A Secretaria Especial da Cultura do Minist茅rio do Turismo publicou no 煤ltimo dia 8 de fevereiro uma nova Instru莽茫o Normativa (IN) da Lei Federal de Incentivo 脿 Cultura (8.313/91). A divulga莽茫o veio acompanhada da j谩 costumeira cr铆tica aos trabalhadores e empresas que atuam na 谩rea art铆stico e cultural no pa铆s. Com o argumento de que as mudan莽as objetivam torn谩-la “mais justa e popular”, a IN聽 apresenta significativa redu莽茫o nos valores m谩ximos gastos com capta莽茫o, cach锚s, alugu茅is e com divulga莽茫o nos projetos incentivados, al茅m de altera莽茫o nas categorias de linguagens art铆sticas e culturais.
O Observat贸rio da Diversidade Cultural procurou dois especialistas na 谩rea da gest茫o cultural no Brasil, para compreender melhor os sentidos das mudan莽as realizadas e os efeitos que as mesmas poder茫o provocar no mercado cultural brasileiro.
O primeiro entrevistado 茅 Carlos Paiva, especialista em Pol铆ticas P煤blicas e Gest茫o Governamental do Estado da Bahia, pesquisador do Observat贸rio de Economia Criativa da Bahia e Mestre em Administra莽茫o P煤blica (HKS) e Cultura e Sociedade (UFBA). Atuou como como Superintendente de Promo莽茫o Cultural da Secult-BA de 2009 a 2014. Em 2013, foi um dos fundadores da Rede Nacional de Gestores de Fomento e Incentivo 脿 Cultura. De 2015 a maio de 2016, atuou como Secret谩rio de Fomento e Incentivo 脿 Cultura do antigo Minist茅rio da Cultura. Foi Conselheiro municipal de cultura de Salvador no bi锚nio 2020-2021.
A segunda entrevista, que ser谩 publicada no pr贸ximo dia 21, 茅 com Mariana Barros, coordenadora de projetos na Associa莽茫o Pr贸-Esporte e Cultura.聽
A entrevista foi realizada pelo Coordenador do ODC, Jos茅 Marcio Barros.
2) Carlos Paiva, a partir de sua larga experi锚ncia como gestor e pesquisador do campo da cultura, gostaria de saber quais pontos voc锚 destacaria na Instru莽茫o Normativa (IN) da Lei Federal de Incentivo 脿 Cultura (8.313/91)? Poderia fazer um coment谩rio geral?
As mudan莽as me parecem ser a soma de tr锚s aspectos: um revanchismo contra o setor cultural, majoritariamente cr铆tico a este governo; uma baixa qualidade t茅cnica dos dirigentes, muitos sem experi锚ncia na 谩rea; e a tentativa de resolu莽茫o de pontos recorrentes oriundos dos 贸rg茫os de controle, que n茫o tem f谩cil resolu莽茫o e qualquer gestor precisaria tentar resolver.聽
Vale ponderar que o incentivo fiscal alcan莽a uma pequena parcela do setor cultural, por茅m, 茅 uma parcela que inclu铆 institui莽玫es e grupos importantes da cultura brasileira, em especial nas grandes cidades da regi茫o Sudeste.
A t么nica, no geral, 茅 de restri莽茫o de possibilidades. Estas restri莽玫es passam por todos os aspectos do incentivo fiscal da Rouanet, desde quem pode apresentar projetos (por exemplo, limitando apenas a CNAEs espec铆ficos de cultura), do que pode constar no projeto (por exemplo, teto com cach锚s), de autonomia durante a gest茫o do projeto (quando pode pedir altera莽玫es e a margem de altera莽玫es sem necessidade de consulta) e de quais projetos empresas podem patrocinar (a exemplo da limita莽茫o de dois anos de patroc铆nio para o mesmo projeto). Todas as restri莽玫es s茫o de certa forma arbitr谩rias, descoladas da realidade cultural do pa铆s e do p煤blico que consegue fazer uso do mecanismo.
