Rui Moreira 茅 artista da dan莽a e ativista pelo direito de frui莽茫o e amplitude social das artes. Esteve curador e diretor art铆stico por cinco edi莽玫es do FAN – Festival Internacional de Arte Negra de Belo Horizonte e dos encontros da Rede Terreiro Contempor芒neo de Dan莽as atrav茅s da Associa莽茫o Ser谩 Qu锚 Cultural. Como artista convidado ministrou o m贸dulo Corporeidades Negras na Funda莽茫o Educacional de Maca茅 (RJ) e Performance e ritual na PUC Minas Gerais.
ODC –聽O racismo parece se reinventar continuamente, na sua vis茫o, como super谩-lo de forma mais definitiva?
Rui Moreira – O racismo 茅 insuper谩vel se olharmos pela visada de que os retrocessos percebidos frente a conquistas humanit谩rias importantes s茫o facilmente instaurados, j谩 os avan莽os s茫o subjugados por mecanismos de prote莽茫o confirmados por princ铆pios hegem么nicos de exclus茫o social. A necessidade de colonizar, capturar e matar tudo o que difere da percep莽茫o determinada por vis玫es de mundo predominantes, continua sendo exerc铆cio da maioria, independendo, por vezes, das cru茅is divis玫es da sociedade.
O Brasil, que comprovadamente 茅 um imenso territ贸rio diasp贸rico de diversificadas culturas, mas especialmente das africanas subsaarianas, nutre muito intensamente o culto de um orgulho soberbo de descender de colonizadores que promoveram terr铆veis genoc铆dios contra os povos origin谩rios locais, popula莽茫o negra africana e seus descendentes. Isto 茅 t茫o fortemente interiorizado que contamina at茅 mesmo quem se declara n茫o racista ou se diz antirracismo. 脡 necess谩rio estar atento para com o que pensamos e sobretudo para as formas como agimos, levando em considera莽茫o que somos respons谩veis pelo ambiente que vivemos e ou, que ajudamos a construir. Questionamos por vezes o direito de ir e vir do ser humano e dividimos os territ贸rios entre centros e periferias, alimentando s茅rias manifesta莽玫es de preconceitos sociais. Importante perceber estes procedimentos, que somados a ondas xenof贸bicas contribuem para a prolifera莽茫o de um 鈥渞acismo ing锚nuo鈥 ou 鈥渧elado鈥. Estas caracter铆sticas das na莽玫es do globo precisam ser abordadas neste momento em que as revis玫es se fazem necess谩rias. Quando falamos de combate ao racismo, ao fascismo ou ao segregacionismo, est谩 impl铆cito um c芒mbio de percep莽茫o de mundo que altere procedimentos a partir de uma atualiza莽茫o dos par芒metros de consci锚ncia planet谩ria.
ODC – Como voc锚 v锚 a import芒ncia da arte na constru莽茫o de uma consci锚ncia negra e no enfrentamento do racismo?
Rui Moreira – 鈥淣ada menos que respeito, n茫o me venha sufocar. Quantas dores quantas vidas, n贸s teremos que pagar? Cada corpo um orix谩, cada pele um atabaque. Arte negra em contra-ataque.鈥 Esta 茅 uma estrofe do samba enredo – Empretecer o pensamento 茅 ouvir a voz da Beija Flor – composto para a escola de samba Beija Flor, de Nil贸polis 鈥 Rio de Janeiro. O carnaval carioca 茅 uma potente manifesta莽茫o de arte popular. Filosoficamente, a arte para S茫o Tom谩s de Aquino 茅 o reto ordenamento da raz茫o, j谩 para artistas como Pablo Picasso 茅 a mentira que nos ajuda a ver a verdade.
V谩rias e distintas s茫o as formas de express茫o da arte, assim como s茫o diversas suas formas de exerc铆cio. Penso que todas as propor莽玫es da arte se originam do desejo ou da necessidade inerente do ser humano comunicar suas interpreta莽玫es de mundo. Portanto, as express玫es art铆sticas exp玫em as fragilidades e pot锚ncias da humanidade, se valendo do belo, mas igualmente do grotesco, provoca reflex茫o e olhar cr铆tico que confronta os valores prevalentes de culturas dominantes. Penso que a铆 a arte contribui para a constru莽茫o de uma consci锚ncia negra e no enfrentamento do racismo. Pois sua pr谩xis permite que se possa assumir a si pr贸prio e sua vis茫o de mundo, assim como considerar e aceitar que a vis茫o do outro seguramente ser谩 diferente. Todos como protagonistas dos diversos contextos da ra莽a humana.
