COLUNAS

Sobre o que a decolonialidade n茫o 茅 – Coluna de Fayga Moreira 22/08/2024

Por聽Fayga Moreira*

Foto: Ricardo Stuckert

Outro dia, me enviaram um texto de uma pesquisadora que se autointitula antifeminista, conservadora e cr铆tica da decolonialidade. Ela afirmava que o debate decolonial tomou o mesmo rumo das pautas identit谩rias: excluir mais que incluir. Repetindo uma velha f贸rmula da extrema direita: nega que determinadas agendas geram avan莽os nos debates sociais e culturais e diz que a quest茫o 茅 mais complexa. Complexidade da qual ela mesmo se exime. Aquela hist贸ria do 鈥渧ale tudo pela lacra莽茫o鈥.

Por茅m, dentro do pr贸prio campo cr铆tico-reflexivo em que o conceito de decolonialidade foi forjado, h谩 quem diga que deixou de us谩-lo porque virou moda, se tornou mais uma etiqueta no mercado capitalista. Acontece que os conceitos s茫o elaborados por uma converg锚ncia de diversos fatores, dentre eles: uma escassez de defini莽玫es para nomear determinada experi锚ncia e uma necessidade inequ铆voca de pensar algo em seu conjunto para apontar semelhan莽as nas diferen莽as. Nesse processo, o conceito vai sendo lapidado e compartilhado em simp贸sios, semin谩rios, palestras, livros, artigos acad锚micos, discursos, nas mesas de bar, nos encontros fortuitos em pontos de 么nibus, em cursos, na milit芒ncia e, pasmem, at茅 em filmes e telenovelas. Nada mais esperado, mas ser谩 que estamos preparados para essa conversa?

J谩 citei isso na apresenta莽茫o do meu livro 鈥淒esvios decoloniais no cinema brasileiro contempor芒neo鈥, mas volto a dizer: o conceito de聽 decolonialidade provocou abalos s铆smicos no meu modo de enxergar o mundo (nosso mundo) tanto quanto as cr铆ticas nietzschianas 脿 moralidade crist茫; as ideias de Deleuze e Guattari de revolu莽茫o molecular, de processo de subjetiva莽茫o, de ecosofia; como a teoria foucaultiana de biopol铆tica e microf铆sica do poder.

Contudo, por ser uma ferramenta anal铆tica que nasce dos movimentos sociais, especialmente andinos e latinos, a g锚nese, ou melhor a germina莽茫o desse conceito, remete 脿s nossas ra铆zes. Existe uma proximidade que est谩 aterrada em nossa hist贸ria, em nosso continente. Nesse sentido, o que chamam de moda, eu defino como aumento de escala de acesso a certa discuss茫o que j谩 estava semeada em todo territ贸rio latino. 鈥淪embrada鈥 (como diriam nossos hermanos fronteiri莽os), mas sombreada. Um debate em estado de lat锚ncia, mas carregando a for莽a de quem resiste h谩 muitos s茅culos pelo direito de existir em uma terra que lhes foi roubada.

O que chamam de 鈥渕oda鈥, entendo como a populariza莽茫o de ideias que j谩 v锚m do popular, mas que foram invisibilizadas pelo saber cient铆fico eurocentrado. Ao contr谩rio do que muitos pensam, a decolonialidade n茫o foi formulada dentro de um c铆rculo acad锚mico encastelado entre muros e crach谩s. Mas, por supuesto, foi referendada l谩, porque assim 茅 o sistema de produ莽茫o de conhecimento imposto mundo afora.

A desconstru莽茫o que a decolonialidade prop玫e se alastrou, penso eu, porque nos ajudou a entender as colonialidades (assim mesmo, no plural) que nos atravessam, em nossa experi锚ncia de vida e coletiva. A decolonialidade desempenha, para n贸s latino-americanos, o papel que o debate interseccional promove no Norte Global. Se a interseccionalidade chama a aten莽茫o para o fato de que precisamos pensar as matrizes de poder como coexistentes e n茫o hierarquiz谩veis, a decolonialidade provoca uma reflex茫o n茫o-eurocentrada a respeito de tais matrizes de poder. Nos interpela com a seguinte quest茫o: quem define o que 茅 sabedoria, produ莽茫o de conhecimento e intelectualidade?

