COLUNAS

O Afeganist茫o pode ser aqui – Coluna de Fayga Moreira 04/09/2024

Por聽Fayga Moreira*

 

Em 1993, Gilberto Gil e Caetano Veloso lan莽aram a m煤sica Haiti. Em um dos trechos, vem essa provoca莽茫o – t茫o contempor芒nea e contundente quanto dolorosa:

Pense no Haiti / reze pelo Haiti

O Haiti 茅 aqui / o Haiti n茫o 茅 aqui

Como uma obra de arte 茅 pass铆vel de m煤ltiplas interpreta莽玫es, n茫o vou aqui me deter em uma an谩lise. Apenas ousarei tra莽ar um paralelo entre a can莽茫o e a discuss茫o aqui proposta. Embora o Haiti tenha sido o primeiro pa铆s a se tornar independente nas Am茅ricas, as coloniza莽玫es espanhola e francesa deixaram um lastro t茫o profundo de destrui莽茫o, viol锚ncia, racismo e mis茅ria, que mesmo a rebeli茫o e resist锚ncia do povo (majoritariamente preto) n茫o foi capaz de frear consecutivos governos ditatoriais e guerras civis.

Como resultado, o Haiti segue figurando, ao longo de d茅cadas e d茅cadas, como o pa铆s mais pobre do nosso continente. O que Gil e Caetano nos estimulam a pensar, com toda licen莽a po茅tico-musical que t锚m direito, 茅 que as mazelas dessa din芒mica colonialista tamb茅m residem aqui. Temos Haitis dentro do Brasil, embora o Haiti n茫o seja aqui.

Minha aud谩cia, ent茫o, me p玫e a imaginar que o Afeganist茫o tamb茅m pode estar aqui, em estado de lat锚ncia ou j谩 bem enraizado entre n贸s. Me lembrei das aulas do professor e pesquisador Muniz Sodr茅 durante o mestrado na ECO/UFRJ. Naquele casar茫o antigo, numa sala com um piso de madeira que deixava expostas as marcas do tempo, Muniz alertava: se n茫o combatermos agora a estrat茅gia de certos grupos evang茅licos que fazem da f茅 um neg贸cio, eles conseguir茫o corroer o estado laico. Como? Ocupando, estrategicamente, os espa莽os de decis茫o e poder.

Era 2005 e eu, uma estudante de mestrado que acabara de sair de uma experi锚ncia um tanto libert谩ria na gradua莽茫o, achava aquele papo exagerado e catastr贸fico. Na minha cabe莽a jovial, n茫o existia lugar, no Brasil, para fundamentalismos religiosos. Mas essa precau莽茫o lan莽ada pelo querido mestre foi, sem d煤vidas, a reflex茫o que mais me marcou.

Muniz j谩 anunciava o que viria a tornar-se realidade: em 2021, um ministro do Supremo Tribunal Federal foi indicado para a mais alta corte por ser 鈥渢errivelmente evang茅lico鈥.[1] Contudo, antes mesmo que o tr谩gico governo Bolsonaro ganhasse as elei莽玫es, com um discurso caricato de 鈥淒eus, p谩tria, fam铆lia鈥, a bancada da b铆blia tinha se fortalecido politicamente o suficiente para pressionar as elei莽玫es do pa铆s, pautar agendas conservadoras no Legislativo e atacar decis玫es progressistas do Judici谩rio. Muniz Sodr茅 tinha raz茫o.

Nos 煤ltimos anos, especialmente com o fen么meno das redes sociais, todo esse lodo (fascista, conservador, retr贸grado, moralista, mis贸gino, racista, homof贸bico, anti-democr谩tico), que estava rosnando baixinho dentro dos espa莽os privados, sentindo-se reprimido pelo 鈥渁tivismo鈥 dos direitos humanos e das feministas, adentrou o espa莽o p煤blico com uma for莽a que pegou muitas pessoas 鈥渄esavisadas鈥 ou 鈥渋ng锚nuas鈥 (como eu) de surpresa. Esse transbordamento do 贸dio 脿s diferen莽as impactou violentamente todas as lutas pol铆ticas progressistas. Aqui vou me deter na quest茫o da equidade de g锚nero.

