COLUNAS

Regular os streamings 茅 fortalecer a ind煤stria e os polos audiovisuais do Brasil 鈥 Por Gabriel Portela

Por Gabriel Portela

As 煤ltimas duas d茅cadas representaram um per铆odo de avan莽os institucionais estruturantes para o desenvolvimento do audiovisual brasileiro. A cria莽茫o da Ancine, do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e do Conselho Superior de Cinema consolidaram uma arquitetura institucional robusta, que desenvolveu a produ莽茫o independente em todos os estados, fortalecendo os principais polos, como S茫o Paulo e Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que contribuiu para a emerg锚ncia de novos centros de produ莽茫o em todas as regi玫es do pa铆s.

A regula莽茫o da TV por assinatura por meio da Lei n潞 12.485/2011 foi um marco central dessa fase. Ela estabeleceu cotas de exibi莽茫o de conte煤do brasileiro independente nos canais pagos e criou a Condecine-Teles, contribui莽茫o obrigat贸ria das operadoras de telecomunica莽茫o que possibilitou a amplia莽茫o or莽ament谩ria do FSA em 415% j谩 em 2015. Isso permitiu o fortalecimento e a diversifica莽茫o das linhas de investimento do fundo, incluindo iniciativas voltadas 脿 regionaliza莽茫o, como a linha de Arranjos Regionais, que abordei em artigo anterior nesta coluna. Como resultado, o setor audiovisual respondeu com for莽a: o valor adicionado 脿 economia brasileira cresceu 306,9% em uma d茅cada, superando ind煤strias tradicionais como a farmac锚utica, a t锚xtil e a de equipamentos eletr么nicos. E j谩 em 2018, o Brasil bateu recorde com 171 longas-metragens nacionais lan莽ados nos cinemas at茅 ent茫o.

No entanto, passadas essas duas d茅cadas, o setor se encontra em uma encruzilhada. Em 2025, o cinema brasileiro vive um momento de reconhecimento e proje莽茫o in茅ditos: conquistamos o primeiro Oscar de melhor filme internacional e fomos premiados nos festivais de Cannes e Berlim. Tamb茅m voltamos a ver filmes nacionais alcan莽ando grandes p煤blicos e contribuindo para a recupera莽茫o das salas de cinema no p贸s-pandemia. Mas para que esse novo ciclo de visibilidade e relev芒ncia se sustente, 茅 urgente regular a fronteira atual do mercado audiovisual global: os servi莽os de streaming (video on demand).

Da mesma forma que a regula莽茫o da TV paga possibilitou um novo e positivo cen谩rio para o desenvolvimento do audiovisual brasileiro, regular os streaming no pa铆s 茅 possibilitar a cria莽茫o de estrat茅gias e pol铆ticas sustent谩veis que consolidem o mercado nacional de forma estrutural, tanto nos grandes polos como nos territ贸rios emergentes.

Nos 煤ltimos anos, fruto do fortalecimento or莽ament谩rio do FSA e impulsionadas especialmente pelas linhas de Arranjos Regionais do FSA, diversas cidades e estados brasileiros avan莽aram na institucionaliza莽茫o de pol铆ticas audiovisuais pr贸prias. A cria莽茫o de empresas p煤blicas e programas dedicados ao setor tornou-se uma marca de gest玫es que enxergam o audiovisual como vetor de desenvolvimento econ么mico.

A Spcine, empresa p煤blica criada em 2015 no munic铆pio de S茫o Paulo, inaugurou um modelo contempor芒neo de pol铆tica audiovisual, integrando fomento, difus茫o, forma莽茫o, internacionaliza莽茫o e atra莽茫o de filmagens. Ao completar dez anos em 2025, atravessando gest玫es de diferentes matizes pol铆ticas, a Spcine se consolida como pol铆tica de Estado. A RioFilme, por sua vez, empresa p煤blica criada no in铆cio dos anos 1990 na cidade do Rio de Janeiro, vive hoje um positivo processo de revitaliza莽茫o, re-assumindo o protagonismo no desenho de pol铆ticas locais para o pujante setor carioca.

