
Decis茫o da Universidade Federal do Amazonas 茅 um marco no sistema do ensino superior para os 铆ndios do Brasil. (Foto: Alberto C茅sar Ara煤jo/AmReal)
Os ind铆genas Dagoberto Azevedo, 37 anos, e Gabriel Maia, 45 anos, falam l铆ngua Tukano, origin谩ria dos territ贸rios margeados pelos rios Uaup茅s, Tiqui茅 e Papuri, afluentes do Alto Rio Negro, munic铆pio de S茫o Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Estado do Amazonas, na fronteira com a Col么mbia. 脡 nesta l铆ngua, e n茫o no portugu锚s, que eles v茫o escrever suas disserta莽玫es de mestrado do Programa de P贸s-Gradua莽茫o em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), uma iniciativa considerada um marco no sistema educacional do ensino superior do pa铆s.
鈥淓stamos fazendo algo novo. N茫o queremos ser apenas informantes (de outros pesquisadores). Tamb茅m queremos escrever, mas na nossa l铆ngua鈥, diz Dagoberto Azevedo 脿 Amaz么nia Real.
A facilidade de se expressar em sua pr贸pria l铆ngua nativa e a necessidade de corrigir distor莽玫es de conceitos e palavras s茫o algumas das raz玫es que levaram os dois estudantes de mestrado a optarem em escrever suas disserta莽玫es em Tukano.
鈥淢uitas palavras possuem conceitos distorcidos em pesquisas j谩 feitas. Foram interpretadas no equ铆voco鈥, diz Gabriel Maia.
Ele cita como exemplo Miri茫pora, uma palavra Tukano que se refere aos instrumentos musicais sagrados usados em festas tradicionais, como o Dabucuri, e em rituais de inicia莽茫o. No imagin谩rio ocidental, a mesma palavra foi chamada de 鈥渏urupari鈥, que n茫o existe na l铆ngua Tukano. Ela 茅 origin谩ria do Nheengatu, uma l铆ngua geral criada por mission谩rios a partir de termos tupi-guarani. Na tradu莽茫o elaborada pelos mission谩rios, 鈥渏urupari鈥 seria o mesmo que 鈥渄em么nio鈥, o ente b铆blico maligno. 鈥淥u seja, essa palavra e outras est茫o sendo explicadas melhor no texto da minha disserta莽茫o鈥, diz Maia.
Dagoberto Azevedo (cujo nome em Tukano 茅 Suegu, pessoa que canta e dan莽a nas festas e rituais) nasceu na comunidade Pirarara, no rio Tiqui茅. Fez todo seu ensino fundamental e m茅dio na comunidade. Graduou-se em em Filosofia.
Nascido na comunidade Pato Cachoeira, no rio Papuri, Distrito de Iauaret锚, Gabriel Maia tem o nome ind铆gena de Ak蕢to Ye鈥檖a-mahs蕢 (sem uma tradu莽茫o literal). Ele estudou em escolas das comunidades ind铆genas do Alto Rio Negro. Foi soldado do Ex茅rcito e seminarista salesiano. Tamb茅m estudou Pedagogia Intercultural no ensino superior. Ingressou no mestrado em 2014.
No 煤ltimo dia 16 de fevereiro, a pr贸-reitoria de p贸s-gradua莽茫o da Ufam deu parecer favor谩vel ao of铆cio de Dagoberto Azevedo e Gabriel Maia para que eles possam escrever suas disserta莽玫es integralmente na l铆ngua Tukano. Seus respectivos orientadores, Carlos Machado Dias e Gilton Mendes, j谩 haviam concordado. No 煤ltimo dia 23, o colegiado do PPGAS aprovou o pedido.
鈥淎 l铆ngua Tukano 茅 mais livre, mais libert谩ria e mais coerente para eles poderem expressar suas ideias. Eles deixam uma l铆ngua estrangeira e passam a escrever na sua l铆ngua鈥, afirmou Gilton Mendes, professor de mestrado em Antropologia Social e orientador de Maia, em entrevista 脿 Amaz么nia Real.