Na esteira desse esgar莽amento do estado laico e do fortalecimento da bancada da b铆blia, a viol锚ncia contra as mulheres entrou numa escalada assustadora. Nos 煤ltimos 5 anos, todas as taxas de viol锚ncias contra mulheres (feminic铆dio, viol锚ncia sexual, f铆sica, patrimonial, psicol贸gica) aumentaram significativamente, de acordo com dados do Instituto Igarap茅.[2] Mas, se algumas de n贸s pens谩vamos que o governo de extrema direita de Bolsonaro era o m谩ximo de retrocesso que ter铆amos que lidar, a situa莽茫o s贸 piorou. A partir de 2023, grupos mis贸ginos come莽aram a ganhar popularidade com teses e termos que pareciam catapultados da era das cavernas para o s茅culo XXI. Uma movimenta莽茫o, que seria pat茅tica, se n茫o fosse tr谩gica, de homens defendendo a inferioridade das mulheres, o resgate da submiss茫o delas aos homens, a retomada da virilidade masculina e a derrota do feminismo, movimento que, segundo os adeptos da 鈥榤achosfera鈥, acabou com as fam铆lias de bem e fez com que as mulheres se tornassem perigosas. Pasmem, 茅 isso que os redpills, incels e demais seitas reacion谩rias pregam. Ali谩s, pregam n茫o, orientam; por isso s茫o chamados de 鈥榗oaches鈥 da masculinidade t贸xica.[3]

Basta olhar para o que acontece, nesse exato momento, em S茫o Paulo. Um candidato que diz que pode fazer cadeirantes voltarem a andar apenas com suas ora莽玫es, que ainda vai ver uma pessoa morta ressuscitar com seu poder messi芒nico, que atua como mentor para milhares de homens (adultos e jovens) se tornarem milion谩rios e que tem como inspira莽茫o para sua campanha um coach de outro pa铆s que 茅 um redpill 鈥渞aiz鈥 e defende abertamente que mulheres devem ser propriedades dos homens. Quem sou eu para antecipar futuros como o fez, sabiamente, Muniz Sodr茅. Mas, c谩 estou, lan莽ando esse alerta como uma flecha no tempo. Espero que a nossa sociedade n茫o caia nesse 鈥楲aMar莽al鈥, afinal o Afeganist茫o pode ser aqui. Fiquemos atentas e fortes.

[1] Bolsonaro reafirma que indicar谩 ao STF ministro 鈥渢errivelmente evang茅lico鈥 鈥 Not铆cias 鈥 Portal da C芒mara dos Deputados (c芒mara.leg.br)

[2] Estudo aponta aumento de 19% da viol锚ncia n茫o letal contra mulheres no Brasil nos 煤ltimos 5 anos. 鈥 Instituto Igarap茅 (igarape.org.br)

[3] Coach de ass茅dio? A rede masculinista que abra莽a Thiago Schutz 鈥 Nexo Jornal

Redpill, Incel, MGTOW: entenda o que acontece em grupos masculinos que pregam 贸dio 脿s mulheres | O Assunto | G1 (globo.com)

 

*Fayga Moreira – jornalista, pesquisadora, produtora cultural, professora universit谩ria, escritora e m茫e.

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1 Coment谩rio para “O Afeganist茫o pode ser aqui – Coluna de Fayga Moreira 04/09/2024”

  1. James Gondim disse:

    O estado deve ser laico, e o desafio para n贸s, 茅 combater esta apropria莽茫o do Estado, pela bancada da b铆blia. Demoramos a nos dar conta e, agora esta mais dif铆cil esta luta … Parab茅ns pelo texto …

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