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鈥淥 livro e a leitura s茫o o caminho mais curto para aprimorar o aprendizado鈥 – entrevista com Clara Arreguy

Clara Arreguy nasceu em Belo Horizonte (MG), 茅 jornalista e trabalhou por 30 anos em reda莽玫es (Estado de Minas, em BH, e Correio Braziliense, em Bras铆lia), e foi cronista na Veja Bras铆lia durante os dois anos em que a revista circulou. Atuou tamb茅m em assessorias de imprensa, em empresas governamentais e de comunica莽茫o, a maior parte do tempo na 谩rea cultural. Em 2005, publicou seus dois primeiros livros: o romance 鈥淪egunda divis茫o鈥 (Editora Lamparina, RJ) e o texto de mem贸rias 鈥淔afich鈥 (Conceito Comunica莽茫o, MG).

Em 2015, formalizou a Outubro Edi莽玫es, na qual, informalmente, j谩 editava seus livros e de outros autores. Atualmente, passados seis anos da mudan莽a de rota, a editora conta com 73 t铆tulos e Clara, com 27 livros, entre os que sa铆ram pela Outubro e os publicados por outras editoras.

Clara Arreguy faz parte de diversos coletivos que a ajuda cada vez se profissionalizar mais. Entre eles, o Instituto Cultural Casa de Autores, em Bras铆lia, que promove a Flipiri (Festa Liter谩ria de Piren贸polis, no interior de Goi谩s), al茅m de visitas a escolas, feiras e outros eventos liter谩rios. Foi eleita por voto popular para a Academia Internacional de Literatura Brasileira, com sede em Nova York (EUA), participou em 2021 da Feira do Livro de Lisboa e da Feira do Livro de Frankfurt, e tem tr锚s livros traduzidos (鈥淪iga as setas amarelas鈥, para o espanhol; 鈥淎 vov贸 fala tudo errado鈥, para o alem茫o; e 鈥淥 quarto canal鈥, para o ingl锚s). Tamb茅m 茅 militante no Mulherio das Letras, movimento feminista que atua em defesa da presen莽a das mulheres na literatura.

ODC 鈥 A data de 29 de outubro, consagrada ao Dia Nacional do Livro, foi criada em 1810 quando a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para o Brasil transformando-se na Biblioteca Nacional. Mais de 200 anos depois, temos algo a comemorar?

Clara Arreguy – Creio que sim, apesar do quadro aparentemente tenebroso. Porque nunca se escreveu tanto e nunca se leu tanto no Brasil. Ap贸s o abalo radical promovido pela pandemia, as vendas de livros voltaram a crescer. As pessoas confinadas redescobriram os prazeres da leitura. As escolas e os escritores descobriram uma deliciosa maneira de driblar o distanciamento por meio das lives, que nos permitem conversar com quem est谩 distante, at茅 em outros pa铆ses. As pequenas editoras e os autores independentes cavam e consolidam seus espa莽os, ainda que restritos. E um exemplo que vivenciamos de perto: temos uma banca de livros itinerante aqui em Bras铆lia, a Salada de Letras, Hist贸rias Org芒nicas, que comercializa livros de autores independentes e pequenas editoras, como a nossa Outubro Edi莽玫es, em feiras, caf茅s, parques, espa莽os culturais e outros. At茅 julho a Salada totalizou 1.000 livros vendidos em 2021. 脡 trabalho de formiguinha, 茅 corpo a corpo, mas 茅 o livro vivo, o est铆mulo para os escritores.

ODC 鈥 A pesquisa Retratos da Leitura, realizada pelo Instituto Pro-livro com apoio do Ita煤 Cultural, define como leitor(a) quem leu um livro completo ou partes nos 煤ltimos 3 meses, e revela que, entre 2007 e 2019, o n煤mero de leitores e leitoras caiu de 55% da popula莽茫o brasileira para 52%. Al茅m disso, em 2019, a m茅dia foi de 2,5 livros inteiros por ano e 2,4 partes de livros. Como voc锚 avalia essa realidade? 脡 poss铆vel chamar de leitor apenas quem l锚 partes de livros?

Clara Arreguy 鈥 Eu chamo de leitor todo mundo que l锚. L锚-se livro de papel, mas tamb茅m textos compartilhados por WhatsApp. Por que n茫o cham谩-lo de leitor? Quem l锚 HQ, quem l锚 literatura de qualidade duvidosa. Pra mim, s茫o leitores. Claro que nosso trabalho se d谩 no sentido de qualificar esse leitor, convid谩-lo aos deleites da boa literatura, ao desfrute de uma obra por inteiro. Quando promovemos nossos eventos em cidades pequenas ou em escolas, atuamos para qualificar n茫o apenas os alunos, mas sobretudo os professores. Porque 茅 complicado voc锚 querer estimular a leitura nas crian莽as e nos jovens quando nem os professores t锚m qualidade de leitura. Nossos eventos incluem trabalhos com os livros, bate-papos com os autores, oficinas para os professores, enfim, uma gama de atividades que comp玫em projetos de leitura capazes de fazer mais do que simplesmente jogar um livro no colo de uma pessoa.