Em um pa铆s que 茅 mais floresta e quilombo que 鈥farialimer鈥, qual sabedoria importa mais?

Nesse territ贸rio, mais latino-americano que mercado financeiro, interessa menos o saber dos povos ind铆genas, s谩bios conhecedores da tecnologia ancestral de coexist锚ncia com a floresta?

Quando lideran莽as ind铆genas afirmam que o Brasil do cocar j谩 existia muito antes do Brasil da coroa, seus conhecimentos s茫o escutados, no debate p煤blico e institucional, tanto quanto a voz do agroneg贸cio?

Ser谩 que temos capacidade de aceitar como 鈥減op鈥 a ideia de que, nesse territ贸rio em que pisamos, saberes foram acumulados e sistematizados antes mesmo que a fam铆lia real chegasse com todo aquele outro saber euroc锚ntrico?

Ser谩 que conseguimos compreender que aqui havia ci锚ncia, antes que bibliotecas e universidades fossem criadas?

Como pa铆s, somos mesmo t茫o decoloniais a ponto de aceitarmos que a oralidade cumpria muito bem o papel de transmiss茫o da sabedoria de um povo, por meio de arquivos criados na mem贸ria humana e n茫o em pap茅is acumulados ou em nuvens digitalizadas?

Ser谩 que, realmente, a decolonialidade est谩 na moda, em uma sociedade que elege um Congresso defensor do Marco Temporal?

Tenho d煤vidas.

Mas me restam algumas certezas: de que esse conceito n茫o foi cultivado para ser contra nada. O debate decolonial n茫o tem como inten莽茫o ser contra os europeus, contra os ianques, contra a ci锚ncia, contra a modernidade. N茫o 茅 sobre isso. E, sim, sobre como podemos alargar nosso horizonte de possibilidades sens铆veis e concretas, j谩 que a humanidade precisa (ou n茫o) deixar menos rastros de destrui莽茫o pelo mundo.

Sobre como podemos negociar com os poderes de forma menos b茅lica e mais diplom谩tica, entendendo que o objetivo 茅 comum: diminuir nossas emiss玫es de carbono, na tentativa de frear os extremos clim谩ticos.

Por fim, 茅 sobre ampliar nosso repert贸rio a ponto de entender que, aquilo que entendemos como 鈥渕ais civilizado鈥, 鈥渕ais moderno鈥, 鈥渕ais avan莽ado鈥, pode n茫o estar l谩 ou acol谩, mas aqui. E al茅m: pode ter sido apropriado, extraviado, usurpado daqui ou do continente africano e tarjado como 鈥渄eles鈥.

Nesse ponto crucial, a sabedoria e tecnologia ind铆genas se encontram com a produ莽茫o de conhecimento formatada em uma modernidade que nunca chegou a ser moderna, em um iluminismo que provocou muitas escurid玫es. Nesse encontro, a decolonialidade se prop玫e mediadora de um debate mais equ芒nime. Voc锚s t锚m poder, dinheiro, armas, n贸s temos um conhecimento que voc锚s sempre negaram como cient铆fico. Ser谩 que conseguimos chegar, n茫o a um consenso, mas a algum caminho do meio? Afinal, coabitamos o mesmo planeta e queremos 鈥渟egurar o c茅u鈥 para ele 鈥渘茫o desabar鈥.

Se voc锚s querem complexidade, convido a analisarem essa imagem da ocasi茫o em que Macron (presidente franc锚s) condecorou o Cacique Raoni com a mais alta honraria da Fran莽a.

Foto: Ricardo Stuckert

Se voc锚s querem complexidade, convido a um aprofundamento no que a decolonialidade levanta como proposta cr铆tica. Seremos capazes mesmo de adentrar esse modismo complexo e profundo?

Ou seguiremos refutando princ铆pios epist锚micos apenas para frear sua capacidade de impactar o debate p煤blico de modo incontorn谩vel? Sonho com o dia em que Krenak, Kopenawa, Raoni, Silvas, Dos Santos, Tupinamb谩s e Guajajaras estejam na moda tanto quanto Marx, Foucault, Beauvoir, Sartre e Plat茫o, que sempre estiveram em alta na geopol铆tica do conhecimento.

 

 

*Fayga Moreira – jornalista, pesquisadora, produtora cultural, professora universit谩ria, escritora e m茫e.

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