O of铆cio foi encaminhado ao pr贸-reitor de Pesquisa e P贸s-Gradua莽茫o, Gilson Monteiro, no dia 09 de dezembro de 2015. Entre as considera莽玫es, Dagoberto Azevedo e Gabriel Maia afirmam que possuem como primeira l铆ngua o Tukano e se expressam melhor, por meio dela, ideias e argumentos, tanto na forma falada como escrita. Eles dizem no of铆cio:
鈥淰imos solicitar dessa pr贸-reitoria a garantia dos nossos direitos, como membros de uma sociedade ind铆gena, de elaborar nossas disserta莽玫es acad锚micas, para conclus茫o do Mestrado, na l铆ngua materna 鈥 e, se for de interesse do Programa ou da Universidade, que seja feita a tradu莽茫o dessa produ莽茫o acad锚mica para a l铆ngua Portuguesa. Uma vez que n茫o somos apenas indiv铆duos, mas pessoas coletivas que ocupam um lugar na estrutura social do sistema de descend锚ncia Tukano, tal iniciativa garante tamb茅m a nossos grupos 茅tnicos o direito de ler essa produ莽茫o sobre nosso conhecimento em sua pr贸pria l铆ngua鈥.
A aprova莽茫o do uso da l铆ngua nativa na P贸s-Gradua莽茫o em Antropologia Social da Ufam ocorre quase dois meses depois que a presidente Dilma Rousseff vetou o Projeto de Lei de autoria do senador Cristovam Buarque (ent茫o no PDT-DF, agora no PPS) que permitiria que l铆nguas ind铆genas fossem usadas nos ensinos m茅dio, profissionalizante e superior, e n茫o apenas no ensino fundamental. O projeto havia sido aprovado no Senado no final de 2015, mas a presidente vetou no dia 29 de dezembro (leia mais aqui).
Antes do parecer favor谩vel, os dois j谩 vinham escrevendo o esbo莽o do que vir谩 a ser suas futuras disserta莽玫es em portugu锚s. Com a aprova莽茫o no Colegiado do PPGAS, o portugu锚s ser谩 uma l铆ngua coadjuvante.
Dagoberto Azevedo e Gabriel Maia v茫o prestar a qualifica莽茫o (etapa que antecede a defesa) em mar莽o. Os textos ser茫o apresentados na l铆ngua Tukano em portugu锚s.
Por que escrever em sua pr贸pria l铆ngua? Para Dagoberto e Gabriel, os verdadeiros detentores do conhecimento ind铆gena (conhecidos como kumu茫), al茅m de outros parentes, precisam e t锚m direito de saber o que eles v茫o pesquisar e escrever. Eles tamb茅m querem que as disserta莽玫es sejam adotadas nas escolas ind铆genas.
Mestrandos identificaram erros de tradu莽茫o
H谩 tamb茅m outro fator motivador: os erros identificados nos conceitos ao longo de pesquisas j谩 produzidas na regi茫o do Alto Rio Negro. Outro argumento tamb茅m forte 茅 simples: se h谩 disserta莽玫es e teses escritas em ingl锚s em universidades brasileiras, por que n茫o uma l铆ngua nativa?
Eles dizem que, como n茫o sabiam falar portugu锚s, durante d茅cadas, muitos conhecedores a etnia Tukano, sobretudo os mais velhos, desconheciam o que outros pesquisadores escreviam sobre sua cosmologia, sua cultura, seu cotidiano, suas narrativas m铆ticas. Muito menos sabiam se o que estava sendo escrito era correto ou se se aproximava do que realmente eles falavam.
Por isso que o problema dos erros de tradu莽茫o (conceitos, palavras) tamb茅m fundamentou a inten莽茫o dos dois mestrandos em escrever na l铆ngua Tukano. 鈥淨uem pode mudar os conceitos ind铆genas s贸 pode ser n贸s mesmo. Esse foi um dos fatores desse pedido鈥, diz Gabriel Maia.
鈥淭em alguns conceitos que s茫o imposs铆veis de traduzir. Os nossos tradutores anteriores fizeram um pouco equivocado, os antrop贸logos n茫o ind铆genas ou outros pesquisadores que passaram anteriormente. 脌s vezes, n茫o chega (as pesquisas) a ser conforme a gente pensa, nossos conhecimentos mais tradicionais cl谩ssicos鈥, observa Dagoberto Azevedo.
Atuando como 鈥渢radutores鈥 do conhecimento ind铆gena com olhar de dentro (desconstruindo a pr谩tica 鈥渄e olhar para o outro鈥 que sempre marcou os ditames da antropologia e da etnografia), os dois mestrandos afirmam que podem contribuir criando, organizando e sistematizando conceitos do povo Tukano.
