Imagem capa: Freepik
REPRODU脟脙O: BRASIL DE FATO聽
Viviane Sarmento*
Brasil de Fato | Recife (PE)
Muitos paralelos existem entre os significados sociais atribu铆dos aos corpos femininos e os corpos com defici锚ncia. Tanto o corpo feminino quanto o das pessoas com defici锚ncia s茫o considerados historicamente desviantes e inferiores; ambos s茫o definidos a partir de uma l贸gica social, cultural e econ么mica e, por isso, categorizados a partir de uma norma.
Entretanto, a discursiva equa莽茫o que desvincula o feminino da defici锚ncia nunca deixou de ser comum. Tais nexos est茫o alicer莽ados na ideia socialmente naturalizada da defici锚ncia como um corpo biol贸gico disfuncional e socialmente invalidado. Essa constru莽茫o tem consequ锚ncias graves e di谩rias, impl铆citas e expl铆citas.
Um exemplo s茫o as perguntas constantes sobre a sexualidade da mulher com defici锚ncia: ela transa, sente prazer, fica gr谩vida, algu茅m pode am谩-la, 茅 l茅sbica? Ou ainda, as d煤vidas onipresentes sobre a possibilidade de uma vida com defici锚ncia gerar ou cuidar de outrem, as quais respaldadas no argumento eug锚nico de um trabalho de tratamento bio茅tico social, esterilizam essas mulheres.
Esses exemplos ilustram o fato de que tudo que se refere 脿 essencializa莽茫o do feminino, mas se choca com a realidade de mulheres com defici锚ncia, coaduna-se proporcionalmente com um julgamento de 鈥渋mpossibilidade social de exist锚ncia”. Isto porque rompe com o ide谩rio de corpo e indica a representa莽茫o do oposto ao empregado pelo autogoverno, autodetermina莽茫o, autonomia e progresso fundantes na ideologia neoliberal.
Assim, a incompreens茫o sobre a tem谩tica e, de certo, o refor莽o da ideia de infantiliza莽茫o, inutilidade e oposi莽茫o ao livre-arb铆trio, desviam aten莽茫o do fato de que muitas mulheres adquirem uma les茫o ou impedimento por terem vivenciado viol锚ncia de g锚nero e passam a ser mulheres com defici锚ncia, ou se tornam m茫es e cuidadoras de filhos ou filhas com defici锚ncia.
O que me leva a escrever a 贸bvia conclus茫o de que apesar da defici锚ncia ser uma estranha no meio, substancialmente 茅 amiga pr贸xima e ignorada das den煤ncias do patriarcado. No m锚s de agosto, aclamam a conquista da lei Maria da Penha, usam a sua imagem, mas apagam, literalmente, a sua cadeira de rodas da comemora莽茫o. Obviamente isso n茫o 茅 uma falta de aten莽茫o, mas um grave marcador social repleto de contradi莽玫es que s茫o determinantes – mesmo aos grupos que lutam contra o patriarcado 鈥 e subvertem esta condi莽茫o 脿 贸tica da rejei莽茫o, uma esp茅cie de 鈥渟oco no est么mago鈥 que vira doen莽a social, sin么nimo de isolamento.
N茫o h谩 espa莽os e acomoda莽玫es nas discuss玫es sobre e, principalmente, com o que representam os corpos das mulheres com defici锚ncia ou que a vivenciam de outra maneira, atrav茅s dos seus filhos ou filhas. O resultado disso, no final das contas, s茫o essas mulheres sofrendo viol锚ncia de g锚nero e conjugando suas vidas com descasos, mortes, despojo, encabe莽ando a lista dos maus-tratos e estupros, justificados arbitrariamente pela ideia vulgar e egoc锚ntrica de caridade.
O ideal seria que os corpos de mulheres com defici锚ncia fossem acolhidos nas lutas anticapitalistas como um 铆cone de afronta 脿 pr贸pria norma, quase como um sin么nimo de subvers茫o e recusa 脿 l贸gica neoliberal. Mas ao que me parece, a ret贸rica da autossufici锚ncia s贸 leva a compreens茫o dessas vidas a partir da 贸tica da trag茅dia pessoal que precisa ser apagada, escondida, recortada, porque afinal de contas, 鈥渘茫o sei lidar鈥, ou 鈥渘茫o conhe莽o ningu茅m assim鈥.
Proeminente ativista pelos direitos das pessoas com defici锚ncia, Judy Heumann, com raiva externalizou em palavras pontiagudas ao comparecer em uma reuni茫o de mulheres militantes: “Ent茫o, eu entro em uma sala cheia de feministas e tudo o que veem 茅 uma cadeira de rodas?鈥.
Mais do que uma cr铆tica, esse texto se trata do apontamento de uma necessidade: precisamos trazer para a centralidade das discuss玫es feministas a defici锚ncia como pauta porque antes de mais nada ela se funde nas injusti莽as sociais e 茅 atrav茅s de mulheres subversivas como Rosa Luxemburgo, Frida,聽Maria da Penha聽(todas com defici锚ncia) que estabelecemos a pr贸pria desordem.
A exist锚ncia destas 茅 a pr贸pria amea莽a constante 脿 norma, uma recusa da l贸gica subordinada de ideal. Violar a norma 茅 ser anticapacitista.
*Viviane聽Sarmento 茅 doutora em Educa莽茫o pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL),聽Professora Adjunta da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE),聽pesquisadora sobre os significados sociais da defici锚ncia e聽militante pelos Direitos da pessoa com defici锚ncia e pela Marcha Mundial Mulheres (MMM).
**Este 茅 um artigo de opini茫o. A vis茫o do autor n茫o necessariamente expressa a linha editorial do聽Brasil de Fato.
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