COLUNAS

Zona da Mata, Zona de Arte – Por Alexandre Barbalho

Por聽Alexandre Barbalho

Hectares de terra, muitos, voltados para a monocultura. L谩grimas nos olhos, menos de ler o Pessoa, mais de ver o verde-plantation da cana, parafraseando Belchior. Na zona da mata sul de Pernambuco, come莽ou a operar em 1929 a usina Santa Terezinha. Duas d茅cadas depois, tornou-se a maior produtora brasileira de 谩lcool e a莽煤car, at茅 falir no final dos anos noventa. Para ligar a 谩rea de plantio e colheita com a f谩brica e o mercado, a propriedade chegou a ter mais de 100km de estrada de ferro.

Em Nordeste, de 1937, o suspeito Gilberto Freyre, descendente de senhores de engenho, n茫o deixa de admitir que se, de um lado, a regi茫o a莽ucareira tem 鈥渦ma paisagem enobrecida pela capela, pelo cruzeiro, pela casa-grande, pelo cavalo de ra莽a, pelo barco a vela, pela palmeira-imperial, de outro, ela se deforma 鈥減ela monocultura latifundi谩ria e escravocr谩tica; esterilizada por ela em algumas de suas fontes de vida e de alimenta莽茫o mais valiosas e mais puras; devastada nas suas matas; degradada nas suas 谩guas”. A l贸gica persistente h谩 quinhentos de monocultura da cana-de-a莽煤car, onde antes havia o vigor da Mata Atl芒ntica, resultou, continua Freyre: 鈥渘a diminui莽茫o da sa煤de do homem; na diminui莽茫o das fontes naturais da vida regional; na diminui莽茫o da dignidade e da beleza da paisagem”.

A usina Santa Teresinha hoje 茅 ru铆na. Imensos esqueletos de alvenaria e ferro. No topo de um deles, a instala莽茫o de Alfredo Jaar Claro-Escuro聽(2015) explode em verde-neon聽 a frase de聽Antonio Gramsci: 鈥淥 velho mundo est谩 morrendo. O novo demora a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros鈥. Sim, desde 2015, a antiga ind煤stria e um espa莽o em torno de 35 hectares abrigam um museu de arte contempor芒nea e um parque bot芒nico, a Usina de Arte.

A curadoria inicial desse museu a c茅u aberto, explicitamente inspirado na experi锚ncia de Inhotim, foi do artista paraibano Jos茅 Rufino, tamb茅m descendente de senhores de engenho. O pr贸prio artista tem uma obra instalada no antigo hangar da propriedade onde se apodera de objetos-restos da empresa. No site da Usina de Arte (http://www.usinadearte.org/) se l锚 sobre o 鈥淗angar Jos茅 Rufino鈥澛: 鈥淎 instala莽茫o com desenhos e esculturas aborda quest玫es da Usina Santa Terezinha, trazendo 脿 reflex茫o hist贸rias de trabalhadores desde o corte da cana, oper谩rios da ind煤stria, das atividades correlatas, enfim tantas vidas dedicadas 脿 produ莽茫o a莽ucareira, fam铆lias que ali viveram , seus sacrif铆cios e esfor莽os , suas mem贸rias ali homenageadas atrav茅s do resgate de materiais antes abandonados no fundo do antigo almoxarifado鈥.

S茫o dezenas de artistas nacionais e internacionais cujas obras dialogam com a hist贸ria e a natureza locais. Talvez a que tenha recebido mais aten莽茫o midi谩tica seja a obra 鈥淒iva鈥, da artista pernambucana Juliana Notari, uma vulva gigantesca de 33 metros de comprimento, por 16 metros de largura e 6 metros de profundidade encravada na terra. Se 鈥淎 origem do mundo鈥 de Coubert retrata um espa莽o privado e urbano como fonte de tudo, Notari chama aten莽茫o que 茅 da m茫e-terra-p煤blica que nascemos, apesar de toda a viol锚ncia f铆sica e simb贸lica perpetrada 脿 terra e 脿s mulheres. A curadora Clarissa Diniz, em texto dispon铆vel no site da artista (https://www.juliananotari.com/), diz que a obra 茅 um 鈥渁bcesso que dar a ver a viol锚ncia hist贸rica sobre os corpos femininos e que seguem sendo cotidianamente feridos de muitas 鈥 e, a depender de sua cor ou g锚nero, de distintas e assim茅tricas 鈥 maneiras, assim como o corpo de Gaya, a nossa M茫e terra鈥.

Se estamos em tempo de monstros, que somos n贸s mesmos, e se o novo ainda n茫o nasceu, ainda haver谩 鈥 para citar a obra do artista paraense Ben茅 Fonteles exposta na Usina 鈥 鈥渢empo-templo鈥? Ou j谩 somos e continuaremos ru铆nas? Essa 茅 a for莽a desse espa莽o de cria莽茫o na zona da mata. Sua 鈥減o茅tica da ru铆na鈥, na defini莽茫o de Fabiano Lucena de Ara煤jo, 鈥渆ssa po茅tica da reciclagem dos res铆duos industriais e dos detritos ambientais鈥. No m铆nimo, defende o pesquisador, essas gambiarras,聽 sucatas聽 e聽 compostagem, tem 鈥渦m poder de den煤ncia cr铆tica/pol铆tica, estimulados pelo antropoceno.鈥

 

 

Refer锚ncias

Fabiano Lucena de Ara煤jo. Musealizando a Natureza Barata: arte, ru铆na e antropoceno na Mata Sul de Pernambuco.聽Aurora. Revista de Arte, M铆dia e Pol铆tica, v. 15, n. 45, p. 95-116, 2022.

Gilberto Freyre. Nordeste: aspectos da influ锚ncia da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro: Jos茅 Olympio, 1937.

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