Gabriel e Dagoberto entraram no mestrado por meio de vagas complementares (cotas) criadas pelo pr贸prio programa de p贸s-gradua莽茫o em Antropologia Social. Mas eles queriam ir al茅m de uma pol铆tica de inclus茫o social e afirmativa. Queriam di谩logo, troca de conhecimento entre o saber tradicional e o saber ocidental, cient铆fico, acad锚mico.
鈥淐onclu铆mos: essa 茅 uma oportunidade para escrever nossos conhecimentos, ou conceituar, ou categorizar nossos pensamentos. E se 茅 mais f谩cil nos expressar na nossa l铆ngua, vamos escrever na nossa l铆ngua鈥, diz Azevedo.
Di谩logo e troca de conhecimento
No PPGAS, Gabriel Maia e Dagoberto Azevedo entraram para o N煤cleo de Estudos da Amaz么nia Ind铆gena (NEAI), espa莽o que 鈥渁briu di谩logo entre os acad锚micos ind铆genas e demais interessados鈥, segundo suas palavras. 鈥淚sso nos auxiliou para tecer um novo par芒metro, sobretudo o trip茅 conceitual tukano鈥, diz Maia.
Ele se refere aos seguintes conceitos: Uk农se (conjunto de narrativas m铆ticas que versam sobre os enredos sociais vivenciados pelos demiurgos respons谩veis pela origem do mundo, dos seres e das coisas), Bahsesse (quando o Uk农se 茅 utilizado pelos especialistas para comunica莽茫o e intera莽茫o com o Wai-Mahs茫, os chamados 鈥榚sp铆ritos鈥, e habilidades de evocar elementos curativos encontrados nos diferentes tipos de vegetais e animais) e Bahsamori (quando o Uk农se 茅 acessado para composi莽茫o musical durante as festas, que envolve os cantos, dan莽as e instrumentos musicais). Esse tr锚s conceitos formam o Kahtirok茫se nise, que em portugu锚s pode traduzido como 鈥淐onhecimento Tukano鈥, uma teoria que est谩 sendo formulada por um grupo de estudantes de mestrado e doutorado ind铆genas do Alto Rio Negro, incluindo Dagoberto e Gabriel.
鈥淓sse di谩logo 茅 fundamental. E temos nossos professores e orientadores empenhados nessa quest茫o dos conhecimentos ind铆genas. Isso facilita a redescobrir e motivar como os conhecimentos ind铆genas s茫o pertinentes no vi茅s antropol贸gico. O meu orientador 茅 o professor Gilton Mendes. Ele est谩 na vanguarda dos torcedores para que d锚 tudo certo, tanto agora e depois. Foi ele que motivou para acontecer esta solicita莽茫o (na pr贸-reitoria), junto com o professor Carlos Dias鈥, diz Gabriel Maia.
A influ锚ncia ocidental na escrita
Ao entrar no mestrado em 2013, Dagoberto Azevedo estava com a 鈥渃abe莽a ocidentalizada鈥, como ele pr贸prio diz. Antes de entrar, conversou bastante com outros ind铆genas que j谩 haviam passado pelo programa de p贸s-gradua莽茫o em Antropologia.
鈥淨uando cheguei no mestrado e depois no NEAI comecei a discutir nossos pr贸prios conhecimentos. Mas eu s贸 queria saber de conhecimento e conte煤do j谩 feitos pelo n茫o ind铆gena, isso estava enraizado na minha cabe莽a. Com o tempo, com nossas discuss玫es e nossas reflex玫es, conversando dialogando com meus orientadores, eu fui mudando a maneira de ser. Tive um novo olhar, novas lentes, novos rumos. Com ferramentas que consegui, fiquei fortalecido para olhar e trabalhar nossos pr贸prios conhecimentos鈥, afirma ele, que j谩 marcou a data da qualifica莽茫o com seu orientador, Carlos Dias.
Epistemologia e pensamento cultural
Os ind铆genas tamb茅m querem transformar vertentes antropol贸gicas e filos贸ficas consolidadas e mostrar que existe uma epistemologia ind铆gena. 脡 o que defende o doutorando Jo茫o Paulo Barreto, tamb茅m do povo Tukano. Para ele, n茫o basta que a institui莽茫o de ensino superior adote uma pol铆tica de inclus茫o social que contemple a diversidade. 脡 preciso que a academia aprenda a aceitar o conhecimento dos povos ind铆genas. Jo茫o Paulo Barreto fez sua gradua莽茫o em Filosofia e mestrado no PPGAS da Ufam. Ele tamb茅m 茅 orientando de Gilton Mendes e 茅 um dos principais incentivadores de seus colegas para que eles escrevam em Tukano. Sua disserta莽茫o foi em portugu锚s.