Essas experi锚ncias inspiraram a cria莽茫o do BH nas Telas – Programa de Desenvolvimento do Audiovisual de Belo Horizonte, financiado inicialmente por meio dos Arranjos Regionais. A partir do programa foram implementados editais espec铆ficos para o setor, uma film commission, a莽玫es de forma莽茫o e um observat贸rio dedicado ao audiovisual belorizontino. Salvador tamb茅m lan莽ou seu programa Salcine, com a莽玫es de fomento, film commission, forma莽茫o e infraestrutura. Em Jo茫o Pessoa, est谩 em curso a cria莽茫o de uma empresa municipal de audiovisual, aos moldes das principais experi锚ncias nacionais. Nos estados, iniciativas como a Bahia Filmes, no 芒mbito estadual, finalmente saem do papel ap贸s anos de articula莽茫o e observam-se movimentos semelhantes no Cear谩, Esp铆rito Santo e outras localidades.

Outro fen么meno recente 茅 o fortalecimento das film commissions nos estados e munic铆pios, hoje articuladas pela Rede de Film Commissions do Brasil (REFIC), que re煤ne 29 iniciativas em todas as regi玫es do pa铆s. Essas estruturas t锚m se mostrado pe莽as estrat茅gicas nas pol铆ticas locais, promovendo desenvolvimento econ么mico e projetando os territ贸rios por meio da atra莽茫o de filmagens.

Todas essas iniciativas expressam o surgimento de uma nova gera莽茫o de instrumentos p煤blicos mais conectados 脿s din芒micas locais e 脿 diversidade do ecossistema audiovisual brasileiro. E 茅 nesse contexto que se torna indispens谩vel a regula莽茫o do mercado de v铆deo sob demanda (VOD) no Brasil. H谩 mais de 15 anos, as plataformas de streaming operam no pa铆s sem contribuir de forma equivalente ao restante da cadeia audiovisual. Diferentemente das salas de cinema, dos canais de TV e das produtoras nacionais, essas empresas seguem fora do escopo da regula莽茫o e da contribui莽茫o por meio da Condecine, o que provoca desequil铆brios concorrenciais e compromete o financiamento do setor. Isso significa que grandes conglomerados estrangeiros usufruem do nosso mercado, o segundo maior do mundo, sem recolher impostos e taxas proporcionais 脿 sua opera莽茫o no territ贸rio nacional, sem distribuir os direitos autorais e patrimoniais de forma justa e equilibrada, gerando uma concorr锚ncia desleal e provocando uma perda expressiva de receitas que deveriam retroalimentar o desenvolvimento da ind煤stria audiovisual brasileira.

Neste cen谩rio, ganha especial relev芒ncia a relatoria da deputada Jandira Feghali para o Projeto de Lei n潞 2.331/2022, atualmente em tramita莽茫o na C芒mara dos Deputados. O parecer da deputada representa, at茅 o momento, o texto mais avan莽ado na formula莽茫o de uma proposta de regula莽茫o equilibrada e estruturante para o setor, ainda que haja espa莽o para aprimoramentos, em especial no que diz respeito 脿 destina莽茫o direta da Condecine pelas plataformas.

Em meio 脿s dificuldades de tramita莽茫o legislativa, 茅 fundamental que o setor, os entes p煤blicos e a sociedade civil organizada reconhe莽am a import芒ncia de apoiar esse texto como uma base consistente e vi谩vel para garantir a sustentabilidade, a soberania e o futuro do audiovisual nacional. Regular o VoD, com justi莽a e equil铆brio, 茅 assegurar que o desenvolvimento do cinema e do audiovisual brasileiros continue sendo um projeto nacional, industrial, diverso e sustent谩vel.

Deixe aqui o seu comentario

Todos os campos devem ser preenchidos. Seu e-mail n茫o ser谩 publicado.

ACONTECE

Chamada para publica莽茫o 鈥 Boletim 103, N. 01/2025

CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O – Boletim 103, n潞 01/2025 Os 20 anos da Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais Per铆odo para submiss茫o: 21 de maio a 08 de setembro de 2025   Este ano a Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais promulgada pelos pa铆ses membros da […]

CURSOS E OFICINAS

Gest茫o Cultural para Lideran莽as Comunit谩rias – Online

O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]

Mais cursos