NOT脥CIAS

A negritude e o universal africano

Os m煤ltiplos significados do conceito de 鈥渘egritude鈥 vistos pelas lentes de tr锚s grandes escritores: L茅opold S茅dar Senghor, Aim茅 C茅saire e Wole Soyinka

O termo 鈥渘egritude鈥 se popularizou de tal forma no vocabul谩rio brasileiro que acabamos esquecendo que, em seu sentido original, ele ocupa uma posi莽茫o central em um importante debate filos贸fico e ideol贸gico do s茅culo XX. O fato 茅 que a palavra 茅 daquelas cujo significado 茅 dedut铆vel a partir de sua pr贸pria sonoridade: a condi莽茫o de ser negro ou o sentimento de perten莽a a esse grupo.

Esse significado n茫o 茅 nem equivocado nem impreciso, mas se encontra na superf铆cie do debate a partir do qual se originou 鈥 debate que envolveu, ao longo do s茅culo XX, diversos intelectuais da 脕frica subsaariana e da Am茅rica, tendo dois contendores proeminentes nas figuras dos poetas senegal锚s L茅opold S茅dar Senghor e nigeriano Wole Soyinka, primeiro africano a receber o Pr锚mio Nobel de Literatura e que este ano vir谩 ao Brasil para uma participa莽茫o na Feira do Livro em Porto Alegre. O voc谩bulo surge pela primeira vez no poema narrativo de Aim茅 C茅saire Cahier d鈥檜n Retour au Pays Natal; Senghor veio a dar-lhe seu tutano filos贸fico: haveria, segundo o poeta senegal锚s, uma natureza pr贸pria ao negro-africano, quer em sua individualidade quer em sua comunidade, algo que o diferenciaria dos membros de outras coletividades humanas. Essa natureza se caracterizaria por um modo de perceber o mundo em que sujeito e objeto n茫o se distinguem, um estado de fus茫o com a natureza em que a s铆ntese se sobrep玫e 脿 an谩lise e a raz茫o intuitiva se sobrep玫e 脿 discursiva, resultando em uma atitude de grande intensidade emocional, algo que Senghor resumiria em seu famoso dito 鈥淎 emo莽茫o 茅 negra, como a raz茫o 茅 hel锚nica鈥.
A essa natureza diferenciada se deveria a conforma莽茫o e os atributos das sociedades, das institui莽玫es e das artes dos povos negro-africanos. A sociedade africana seria formada por c铆rculos conc锚ntricos, tendo em seu n煤cleo a organiza莽茫o familiar; a partir dela se deduzem as linhagens, os cl茫s, os reinos. A mesma organicidade que se v锚 na sociedade funda as artes e as rela莽玫es entre elas, cuja natureza sincr茅tica impede sua diferencia莽茫o completa. A palavra da poesia 茅 cantada e se articula aos movimentos da dan莽a, 茅 projetada sobre a madeira, o barro ou o metal e se torna escultura. Todas as artes teriam como base o ritmo 鈥 talvez o 煤nico aspecto, admite Senghor, em que a contribui莽茫o e a profici锚ncia africanas n茫o tenham sido contestadas. O ritmo, nesse contexto, extrapola em muito o 芒mbito do som e da m煤sica, sendo, segundo o poeta, o princ铆pio arquitet么nico do ser. As esculturas africanas, mais expressionistas que naturalistas, diferenciam-se das europeias por representarem ideias a partir de rela莽玫es r铆tmicas entre formas geom茅tricas; os conceitos que elas ilustram adquirem tanta concretude quanto os materiais de que s茫o feitas. Ali谩s, a concretude 茅 outra caracter铆stica, nos diz Senghor, que marca o esp铆rito negro-africano na sua fus茫o entre sujeito e objeto: assim como se v锚 a prefer锚ncia pelas formas s贸lidas da escultura sobre a pintura, nas l铆nguas africanas as palavras concretas dominam, o que fez Senghor enfatizar a import芒ncia do aprendizado do franc锚s 鈥 idioma que amava tanto quanto sua l铆ngua natal, o serer 鈥 para os africanos: as palavras abstratas do franc锚s, bem como sua sintaxe subordinativa, enriqueceriam em muito o pr贸prio fazer liter谩rio em 脕frica.