鈥淭emos nosso pr贸prio modo de ver e de nos relacionarmos com o mundo. Temos nossa pr贸pria epistemologia, nossa cosmologia e modo de conviver com a natureza. A pol铆tica afirmativa 茅 apenas inclus茫o social. N贸s ind铆genas n茫o pensamos apenas com inclus茫o social, mas como uma forma de dialogar o conhecimento. Por mais que estejamos lan莽ando m茫o do sistema vigente, podemos problematizar as coisas a partir da nossa compreens茫o do mundo, do pensamento ind铆gena鈥, disse Barreto, que 茅 colunista da Amaz么nia Real.
A epistemologia ind铆gena, segundo Barreto, estuda a cultura a partir das teorias ocidentais, mas 茅 formulada com base no pensamento da etnia a qual o detentor do conhecimento possui. 鈥淧recisamos pensar e sistematizar sobre nosso conhecimento. Descobrir qual nossa l贸gica, para al茅m das narrativas m铆ticas. J谩 temos grandes avan莽os鈥, diz.
Para o doutorando muitas 谩reas e disciplinas ainda n茫o est茫o preparadas para lidar com este novo momento.
鈥淢uitas 谩reas acham que v茫o ensinar o ind铆gena para ser apenas um profissional, um t茅cnico, mas n茫o um pensador, n茫o como aquela pessoa que vai se esfor莽ar para dialogar com um conhecimento constru铆do, criar conceitos. O que ainda se fala muito 茅 em dar capacita莽茫o e oficina鈥, diz.
O pioneirismo e aprendizado
Gilton Mendes, orientador de Gabriel Maia e de Jo茫o Paulo Barreto, afirma que a presen莽a dos ind铆genas na academia, nas aulas do mestrado e nas discuss玫es em grupos de pesquisa, tem um significado importante, que 茅 a contribui莽茫o que eles podem dar pelo fato de serem de contextos diferentes, culturais e lingu铆sticos.
Mendes defende que os alunos ind铆genas n茫o sejam obrigados a passar por complexos processos de ingresso na universidade que, segundo ele, acabam sendo obst谩culos para quem n茫o est谩 habituado com a engrenagem rigorosa de uma sele莽茫o, com leitura de uma disciplina j谩 criada. E isso inclui um processo que v谩 al茅m de exames diferenciados.
鈥淣o PPGAS conseguimos fazer isso (cotas). Ok, entrou e agora? Entrou, o processo 茅 igual, a finaliza莽茫o do curso 茅 igual. Faz as disciplinas, faz as leituras dos autores do mesmo jeito, exige-se que fa莽am provas, trabalhos, que escrevam tese. Isso come莽ou a me angustiar. N茫o basta fazer um processo diferenciado, mas manter todo o resto. Foi a partir da铆 que comecei a conversar com eles. Sobretudo conversando com o Jo茫o Paulo, que foi minha primeira experi锚ncia de orienta莽茫o com ind铆gena, de como poder铆amos fazer as coisas diferentes. Comecei a tentar como poderia ser a entrada, o miolo e o final鈥, diz Mendes.
Mas foi dado um passo adiante justamente na fase final, com a defesa da disserta莽茫o em Tukano. O primeiro 鈥渆xperimento鈥, segundo Mendes, foi a inclus茫o do pai de Jo茫o Paulo Barreto, Ov铆dio Barreto (especialista ind铆gena), como co-orientador, e de um ind铆gena Tukano (Domingos Barreto) presente na defesa de disserta莽茫o.
鈥淛谩 naquela 茅poca conversava com o Jo茫o Paulo sobre a escrita na l铆ngua. Mas agora, com o Gabriel e com o Dagoberto, a gente v锚 o sofrimento deles, a dificuldade desses meninos de escrever sob o rigor da forma acad锚mica e de expressar suas melhores ideias. Quando perguntei se eles pensavam e se se expressavam melhor em portugu锚s ou Tukano e eles responderam 鈥榚m Tukano鈥, vimos que ir铆amos batalhar por isso.
Baseados na Constitui莽茫o Federal e no fato do Tukano ser reconhecido como uma l铆ngua co-oficial no pa铆s, professores e alunos deram entrada no pedido na reitoria da Ufam com a expectativa de terem 锚xito.
