NOT脥CIAS

E o patrim么nio cultural?

patrominio-cultural

 

Filmes podem n茫o passar, pe莽as podem n茫o estrear, mas como ficaremos quando os pr茅dios hist贸ricos ru铆rem, quando as bibliotecas inundarem?

 

N茫o h谩 debate mais repetitivo no Brasil do que a relev芒ncia da cultura para o desenvolvimento do pa铆s. Seja como campo econ么mico, seja como campo simb贸lico, seja como manifesta莽茫o de um poss铆vel soft power ou seja como afirma莽茫o de identidade. Entretanto aqueles que nos trouxeram at茅 aqui, neste momento peculiar铆ssimo da na莽茫o, de abstin锚ncia de esperan莽a, s茫o os mesmos a propor o fim das estruturas da administra莽茫o p煤blica que cuidam da cultura. E assim, por raz玫es de ajuste e arrocho, querem eliminar o fomento do simb贸lico. Acabam minist茅rios, acabam secretarias, e medos revelam-se a cada not铆cia de 鈥渆nxugamento” da m谩quina p煤blica.

Felizmente a classe cultural expressa-se bem, articula-se e consegue imprimir sua marca. Retornou o Minist茅rio da Cultura. Mobiliza-se agora a sociedade para o caso da vincula莽茫o da Secret谩ria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro 脿 outra pasta, subordinando-a 脿 Ci锚ncia e Tecnologia. Por que n茫o o contr谩rio?

Artistas, produtores, formadores de pol铆ticas, articulistas, trabalhadores do setor cultural conseguem fazer valer as suas posi莽玫es. S茫o formadores de opini茫o. S茫o temidos. 脌 classe pol铆tica incomoda a capacidade aguda de express茫o desses empres谩rios e trabalhadores da cultura, apontando acertadamente os equ铆vocos dos governos. Muitos erros paradoxalmente criados por aqueles que o pr贸prio setor ideologicamente apoiou ou continua a apoiar. A m茫o que afaga, fere. H谩 que se fazer uma autocritica. Onde est茫o as evid锚ncias dos dados das boas pol铆ticas culturais? Onde est茫o os or莽amentos que prestigiam cultura? A铆 est茫o do mesmo modo os parceiros pol铆ticos do setor. Por que apoiar quem desprestigia de recursos a 谩rea cultural? Por que, em tese, s茫o mais progressistas?

Talvez por isso, amea莽ar a Lei Rouanet, convocar CPI, seja um gesto d茅bil de vingan莽a da classe pol铆tica ou algum tipo de trauma pela aus锚ncia de falo criativo. De impot锚ncia est茅tica. Fato 茅 que a lei carece de revis茫o mas 茅 nela que se apoia boa parte do setor. Fato 茅 que desvios ou crimes cometidos devam ser julgados e punidos. Fato 茅 que 茅 necess谩rio assegurar or莽amento e pol铆ticas para al茅m da exclusividade da Lei.

Mas h谩 um sil锚ncio estrondoso que n茫o ganha espa莽o, corpo ou manchete. H谩 uma urg锚ncia imperiosa que a ind煤stria cultural n茫o aponta talvez pelos seus pr贸prios compromissos, ou h谩bitos, ou v铆cios. H谩 um vazio que percebemos muitas vezes tardiamente, penosamente.

E o patrim么nio cultural? E os arquivos? E os acervos? E as bibliotecas? E a mem贸ria? E os invent谩rios?

Como est谩 e como fica a dimens茫o introvertida da nossa vida cultural? Como fica a forja que lapida, repetidamente, aos longo dos s茅culos, a face mais fr谩gil e simbolicamente mais potente da nossa cultura que s茫o os corpos materiais e imateriais do patrim么nio cultural?

Ser谩 que estamos ouvindo esse grito nas ruas? As manifesta莽玫es? N茫o escutais? Olhe para os edif铆cios arruinados dos ex-magn铆ficos centros hist贸ricos das cidades do pa铆s. Eles est茫o gritando por recursos, pol铆ticas e gest茫o.

Filmes podem n茫o passar, pe莽as podem n茫o estrear, editais de fomento podem n茫o sair, mas como ficaremos quando os pr茅dios hist贸ricos ru铆rem, quando as bibliotecas inundarem, quando os acervos pegarem fogo? Como ficaremos quando aquilo que nos 茅 mais absolutamente 煤nico perder-se? Ser谩 que estamos percebendo a fratura que se abre na vida cultural onde o que 茅 central e atemporal est谩 sendo frivolamente menosprezado por n茫o ser mais associado a vida urbana contempor芒nea ou ao entretenimento?

