Por Marcelo Bones
Neste artigo, relato meu olhar sobre o Encontro Nacional de Pol铆ticas para o Teatro, que aconteceu em Fortaleza, de 9 a 12 de setembro de 2025. 脡 um olhar muito particular: mesmo sendo da sociedade civil, estive diretamente envolvido como organizador. O Encontro foi uma realiza莽茫o da Funda莽茫o Nacional de Artes – FUNARTE, que me convidou para fazer a curadoria, a coordena莽茫o metodol贸gica e a produ莽茫o por meio de minha empresa, a Andante – Gest茫o de Cultura, desafio que logo ganhou a ades茫o de 脗ngela Mour茫o.
脡 importante come莽ar agradecendo 脿 FUNARTE pelo convite e tamb茅m reconhecendo a sua ousadia. O Encontro teve uma singularidade: foi um espa莽o de rearticula莽茫o da sociedade civil, nascido de uma convoca莽茫o p煤blica. 脌 primeira vista, pode soar estranho. Mas, diante da conjuntura e do tamanho da tarefa, faz sentido. Um 贸rg茫o do Estado chama o campo a se organizar, propor, debater e escrever. Aceitamos o chamado e o convite e fomos trabalhar.
N茫o nasceu do nada. O que fizemos se apoia numa longa trajet贸ria de movimentos e articula莽玫es, muito qualificadas, do teatro brasileiro. Ao longo da minha vida profissional, participei de muitos deles: o Movimento Nacional de Teatro de Grupo em 1991, o Redemoinho nos anos 2000, no qual atuei como conselheiro nacional, a Rede Brasileira de Teatro de Rua, de cuja funda莽茫o participei em 2007, os Congressos de Teatro, a ATAC, que ajudei a criar em 2018, o N煤cleo de Festivais, a Rede Brasileira de Festivais. Cada etapa deixou marcas, construiu instrumentos e afiou argumentos. 脡 nessa mem贸ria coletiva que nos sustentamos para organizar o evento.
Assim, o Encontro n茫o come莽ou com a chegada a Fortaleza. Come莽ou tr锚s meses antes. Coloquei-me a campo. Fiz mais de 70 longas conversas individuais e 10 reuni玫es coletivas. Foi um processo de escuta e de reconhecimento de demandas e, principalmente, de posi莽玫es. Grifo: foi, sobretudo, uma escuta de posi莽玫es. Nesses di谩logos, apareceu com evid锚ncia, o que n茫o se queria, mais do que consensos prontos. Nomear recusas e cr铆ticas tamb茅m abre horizontes.
Com base nessa escuta, pedimos aos participantes, por escrito, uma breve apresenta莽茫o de sua organiza莽茫o ou do momento pol铆tico de seu territ贸rio e tamb茅m dois pontos, explicados em um ou dois par谩grafos, que cada um considerasse fundamentais para constar de um poss铆vel documento final. Recebemos 35 contribui莽玫es formais. Sistematizamos, dividimos em eixos e, na proposta metodol贸gica, organizamos o trabalho em tr锚s grupos. Desse material nasceram 18 pontos, redigidos como proposi莽茫o inicial, repassados aos participantes antes de chegarmos a Fortaleza. S茫o vozes do processo, que orientaram o debate e serviram de guia para os dias seguintes.
A composi莽茫o foi representativa e plural. Estabelecemos uma lista diversa de 26 organiza莽玫es nacionais, estaduais e locais entre associa莽玫es, conselhos, federa莽玫es, redes, movimentos, sindicatos e coletivos. Mas n茫o foi um encontro apenas de entidades. Somaram-se artistas, produtores, t茅cnicos, cr铆ticos e pessoas com hist贸ria na milit芒ncia por pol铆ticas p煤blicas para o teatro, incluindo diversas formas de produ莽茫o e buscando contemplar v谩rios setores da rede produtiva do teatro feito no Brasil. Havia quem estivesse ligado a organiza莽玫es e quem n茫o estivesse ali representando sigla alguma, mas a pr贸pria caminhada. Esse encontro de representa莽玫es e trajet贸rias pessoais fez diferen莽a.