Voltando 脿 pergunta, de fato 茅 uma realidade triste, terr铆vel, mas condizente com o pa铆s e com a realidade atual que vivemos, em que educa莽茫o, escola, cultura, livro, leitura, professor, nada disso tem valor, e os recursos s茫o cortados intencionalmente, para esvaziar mesmo qualquer possibilidade de pol铆tica p煤blica de incentivo ao setor.

ODC 鈥 Na sua opini茫o, qual a import芒ncia do livro e da leitura para a promo莽茫o e prote莽茫o da diversidade cultural?

Clara Arreguy 鈥 O livro e a leitura s茫o o caminho mais curto para aprimorar o aprendizado. S茫o a mais prazerosa maneira de investir na intelig锚ncia e na imagina莽茫o. Falo isso todos os dias em lives, palestras, encontros com crian莽as, jovens, adultos, pais, professores, leitores. Quem l锚 desenvolve melhor suas capacidades cognitivas, sua capacidade de compreender melhor o mundo em que vive, sua capacidade de dar solu莽茫o para os problemas. Quem l锚 se entende melhor e entende melhor o outro, desenvolvendo uma qualidade t茫o necess谩ria quanto rara na atualidade: a empatia. Colocar-se no lugar do outro, sentir o que o outro sente. Sem isso, n茫o conseguiremos construir um pa铆s e um planeta inclusivos, com espa莽o para as diferen莽as e com respeito por todas as culturas. Digo aos jovens que quem l锚 茅 at茅 melhor na paquera, pois tem assunto, senso de humor, hist贸rias pra contar. E isso dura mais que uma atra莽茫o baseada s贸 em apar锚ncia. 脡 fundamental estimular a produ莽茫o da diversidade cultural, e isso 茅 dar voz 脿s hist贸rias de quem sempre teve sua voz calada, alijada dos espa莽os formais. O livro e a leitura agregam essa sinfonia de diversidade que marca o Brasil e o nosso planeta. Precisamos lutar sempre pra incluir em nossos projetos toda essa riqueza propiciada pela diversidade cultural.

ODC 鈥 Voc锚 茅 escritora e editora, como avalia o mercado brasileiro e as pol铆ticas p煤blicas para o livro e a leitura na atualidade?

Clara Arreguy 鈥 J谩 falei acima das pol铆ticas p煤blicas, ou melhor, da falta delas, pois o atual governo federal s贸 se interessa por desmontar qualquer pol铆tica de cidadania e inclus茫o social, e 茅 claro que seu alvo preferencial 茅 a educa莽茫o, 茅 a cultura. Desfizeram tantas conquistas, esvaziaram algumas institui莽玫es, destru铆ram outras, est茫o tentando a todo custo acabar com pol铆ticas inclusivas. Mas a sociedade reage, nossa principal miss茫o 茅 permanecer vivos e chutando. A gente vai pra rua, vai pra escola, leva livro, faz live, l锚, divulga a si e aos demais. Porque tamb茅m o mercado 茅 uma institui莽茫o do capitalismo que, como todas as institui莽玫es do capitalismo, visa o lucro e n茫o se preocupa nem com qualidade nem com inova莽茫o nem com acesso nem com inclus茫o nem com diversidade. Ao mercado, interessa publicar e vender livros que deem lucro. Se s茫o bons ou n茫o, n茫o interessa. Se s茫o de escritores, de mulheres, de ind铆genas, negros, LGBTQI+, se tratam de temas relevantes ou n茫o, n茫o interessa. Por isso a import芒ncia dos coletivos, das pequenas editoras, dos autores independentes. Porque a gente publica o que o mercado n茫o publica, a gente vende quando o mercado n茫o vende, a gente n茫o quebra e muda de ramo. A gente sobrevive e segue em frente.

ODC 鈥 O que fazer para ampliar o acesso ao livro no Brasil?

Clara Arreguy 鈥 Primeiro que tudo, votar melhor. Votar em candidatos com projetos que contemplem pol铆ticas p煤blicas democr谩ticas e inclusivas para educa莽茫o e cultura, para livro e leitura, para respeito e valoriza莽茫o dos trabalhadores na educa莽茫o, sobretudo os professores, para o fomento 脿 ci锚ncia, 脿 escola, 脿 pesquisa. Isso posto, cada qual tem um papel nesse 鈥渙 que fazer鈥. O nosso, de escritores e editores, 茅 escrever, publicar, divulgar, dar e vender, ensinar, aprender, trocar, falar e ouvir, dar voz, sobreviver ao caos pra ajudar a reconstruir dos escombros o nosso Brasil plural, as nossas cores, as nossas hist贸rias. Como disse o poeta, talvez eu seja uma sonhadora, mas tenho certeza de que n茫o sou a 煤nica.

 

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