O aspecto monotem谩tico do debate economicista em que se encerra a cultura no Brasil est谩 a desprezar profundamente o patrim么nio cultural. N茫o h谩 inova莽玫es, n茫o h谩 pol铆ticas vigorosas de fomento ao setor, n茫o h谩 transversalidade deste universo conciso e intenso com a educa莽茫o, o turismo, o design ou a tecnologia. N茫o h谩 or莽amentos significativos para 谩rea que organiza o simb贸lico da nossa identidade, que comp玫e o n煤cleo indivis铆vel e denso sobre o qual gravitam todos os outros modos e linguagens.

脡 importante, portanto, denunciar que este sistema obtuso de produ莽茫o cultural, estruturado hoje exclusivamente atrav茅s de ren煤ncia fiscal, no qual a etapa de decis茫o final compete aos setores de marketing das empresas, muitas delas ali谩s, as principais, s茫o p煤blicas, nunca dar谩 conta da conserva莽茫o, tutela e interpreta莽茫o do patrim么nio cultural. Urge erguer-se e gritar que n茫o podemos pretender que venha a ser este o modo 煤nico como salvaguardarmos nossos bens culturais insubstitu铆veis e imposs铆veis de replicar. Se s茫o im贸veis, perenes, n茫o s茫o inertes. Cont茅m a express茫o da nossa gra莽a e dor. S茫o as marcas com que tocamos o territ贸rio, com que inventamos saberes e modos de fazer, s茫o as vibra莽玫es que carregamos na alma coletiva e que nos aproxima e nos diferencia de outros povos. 脡 o que somos intrinsecamente. N茫o 茅 pequena fun莽茫o do patrim么nio. N茫o 茅 sobre o passado, mas sobre quem seremos no futuro e como nos entendemos hoje.

N茫o podemos supor que caiba 脿 Lei Rouanet faz锚-lo. Cabe destinar-lhe recursos pr贸prios, especificamente destinados, e cobrar inova莽玫es e gest茫o eficiente para o patrim么nio. Pois ele 茅 principal fagulha para o nosso desenvolvimento que deva ser amplo, generoso, amoroso e inclusivo. Aos 贸rg茫os de tutela de patrim么nio tem cabido apenas o papel pequeno do licenciamento ambiental. 脡 necess谩rio romper com tal l贸gica med铆ocre. 脡 necess谩rio compreender tamb茅m o valor econ么mico e cidad茫o desse campo. Inspirar-se na bem sucedida gest茫o da Ancine, onde hoje vibram com intensidade as produ莽玫es audiovisuais nacionais. Se h谩 quantidade, tamb茅m haver谩 qualidade.

O rem茅dio-veneno que 茅 a Lei Rouanet precisa ser melhorado. Deve. H谩 compromisso expresso do Minist茅rio da Cultura em faz锚-lo. J谩 h谩 melhorias claras na atual gest茫o. Mas para cada avan莽o, proponho a pergunta: e o patrim么nio cultural? N茫o podemos nos cegar com o brilho do entretenimento. 脡 urgente olhar para os casmurros. S茫o desafios nacionais e locais. A regenera莽茫o de cidades e territ贸rios passa pela valora莽茫o da sua mem贸ria.

Sobre este acervo de tradi莽玫es, pr茅dios, saberes, festas, livros, fotos, documentos, n茫o pode haver a poeira do abandono, ou a mis茅ria. H谩 que se entender a for莽a desse setor e seu impacto sobre a cidadania plena. Talvez resida a铆 uma poss铆vel explica莽茫o para a ruptura do nosso corpo social que tem se convertido em fascismo, ignor芒ncia ou viol锚ncia: a nossa separa莽茫o f铆sica e emocional com nossos bens de afeto, de como莽茫o e de reuni茫o com os lugares, com os antepassados e com a hist贸ria de n贸s mesmos. N茫o avan莽aremos em dire莽茫o ao futuro somente com o vi茅s econ么mico da cultura. Ele 茅 claramente importante. Mas h谩 emerg锚ncia em revolucionarmos o modo de preservarmos nossos bens culturais patrimoniais. N茫o viabiliza-se alegria sem mem贸ria.

 

Fonte: El Pa铆s

Imagem: Escola Superior de Agricultura, em Piracicaba (SP). KEN CHU A2IMG/ FOTOS P脷BLICAS

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