Houve uma 鈥渃uradoria鈥, sim. Eu a assumi. Era um recorte. Fosse outro organizador, seriam outras escolhas e outro Encontro. Aceitei a tarefa por entender que minha trajet贸ria me d谩 legitimidade para conduzir e responder por um m茅todo. Com o Encontro em curso, a curadoria se diluiu no coletivo. Era essa a inten莽茫o: criar um trilho e, nele, abrir espa莽o para o conjunto andar.
Em Fortaleza, a sala reuniu 80 participantes presenciais, vindos de todos os 26 estados e do Distrito Federal. Entramos com material preparado, a sala se apresentou e, a partir da铆, mergulhamos no debate em tr锚s grupos, com tempos para sistematiza莽玫es e plen谩rias. O que se escrevia era sempre confrontado pelo todo. O que se propunha pedia texto que pudesse ser entendido por quem n茫o estava ali.
As dificuldades existiram e importam. O processo de convite gerou ru铆dos. Houve falhas pontuais. Tratamos disso como parte do procedimento. Quem busca s铆ntese pol铆tica aceita o desconforto e trabalha a favor do resultado.
Quando come莽amos a pensar a organiza莽茫o deste Encontro, partimos de uma premissa que foi inteiramente constatada ao longo do processo. O setor do teatro n茫o estava desarticulado. Ele estava, na verdade, exausto. Cansado por esperar durante muitos e muitos anos por pol铆ticas p煤blicas que fossem de fato robustas e estruturantes. A expectativa criada em rela莽茫o aos governos sempre foi muito maior do que o que foi apresentado e ofertado por eles. Nesse contexto, a sobreviv锚ncia dos projetos art铆sticos exige um n铆vel t茫o grande de trabalho e dedica莽茫o que a simples exist锚ncia deles j谩 d谩 sinais precisos de uma imensa articula莽茫o. Fica evidente que o poder p煤blico precisa estar mais pr贸ximo e mais ativo, buscando solu莽玫es realmente inovadoras que estabele莽am uma conex茫o mais direta com o setor.
Como desdobramento imediato do Encontro, a FUNARTE, a Secretaria da Cultura do Cear谩 e a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza assinaram um protocolo de inten莽玫es que formaliza uma pactua莽茫o entre Uni茫o, Estado e Munic铆pio. O texto afirma a prioridade do trabalho continuado de grupos e coletivos, indica alinhamento de programas e instrumentos 脿 Pol铆tica Nacional Aldir Blanc e cria base para coopera莽茫o em continuidade, circula莽茫o e condi莽玫es de trabalho. N茫o 茅 um gesto apenas simb贸lico. 脡 um compromisso p煤blico que d谩 lastro para as pr贸ximas etapas e para outros territ贸rios. A FUNARTE instituiu ainda um grupo de trabalho composto por participantes do Encontro, com a tarefa de assessorar a pr贸pria Funda莽茫o na formula莽茫o e no acompanhamento de pol铆ticas p煤blicas para o teatro, bem como na implementa莽茫o da Pol铆tica Nacional das Artes no que toca ao campo teatral.
Ao final dos dias presenciais e depois de longas reuni玫es virtuais, apresentamos a Carta de Fortaleza. Ela registra as vozes que estiveram na constru莽茫o. Est谩 dispon铆vel no site do Observat贸rio dos Festivais (festivais.org.br).
脡 um documento de trabalho, n茫o um enfeite. Pretende orientar escolhas, cronogramas e responsabilidades. Re煤ne o que o conjunto p么de pactuar e o converte em instrumento operativo. N茫o apenas registra consensos poss铆veis; organiza a escuta em uma s铆ntese pol铆tica capaz de orientar decis玫es. Explicita problemas, crit茅rios e prioridades, transforma enunciados em diretrizes e cria um vocabul谩rio comum entre diferentes territ贸rios, fun莽玫es e linguagens. Ao faz锚-lo, oferece uma base de negocia莽茫o entre o setor do teatro no Brasil e o poder p煤blico, um quadro de refer锚ncia para escolhas or莽ament谩rias e um roteiro para sair da ret贸rica para o campo das decis玫es.