鈥溍 dif铆cil falar em outra l铆ngua sobre coisas filos贸ficas, abstratas, epistemol贸gicas, antropol贸gicas. Falar sobre esquemas de pensamento. Quando vejo esses meninos falando em Tukano, eles mostram uma riqueza impressionante. T锚m uma mem贸ria, uma viv锚ncia, um pensamento extraordin谩rio. Quando eles falam na l铆ngua conseguem flanar, voar como um p谩ssaro. Mas quando falam portugu锚s, numa linguagem r铆gida da academia, travam. Quando v茫o escrever, pior, porque a escrita tem uma exig锚ncia n茫o s贸 do ponto de vista da ordem, da express茫o gramatical, ortogr谩fica, mas da l贸gica do pensamento鈥, afirmou Gilton Mendes.
Graduado em Agronomia e com mestrado e doutorado em Antropologia pela Universidade de S茫o Paulo (USP) e h谩 dez anos atuando como professor na Ufam, Gilton Mendes disse que a experi锚ncia que est谩 tendo com os alunos ind铆genas 鈥 que ele chama de 鈥渕eninos鈥 鈥 茅 um aprendizado permanente.
鈥淓sses meninos mudaram a minha cabe莽a. Acho que essa antropologia s贸 pode ser oxigenada a partir da participa莽茫o dos ind铆genas. Eu aprendo muito com eles. Eu n茫o sou estudioso dos Tukano, mas o que eu sei 茅 gra莽as a esses meninos. Tenho aprendido sobre eles (Tukano), e aprendido muito sobre a metodologia antropol贸gica. Como trabalhar com a participa莽茫o do outro. Essa experi锚ncia de orienta莽茫o, de debate, de ampliar tem sido muito por causa deles鈥, afirma.
Diferente do que pode parecer, Mendes acha que as disserta莽玫es na l铆ngua nativa ter茫o mais leitores do que se fossem escritas em portugu锚s. 鈥淭ratei com eles: 鈥榲oc锚s acham legal escrever em Tukano? N茫o haveria um p煤blico muito restrito? 鈥. Para a minha surpresa eles disseram: 鈥榯em muita gente que l锚 em Tukano鈥. V茫o ler mais do que se fosse em portugu锚s鈥. Todos os alunos e professores sabem ler emTukano. Ou seja, ao inv茅s de restringir, pode aumentar. Isso pode gerar um debate e uma circula莽茫o das ideias muito mais do que em portugu锚s鈥, afirma. Quem 茅 esse p煤blico? A pr贸pria comunidade do povo Tukano, no Alto Rio Negro.
Entusiasmado com o pioneirismo, Gilton Mendes acha que a decis茫o de escrever na l铆ngua nativa uma disserta莽茫o vai revolucionar o ensino de p贸s-gradua莽茫o. 鈥淎cho que se efetivando isso vamos ter um ganho nacional e internacional. Vamos estimular outros programas鈥.
Reconhecimento oficial da l铆ngua ind铆gena
A l铆ngua Tukano foi reconhecida como co-oficial no pa铆s por uma lei municipal de S茫o Gabriel da Cacheira em 2002. Ela foi regulamentada em 2006. Outras duas l铆nguas ind铆genas 鈥 Baniwa e Nheengatu 鈥 tamb茅m foram co-oficializadas.
S茫o Gabriel da Gabriel 茅 um munic铆pio amazonense onde 90% de sua popula莽茫o 茅 ind铆gena. 脡 tamb茅m o munic铆pio com maior diversidade 茅tnica 鈥 23 povos. No munic铆pio h谩 cinco troncos lingu铆sticos: Tukano Oriental (do qual faz parte o Tukano), Aruak, Nadahup, Yanomami e Tupi-Guarani, de onde surgiu o Nheengatu ou L铆ngua Geral (saiba mais aqui).
Assim como tantos outros nomes de etnias ind铆genas do pa铆s, o termo 鈥淭ukano鈥 foi criado pelo colonizador europeu. Mas os 铆ndios Tukano se identificam com o nome de 鈥淵ep谩-Mahs茫鈥, cuja tradu莽茫o 茅 complexa. Ao p茅 da letra, segundo Gabriel Maia, a palavra significa 鈥渟eres vindos da terra鈥. Mas a mesma palavra recebeu adapta莽玫es metaf铆sicas e pode ser tamb茅m compreendida como 鈥渟eres invis铆veis鈥 ou 鈥済uardi茫es do espa莽o鈥. Ou seja, n茫o h谩 uma 煤nica tradu莽茫o para o termo e seus significados s茫o bastante distintos.