H谩 tamb茅m um problema de fundo, de entendimento sobre a voca莽茫o dos diferentes mecanismos de fomento que contamina o debate e se manifesta em muitas das mudan莽as vistas na IN. Democratiza莽茫o do fomento dificilmente acontecer谩 pelo incentivo fiscal. O mecanismo para democratiza莽茫o 茅 o Fundo Nacional de Cultura ou iniciativas como a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo.聽
Nesse sentido, as propostas como n茫o permitir que um incentivador patrocine o mesmo projeto por mais de dois anos provavelmente ter茫o pouca efetividade em ampliar os benefici谩rios. O que faz 茅 impedir a constru莽茫o de casos de sucesso. Conseguir e manter patroc铆nios 茅 muito trabalhoso e pode levar anos. Essa proposta n茫o tem l贸gica nem pelo vi茅s do campo cultural nem pelo do marketing (e o incentivo fiscal da Lei Rouanet 茅, em muitos aspectos, um casamento desses dois campos)
O limite de R$ 3 mil por apresenta莽茫o para cach锚 art铆stico, com algumas exce莽玫es, a exemplo de maestros, parece ser destinado a polemizar com a classe art铆stica, cr铆tica ao atual governo do que algo com embasamento t茅cnico. A regra 茅 completamente descolada da realidade. Ao abrir exce莽玫es ao teto, a IN reconhece que tem profissionais que tradicionalmente s茫o remunerados acima deste valor, mas traz a excepcionalidade apenas para alguns grupos.聽
Por fim, tem problemas que s茫o oriundos do novo decreto e que s茫o espelhados na IN, como o uso de termos ultrapassados (鈥淏elas Artes鈥) e ter a CNIC como inst芒ncia recursiva, restringindo a democratiza莽茫o do processo decis贸rio na gest茫o da Lei Rouanet, algo que se manteve ao longo de muitos governos, de FHC, Lula, Dilma e at茅 mesmo de Temer.
2) Na sua vis茫o, as altera莽玫es realizadas na LFIC possuem algum ponto positivo? Se sim, qual ou quais?
脡 muito dif铆cil falar em aspecto positivo num ato produzido por uma equipe que 茅 abertamente contra os destinat谩rios da pol铆tica p煤bica e com pouco experi锚ncia no campo. Por茅m a institucionalidade pesa, e, imagino, tanto as considera莽玫es da equipe t茅cnica do antigo MinC quanto observa莽玫es que chegam ao governo via TCU, CGU e associa莽玫es de classe tem algum impacto no resultado final.
A manuten莽茫o da an谩lise em duas etapas, mudan莽a que come莽ou quando ainda estava na SEFIC e se tornou efetiva j谩 no governo Temer 茅 positiva, apesar da forma como est谩 sendo implementada ainda ser muito ruim.聽
A divulga莽茫o das a莽玫es de acessibilidade e transpar锚ncia na disponibiliza莽茫o de ingressos gratuitos me parece ser algo positivo, dando consist锚ncia 脿queles projetos que j谩 faziam isso com zelo e afastando os que n茫o faziam isso adequadamente.
3) A LFIC sempre foi objeto de cr铆ticas e de busca de aprimoramento. As altera莽玫es de agora atendem a alguma das cr铆ticas e de propostas de aprimoramento constru铆das anteriormente?
As cr铆ticas mais contundentes 脿 Lei Rouanet se referem 脿 concentra莽茫o em poucos proponentes, altamente concentrados no Rio de Janeiro e S茫o Paulo, a falta de alavancagem de recursos privados para al茅m do incentivo fiscal e a falta de diferencia莽茫o de patamares de incentivos que pudesse diminuir as concentra莽玫es. Nada disso a IN tem capacidade de resolver.聽
Quanto aos poss铆veis aperfei莽oamentos do dia a dia da gest茫o do mecanismo, a IN de 2019 e esta IN rompem com um hist贸rico de constantes melhorias, baseadas no aprendizado da gest茫o e no di谩logo com os profissionais e organiza莽玫es que utilizavam a lei.聽
4) Que os impactos voc锚 prev锚 na economia da cultura no Brasil?
Para a economia da cultura no Brasil como um todo quase que n茫o ter谩 diferen莽a. A maior parte dos recursos que movimentam o setor cultural brasileiro vem do consumo das fam铆lias. Dos investimentos p煤blicos, dois ter莽os s茫o de oriundos dos estados e munic铆pios. Os investimentos federais representam pouco neste contexto geral. Ganham destaque pois est茫o concentrados num 煤nico programa, ao contr谩rio das demais receitas que est茫o difusas.
Por outro lado, este 鈥減ouco鈥 do governo federal atende a importantes institui莽玫es e grupos no pa铆s, de alcance nacional e internacional. Este 茅 o maior impacto, as dificuldades que as mudan莽as causar茫o nestes importantes agentes culturais do Brasil.聽聽
5) Quem ser谩 prejudicado e quem ser谩 beneficiado com as mudan莽as?
N茫o vejo qualquer benefici谩rio com as mudan莽as. A regra de beneficiar projetos in茅ditos 茅 mal escrita, e poucos se adequam ao perfil ali descrito. Alguns analistas apontam que entre os projetos j谩 aprovados para a capta莽茫o seriam entre 60 e 300 projetos (numa m茅dia de aproximadamente tr锚s mil projetos que captam anualmente). Caso ele consiga de fato se concretizar, 茅 uma mudan莽a pequena.
Sobre os prejudicados, as mudan莽as atingem, de diferentes formas, praticamente a todos que acessam a lei. Cito apenas algumas a seguir.