Com mais de cinquenta p谩ginas, a Carta de Fortaleza apresenta um mapa do campo e uma arquitetura de a莽茫o: fomento continuado, circula莽茫o, espa莽os e equipamentos, forma莽茫o, condi莽玫es de trabalho, mem贸ria e documenta莽茫o, diversidade e acessibilidade, governan莽a e participa莽茫o social. Nomeia problemas, justifica prioridades, sugere caminhos, distribui responsabilidades e indica a necessidade de calend谩rios e crit茅rios de avalia莽茫o. Foi escrita para ser usada, corrigida e ampliada pelo pr贸prio setor e pelas gest玫es com as quais dialoga. A partir dela, cada eixo deve detalhar programas, par芒metros m铆nimos e prazos, definir respons谩veis, pactuar mecanismos de acompanhamento e prever revis玫es peri贸dicas. O objetivo 茅 que o texto respire no cotidiano das pol铆ticas, ajuste rota quando necess谩rio e sustente a莽玫es continuadas que fa莽am diferen莽a onde a vida do teatro acontece.
Nos 煤ltimos meses, escrevi textos que ajudam a iluminar o contexto em que estamos: sobre o colapso dos editais e sobre a necess谩ria distin莽茫o entre arte e cultura. N茫o foram temas centrais do Encontro, mas atravessaram conversas e prepararam terreno.
Na minha fala de abertura, homenageei Reinaldo Maia. Ator, dramaturgo, diretor, fundador do Grupo Folias d鈥橝rte na d茅cada de 1990 em S茫o Paulo e participante do Manifesto Arte Contra a Barb谩rie em 1999, Reinaldo foi refer锚ncia decisiva nas articula莽玫es do nosso teatro. Aprendi com ele sobre pol铆tica e sobre a for莽a da organiza莽茫o coletiva. Partiu cedo, em 2009, de forma repentina. Era duro e doce. Deixou marcas profundas. E, numa lembran莽a muito minha, o ouvi muitas vezes defender que 鈥渙rganiza莽茫o 茅 paci锚ncia com m茅todo鈥: trouxe sua mem贸ria como inspira莽茫o e agradecimento.
O Encontro chamou para si a responsabilidade hist贸rica de um momento conturbado. Contribui para que o teatro brasileiro se reorganize nacionalmente e reencontre formas de articula莽茫o com o Estado nas esferas federal, estadual e municipal. Pede uma agenda pol铆tica mais precisa e instrumentos que resistam 脿s sazonalidades governamentais.
Ao observar a riqueza dos debates, noto tamb茅m um desafio que persiste para al茅m do Encontro. Creio que a import芒ncia pol铆tica de se unificar as v谩rias formas de fazer teatro ainda precisa ser mais bem assimilada pelo conjunto do setor. Reunir em um mesmo projeto pol铆tico artistas independentes, grupos e coletivos, t茅cnicos, dramaturgos, produtores, gestores, realizadores de pequenos, m茅dios e grandes festivais, redes, f贸runs e movimentos organizados, sindicatos, federa莽玫es, cr铆ticos, pesquisadores e representantes de teatros distintos e segmentados, transcende a simples necessidade de di谩logo. 脡 uma tomada de posi莽茫o estrat茅gica. Um campo que se apresenta ao poder p煤blico de forma pulverizada, com cada segmento defendendo seus pr贸prios interesses, leg铆timos, por茅m isolados, corre o risco de ser atendido de forma igualmente pontual e prec谩ria. A unifica莽茫o, portanto, n茫o significa apagar as diferen莽as que nos constituem. Significa, antes, compreender que a sustentabilidade de cada parte, da menor 脿 maior, do norte ao sul, do centro 脿 periferia depende da sa煤de, da articula莽茫o e da for莽a pol铆tica do todo.
E encerro agradecendo novamente 脿 FUNARTE pelo convite e pela ousadia dessa convoca莽茫o, bem como a todos os interlocutores que sustentaram e contribu铆ram nesse processo. Agrade莽o 脿s pessoas que estiveram presentes e que, com paci锚ncia, escuta, dedica莽茫o, milit芒ncia e alegria, foram correalizadoras do Encontro. A Carta de Fortaleza organiza, em pr贸logo, atos e cenas, o que deve ser princ铆pios, frentes de trabalho e prioridades. O que pactuamos exige decis茫o, calend谩rio, or莽amento, respons谩veis e acompanhamento p煤blico.
Encerramos o encontro!
Agora, o documento precisa viver no mundo real.
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