茅 ritual, transmiss茫o, pertencimento, identidade. A arte 茅 linguagem, forma, inven莽茫o, ruptura, espa莽o de risco, de fabula莽茫o, de estranhamento. A arte nasce da fic莽茫o e da abstra莽茫o, a cultura nasce das pr谩ticas compartilhadas. A cultura afirma, a arte pode desestabilizar. A cultura guarda, a arte inventa.

N茫o existe hierarquia entre elas. Mas quando tratamos arte e cultura como se fossem a mesma coisa, quando pedimos que a arte cumpra fun莽玫es que s茫o pr贸prias da cultura, ou quando submetemos processos art铆sticos 脿 mesma l贸gica das a莽玫es comunit谩rias, o resultado 茅 um modelo que sufoca a cria莽茫o. Criar exige tempo, continuidade, pesquisa, espa莽os equipados, remunera莽茫o profissional e liberdade est茅tica. Criar exige, sobretudo, pol铆tica p煤blica espec铆fica. E isso quase nunca aparece nos editais gen茅ricos que misturam teatro com patrim么nio, com express玫es religiosas, com quadrilha, carnaval, festa de bairro e barraquinha no mesmo pacote.

Para um pa铆s do tamanho e da complexidade do Brasil, isso 茅 ineficaz e, ouso dizer, injusto. O decreto que refundou o Minist茅rio da Cultura j谩 reconhece, em seu texto, que existem duas pol铆ticas: a de cultura e a de artes. Mas seguimos agindo como se bastasse colocar tudo dentro da mesma cesta, o que n茫o faz sentido, nem conceitual nem institucionalmente.

Quero aproveitar este espa莽o para propor algo concreto: que iniciemos, com a lideran莽a do governo federal, um processo urgente de constru莽茫o coletiva de um novo paradigma para o fomento 脿s artes e para o fomento 脿 cultura no Brasil. Que iniciemos este 鈥渆studo e elabora莽茫o de propostas鈥. Precisamos sair desse ciclo exaustivo da gincana da sobreviv锚ncia e ter coragem de enfrentar temas que precisam de reinven莽茫o.

Precisamos rediscutir a Lei Rouanet e suas distor莽玫es. Precisamos rediscutir a implanta莽茫o da PNAB, que entra agora em outro ciclo. Temos que discutir essas duas formas de fomento 脿 cultura para n茫o termos um mecanismo para projetos ricos e outro para projetos pobres.

Por fim, precisamos exigir que o Estado, em todas as suas esferas, recupere sua responsabilidade de garantir infraestrutura, continuidade, acompanhamento qualificado e condi莽玫es reais para que a arte e a cultura flores莽am. E exige tamb茅m que diferenciemos, com coragem e lucidez, o que 茅 arte e o que 茅 cultura, para que cada campo receba o cuidado e a pol铆tica que lhe s茫o pr贸prios. S贸 assim poderemos construir um sistema de fomento plural, justo, estruturante e capaz de olhar para o futuro de forma consequente e democr谩tica.

Deixo aqui tamb茅m, j谩 que falei de democracia, que a cultura e a arte s贸 podem sobreviver de forma saud谩vel em um Estado democr谩tico que respeita os direitos humanos e a cidadania.

Leia em Andante 鈥 Gest茫o de Cultura | Marcelo Bones

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1 Coment谩rio para “Al茅m dos Editais: notas para um novo paradigma de fomento 脿 cultura e 脿s artes – Por Marcelo Bones”

  1. Jacqueline Baumgratz disse:

    Sei que estamos cansados, 茅 compreens铆vel, sem pol铆tica p煤blica estruturante, apenas editais competitivos, que ficam pareados com os sistemas de apostas da BET Nacional, lutando a todo ano, para que os pr贸ximos 12 meses tenhamos projetos e a莽玫es para sobrevivermos de nossa Arte e Cultura, profissionais da Cultura precarizados, sem direitos, “Mas empreendedores” rsrsr s贸 rindo mesmo. Outra quest茫o 茅 o estapeamento entre amigos e artistas para conseguir aprova莽茫o de um m铆sero projeto, e se ele vem, existe a ironia dos coment谩rios maldosos “sempre os mesmos” aff como se fosse privil茅gio e sabemos que n茫o 茅. Os privilegiados desse pa铆s s茫o banqueirose herdeiros, n茫o artistas que buscam manter suas sedes, seus coletivos ativos numa rede colaborativa e solid谩ria. Acabamos por cometer erros de julgar e criticar os projetos selecionados tamanha 茅 nossa dor, diante a falata de equidade e justi莽a. Novamente ao inv茅s de se alegrar pelos que de fato conseguem manter sua a莽茫o art铆stica, cultural. Isso devia ser a condi莽茫o da “normalidade” j谩 que todos t锚m direito a usufruir e expressar-se pela Arte e Cultura. Atiramos nossas dores em quem n茫o devia. Pois se h谩 injusti莽a cometida, geralmente n茫o 茅 dos poucos que ainda conseguem arduamente passar um ou outro Projeto com recursos p煤blicos de fomento e sim da falta de pol铆tica p煤blica estruturante N茫o vejo luz no fim do t煤nel, ali谩s com a idade nem o t煤nel estou vendo mais rsrsr. Vejo gestores incompetentes e nada progressistas, pelo contr谩rio, quando estes gestores n茫o atuam no campo do autoritarismo, atuam no campo do facismo, persseguindo, humilhando, atravancando processos libertadores e democr谩ticos. N茫o lido bem com as novas tecnologias, mas deixo minhas considera莽玫es livres para uso geral. N茫o tenho respostas e nem muita energia e sa煤de mais para tantos embates, ruas etc, mas valorizo meu voto, como um dos poucos atos m铆nimos e revolucion谩rios que ainda me restam. E sigo guardando energias e sa煤de para o que de fato me faz feliz e pode ser transformador para nem que seja um pequeno pedacinho deste pa铆s, l谩 onde ficamos nossa aldeia, nossa comunidade, com gente de todos os jeitos e idades. Sigo insistindo na Arte, no Brincar, na Cultura que mesmo pequena aos olhos de muitos, a meus olhos, e ao das crian莽as que encontro nas andan莽as formativas se faz gigante, potente e esperan莽ada. Insistimos em construir a passos m铆nimos, tempos melhores pra todas as criaturas viventes!

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