A eleg芒ncia e poeticidade da escrita de Senghor n茫o salvariam, 茅 claro, suas ideias de cr铆ticas ferozes. Muitos o acusaram de construir uma identidade africana que est谩 em pleno acordo com os estere贸tipos racistas mais t铆picos 鈥 privil茅gio da emo莽茫o sobre a raz茫o, pouca inclina莽茫o ao pensamento abstrato e anal铆tico, predomin芒ncia de mitos, imagens e ritmos em detrimento de conceitos. De fato, a imagem que Senghor apresenta do africano recende a muito das ideias antropol贸gicas que colocaram a figura do negro de alguma forma separada da humanidade geral, ocupando um nicho 脿 parte. Essa problem谩tica se torna mais n铆tida quando percebemos a fixidez que Senghor atribu铆a a essa identidade negro-africana: fica evidente em seus escritos que, para ele, tal identidade deitaria ra铆zes na pr贸pria constitui莽茫o biol贸gica do negro.
Foram particularmente frequentes e contundentes as cr铆ticas e contesta莽玫es vindas do mundo liter谩rio africano de l铆ngua inglesa, o que levou Senghor a acusar seus pares angl贸fonos de reencenar em solo africano a tradicional disputa entre ingleses e franceses. Wole Soyinka, em particular, se notabilizou j谩 no in铆cio de sua carreira como o opositor da Negritude por excel锚ncia, especialmente com sua c茅lebre boutade: 鈥淯m tigre n茫o sai por a铆 proclamando sua tigritude. Ele apenas ataca!鈥, ao que respondeu o poeta senegal锚s: 鈥淥 tigre n茫o fala de sua tigritude porque 茅 um animal. Mas o homem fala de sua humanidade porque 茅 homem e pensa.鈥 Mas n茫o foi s贸 em um trocadilho divertido que tomaram forma as cr铆ticas de Soyinka 脿 Negritude: ensaios foram dedicados a isso e mesmo suas obras dram谩ticas e po茅ticas 鈥 particularmente as de sua juventude 鈥 buscaram se desviar da moldura romantizada que os poetas da Negritude emprestavam 脿 脕frica e suas tradi莽玫es. Se, para os negritudinistas, a 脕frica era a bela, exuberante e eterna m茫e ancestral; para Soyinka, com o respeito e admira莽茫o que tinha o poeta nigeriano pelas tradi莽玫es de sua terra, tratava-se de um continente que, antes ou depois do contato com os europeus, em seu etos tradicional ou moderno, n茫o estava livre das corrup莽玫es morais, dos abusos de poder e degrada莽玫es que afligem qualquer sociedade humana. Soyinka elaboraria sua pr贸pria no莽茫o de um mundo africano, definida por uma identidade cultural comum em vez de uma personalidade fixa enraizada na biologia.
No entanto, 茅 necess谩rio evidenciar que, paradoxalmente, ao fixar os caracteres de uma identidade negro-africana, Senghor almejava n茫o um separatismo cultural e racial, mas o contr谩rio: um aprofundamento do universalismo que, segundo ele, seria a marca do s茅culo XX. A inser莽茫o da 脕frica e sua cultura na 鈥渃iviliza莽茫o do universal鈥, para usar suas palavras, seria poss铆vel exatamente por meio das caracter铆sticas que a diferenciam das outras civiliza莽玫es e n茫o por meio de um achatamento cultural que a tornaria uma entre tantas.
Fonte: Geled茅s
Imagem: O pr锚mio Nobel de Literatura nigeriano Wole Soyinka: um opositor da agenda da 鈥渘egritude鈥.

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