ODC 鈥 A pol铆tica de cotas raciais na educa莽茫o 茅 uma medida positiva para o enfrentamento da discrimina莽茫o racial? Se sim, vc acha que deveria ser implementada na 谩rea art铆stica e cultural?
Rui Moreira – Como a莽茫o afirmativa que reconhece como desigual a presen莽a negra nos ambientes de forma莽茫o educacional superior acad锚mica, considero bem positivo sua exist锚ncia. As cotas passaram a ser uma reivindica莽茫o pol铆tica em editais e concursos p煤blicos, se constituindo assim como marco da primeira vez que a opini茫o p煤blica nacional se sensibiliza tanto para o problema do racismo antinegro assim como discute suas poss铆veis solu莽玫es.
A produ莽茫o da 谩rea art铆stica e cultural no Brasil vive imersa em valores predominantes e colonizadores e acha normalizada a aus锚ncia de negros ou ind铆genas em suas realiza莽玫es, o que, dentre outras mazelas, provoca uma escassez de m茫o de obra preparada para participar desta cadeia produtiva de forma profissionalizada. Portanto como forma de atentar para essa gritante realidade, uma possibilidade de a莽茫o 茅 a implementa莽茫o de cotas inclusivas para as produ莽玫es art铆stico cultural. As cotas podem significar caminhos de acesso para a compreens茫o da diversidade e pluralidade dos contextos hist贸ricos e sociais brasileiros que s茫o invisibilizados ou desconsiderados.
ODC 鈥 Dia 20, Dia da Consci锚ncia Negra, 茅 um dia de festejos ou de protestos? Por qu锚?
Rui Moreira – Os artistas Ricardo Aleixo e Mauricio Tizumba professaram uma m谩xima no refr茫o da can莽茫o Gregos e Africanos que eu cito para dar minha resposta: Tudo depende do ponto de vista, ou depende da extens茫o da pista.
A data destacada como dia da Consci锚ncia Negra, 茅 resultado de potentes mobiliza莽玫es por pol铆ticas afirmativas contra o racismo. H谩 exatos 50 anos (1971) o pioneiro Grupo Palmares de Porto Alegre fez um ato evocativo 脿 resist锚ncia negra na noite do dia 20 de novembro no Clube Social Negro 鈥淢arc铆lio Dias鈥 situado na capital ga煤cha. O evento valorizava o her贸i negro Zumbi, l铆der do estado negro Quilombo dos Palmares. Era um contraponto ao 13 de maio de 1888, dia no qual a Princesa Isabel assinou a Lei 脕urea, que abolia a escravid茫o, mas n茫o garantia direitos humanos a popula莽茫o negra brasileira.
Desde ent茫o, o Grupo foi seguido por outros que aderiram a data. Em 1978, conhecendo as celebra莽玫es oriundas de Porto Alegre, o Movimento Negro Unificado (MNU) de S茫o Paulo, passou a fazer grandes manifesta莽玫es em alus茫o ao l铆der Zumbi. Como o MNU mantinha ramifica莽玫es em v谩rias cidades, outros estados somaram-se as evoca莽玫es ao Quilombo dos Palmares, culminando com a Marcha Zumbi 鈥 300 anos, em 1995. Em 2003, o 20 de novembro entrou para o calend谩rio escolar como Dia Nacional da Consci锚ncia Negra, atrav茅s da Lei 10.639. A lei inclui a hist贸ria da 脕frica negra e das culturas afro-brasileiras no ensino oficial do pa铆s, bem como fomenta feriados municipais e estaduais em torno da data. Em 2006, a Secretaria Especial de Pol铆ticas de Promo莽茫o da Igualdade Racial (SEPPIR), vinculada 脿 Presid锚ncia da Rep煤blica Federativa do Brasil, publicou a revista comemorativa aos 35 anos da primeira celebra莽茫o de 1971. Muitos outros fatos hist贸ricos marcam esta rede do tempo me levando a ponderar que: interpretar como festejo ou protesto esta data, depende de muitos fatores.
CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O – Boletim 103, n潞 01/2025 Os 20 anos da Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais Per铆odo para submiss茫o: 21 de maio a 08 de setembro de 2025 Este ano a Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais promulgada pelos pa铆ses membros da […]
O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]