Ufam cria nova pol铆tica de cotas na p贸s-gradua莽茫o
O sistema de cotas no qual os dois alunos ind铆genas entraram foi implementado durante seis anos no PPGAS, mas n茫o era regulamentado pela reitoria da Ufam. Cada programa mantinha sua pr贸pria normatiza莽茫o. Alguns cursos, por茅m, se recusavam a adotar. Em 2014, ele foi suspenso pela reitoria, decis茫o que teve uma repercuss茫o negativa na institui莽茫o (leia sobre a repercuss茫o).
No 煤ltimo dia 16, no mesmo dia em que os ind铆genas Tukano foram comunicados oficialmente pela pr贸-reitoria de que seu pedido havia recebido parecer favor谩vel, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extens茫o (Consepe) da Ufam aprovou a Resolu莽茫o n潞 010 de 2016 que disp玫e sobre a pol铆tica de a莽玫es afirmativas para pretos, pardos e ind铆genas na P贸s-gradua莽茫o Stricto sensu na institui莽茫o. A Resolu莽茫o j谩 foi assinada pela reitora M谩rcia Perales e ser谩 publicada nos pr贸ximos dias.
Em respostas 脿s perguntas da ag锚ncia Amaz么nia Real, a assessoria de imprensa da Ufam, disse que trabalhar谩 em seus programas de p贸s-gradua莽茫o com vagas suplementares, aquelas criadas al茅m das vagas regulares, para serem ocupadas pelos cotistas e extintas no final do certame, caso n茫o sejam preenchidas.
鈥淥 n煤mero de vagas oferecidas em cada processo seletivo ser谩 fixado em edital, observando-se, em qualquer caso, que ser茫o vagas suplementares de no m铆nimo 20% (vinte por cento) e no m谩ximo 50% (cinquenta por cento) em rela莽茫o 脿s vagas regulares鈥, disse nota da assessoria de imprensa da Ufam.
A assessoria disse que as cotas j谩 foram praticadas nos cursos de p贸s-gradua莽茫o, mas sem a devida institucionaliza莽茫o. 鈥淧ara institucionalizar as a莽玫es afirmativas, a Universidade estabeleceu um di谩logo amplo com os programas de p贸s-gradua莽茫o, a comunidade ind铆gena e os demais segmentos da Ufam. Dessa forma, a Universidade construiu, coletivamente, uma proposta que permitisse ao p煤blico-alvo da Resolu莽茫o a garantia de acesso a todos os 41 programas de p贸s-gradua莽茫o da Institui莽茫o鈥, disse.
Na nota, a reitoria disse que 鈥渁s a莽玫es afirmativas s茫o medidas compensat贸rias tempor谩rias e que a Ufam, como institui莽茫o p煤blica de ensino superior, defende a educa莽茫o como bem p煤blico e mola propulsora para a constru莽茫o de uma sociedade mais justa. Diante disso, a ado莽茫o de medidas que contribuam para alcan莽ar esse objetivo, como 茅 o caso da pol铆tica de cotas, torna-se um importante recurso a ser implementado鈥.
Conforme a nota, a Ufam 鈥渞econhece sua responsabilidade em n铆vel local, regional e nacional para o desenvolvimento da sociedade n茫o apenas no 芒mbito econ么mico, mas tamb茅m, nos aspectos profissional, social e cultural, nos quais a pol铆tica de cotas ir谩 impactar positivamente, mudando o perfil da universidade p煤blica brasileira e contribuindo na busca reiterada pela excel锚ncia acad锚mica com compromisso social鈥.
A Ufam diz ainda que 鈥減ossui na gradua莽茫o 3.507 estudantes cotistas que ingressaram por meio da reserva de vagas institu铆da pela Lei n潞 12.711 de 2012鈥 , mas que 鈥渘茫o possui n煤meros precisos sobre quantos estudantes pretos, pardos e ind铆genas existem nos programas de P贸s-gradua莽茫o, pois, antes da pol铆tica de A莽玫es Afirmativas, esta distin莽茫o n茫o existia para efeito de registro鈥.
Saiba mais em:
Fonte: Amaz么nia Real
Foto: Alberto C茅sar Ara煤jo/AmReal)
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