Diversas organiza莽玫es atuam na cultura em articula莽茫o com outras 谩reas. As mudan莽as na nova IN impedem estas organiza莽玫es de acessar o incentivo fiscal, pois agora o proponente devera虂 possuir natureza exclusivamente cultural, comprovada por meio de CNAE.
Sobre a qualifica莽茫o para acessar a lei no formato de plano anual, foi reduzida drasticamente. Equipamentos privados n茫o podem captar mais por essa modalidade. Assim espa莽os como o Teatro Vila Velha, Teatro Oficina, MASP, INHOTIM, para citar alguns que poderiam captar ou que captam, ficam de fora dessa regra.聽
Os proponentes que lutaram anos para conseguir uma empresa parceira e fidelizar o parceiro ver茫o seus esfor莽os irem por 谩gua abaixo, com o limite de renova莽茫o por dois anos.聽
A regra que indica que patrocinadores que realizam patroc铆nios acima de um milh茫o de reais necessitar谩 aportar 10% em projetos de proponentes que n茫o obtiveram patroc铆nio anteriormente precisa de alguns esclarecimentos para interpreta莽茫o adequada. Lembrando que em 2021, 3.528 empresas patrocinaram projetos, aportando R$ 1,96 bilh玫es. Na interpreta莽茫o mais ampla, atinge entre pouco mais de 300 empresas (que aportaram aproximadamente tr锚s quartos dos recursos movimentados na lei). Na intepreta莽茫o mais restritiva, atinge um pouco mais de uma centena de empresas (que aportaram aproximadamente R$ 800 milh玫es).聽
6) Qual o modelo ideal de fomento e financiamento 脿 cultura para o Brasil?
Acredito que um modelo ideal deva ser plural e equilibrado, composto por diversos mecanismos com aportes diretos, investimentos, incentivos fiscais. Nesta pluralidade de mecanismos 茅 importante que haja a garantia de fundos de cultura fortes, com disponibilidade para investimento direto no m铆nimo na mesma propor莽茫o da ren煤ncia fiscal. Os fundos tendem a ser mais vers谩teis e inovadores na sua aplica莽茫o, mas tamb茅m mais vulner谩veis a oscila莽玫es fiscais. Medidas de prote莽茫o a essas oscila莽玫es s茫o fundamentais para a preserva莽茫o dessa modalidade de fomento, mais universal por natureza.
Ap贸s a experi锚ncia da Lei Aldir Blanc, est谩 mais evidente que nunca que n茫o existe possibilidade de pol铆tica de abrang锚ncia nacional que n茫o seja por meio da articula莽茫o federativa. A atua莽茫o concorrente da Uni茫o, estados e munic铆pios no campo da cultura resulta, na maior parte das vezes, em um sombreamento de investimentos pelos tr锚s n铆veis federativos em algumas 谩reas, enquanto outras ficam com pouco ou nenhum investimento, em um modelo de atua莽茫o evidentemente pouco efetivo. A descentraliza莽茫o do investimento mitiga essa situa莽茫o.
Adicionalmente, h谩 din芒micas culturais regionais que s茫o menos evidentes para o governo central ou para comiss玫es de sele莽茫o que analisam propostas de todo o territ贸rio nacional. Sele莽玫es estaduais ou municipais s茫o mais capazes de observar essas din芒micas locais no momento de decis茫o de investimento. Ao dividir a sele莽茫o pelos estados, por exemplo, sem d煤vida a quantidade de projetos por comiss茫o diminui, permitindo que essas an谩lises tenham maior qualidade. Da mesma forma, depois de realizada a sele莽茫o, o acompanhamento dos investimentos tende a ter melhor qualidade pela proximidade territorial entre concedente de recursos com seus benefici谩rios.
脡 importante tamb茅m que os sejam pensados mecanismos que estimulem os agentes culturais a investirem no fortalecimento do relacionamento com os p煤blicos da cultura. Os atuais mecanismos est茫o estruturados de forma que incentivam os projetos a se adequarem 脿s expectativas dos departamentos de marketing ou das comiss玫es de editais. Isto deixa o p煤blico e as comunidades onde as atividades s茫o realizadas descoladas do processo decis贸rio, impactando negativamente na forma como s茫o pensados os projetos. Pensar mecanismos que estimulem essa reaproxima莽茫o com o p煤blico permitiria o fortalecimento do campo cultural, j谩 que refor莽a aquilo que s贸 o campo pode fazer: enriquecer simbolicamente as comunidades onde os projetos culturais acontecem.聽
Por fim, acredito que a experi锚ncia do ICMS Cultural de Minas Gerais seja replicada em outros estados. Esta talvez seja uma das mais bem sucedidas medidas de est铆mulo ao financiamento p煤blico da cultura e uma das menos discutidas pelo campo.
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