NOT脥CIAS

O colonialismo insidioso, por Boaventura Sousa Santos

O termo alem茫o Zeitgeist 茅 hoje usado em diferentes l铆nguas para designar o clima cultural, intelectual e moral de uma dada 茅poca, literalmente, o esp铆rito do tempo. Na idade moderna, dada a persist锚ncia da ideia do progresso, uma das maiores dificuldades em captar o esp铆rito de uma dada 茅poca reside em identificar as continuidades com 茅pocas anteriores, quase sempre disfar莽adas de descontinuidades, inova莽玫es, rupturas. O que permanece de per铆odos anteriores 茅 sempre metamorfoseado em algo que simultaneamente o denuncia e dissimula e, por isso, permanece sempre como algo diferente do que foi sem deixar de ser o mesmo. As categorias que usamos para caracterizar uma dada 茅poca s茫o demasiado toscas para captar esta complexidade, porque elas pr贸prias s茫o parte do mesmo esp铆rito do tempo que supostamente devem caracterizar a partir de fora. Correm sempre o risco de serem anacr贸nicas, pelo peso da in茅rcia, ou ut贸picas, pela leveza da antecipa莽茫o.

Por Boaventura Sousa Santos, do GGN


Foto: Guilherme Santos/Sul21

Tenho defendido que vivemos em sociedades capitalistas, coloniais e patriarcais, por refer锚ncia aos tr锚s principais modos de domina莽茫o da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado ou, mais precisamente, hetero-patriarcado. Nenhuma destas categorias 茅 t茫o controversa quanto a de colonialismo. Fomos todos t茫o socializados na ideia de que as lutas de liberta莽茫o anticolonial do s茅culo XX puseram fim ao colonialismo que 茅 quase uma heresia pensar que afinal o colonialismo n茫o acabou, apenas mudou de forma ou de roupagem, e que a nossa dificuldade 茅 a de a nomear adequadamente. 脡 certo que os analistas e os pol铆ticos mais avisados tiveram a percep莽茫o aguda desta complexidade, mas as suas vozes n茫o foram suficientemente fortes para p么r em causa a ideia convencional de que o colonialismo propriamente dito acabara, com excep莽茫o de alguns poucos casos (o Sahara Ocidental, a col贸nia hispano-marroquina que continua subjugando o povo saharaui e a ocupa莽茫o da Palestina por Israel). Entre essas vozes, saliento Pablo Gonzalez Casanova e o seu conceito de colonialismo interno para caracterizar a perman锚ncia de estruturas de poder colonial nas sociedades que emergiram no s茅culo XIX das lutas de independ锚ncia nas Am茅ricas. E o l铆der africano, Kwame Nkrumah, primeiro Presidente da Rep煤blica do Gana, com o seu conceito de neocolonialismo para caracterizar o dom铆nio que as antigas pot锚ncias coloniais continuavam a deter sobre as suas antigas col贸nias.

O que terminou com os processos de independ锚ncia do s茅culo XX foi uma forma espec铆fica de colonialismo, e n茫o o colonialismo como modo de domina莽茫o. A forma que terminou foi o que se pode designar por colonialismo hist贸rico caracterizado pela ocupa莽茫o territorial estrangeira. Mas o modo de domina莽茫o colonial continuou sob outras formas. O colonialismo como modo de domina莽茫o assente na degrada莽茫o ontol贸gica das popula莽玫es dominadas por raz玫es etno-raciais est谩 hoje t茫o vigente e violento como no passado. 脌s popula莽玫es e aos corpos racializados n茫o 茅 reconhecida a mesma dignidade humana que 茅 atribu铆da aos que os dominam. S茫o popula莽玫es e corpos que, pese embora todas as declara莽玫es universais dos direitos humanos, s茫o existencialmente considerados sub-humanos, seres inferiores na escala do ser, facilmente descart谩veis. Foram concebidos como parte da paisagem das terras 鈥渄escobertas鈥 pelos conquistadores, terras que, apesar de habitadas por popula莽玫es ind铆genas, foram consideradas como terras de ningu茅m. Foram tamb茅m considerados como objectos de propriedade individual, de que 茅 prova hist贸rica a escravatura. E continuam hoje a ser popula莽玫es e corpos v铆timas do racismo, da xenofobia, da expuls茫o das suas terras para abrir caminho aos megaprojectos mineiros e agro-industriais e 脿 especula莽茫o imobili谩ria, da viol锚ncia policial e das mil铆cias paramilitares, do tr谩fico de pessoas e de 贸rg茫os, do trabalho escravo designado eufemisticamente como 鈥渢rabalho an谩logo ao trabalho escravo鈥, da convers茫o das suas comunidades de rios cristalinos e florestas id铆licas em infernos t贸xicos de degrada莽茫o ambiental. Vivem em zonas de sacrif铆cio, a cada momento em risco de se transformarem em zonas de n茫o-ser.

As novas formas de colonialismo s茫o mais insidiosas porque ocorrem no 芒mago de rela莽玫es sociais dominadas pelas ideologias do anti-racismo, dos direitos humanos universais, da igualdade de todos perante a lei. O colonialismo insidioso 茅 gasoso e evanescente, t茫o invasivo quanto evasivo, em suma, ardiloso. Mas nem por isso engana ou minora o sofrimento de quem 茅 dele v铆tima na sua vida quotidiana. Floresce em apartheids sociais n茫o institucionais mesmo que sistem谩ticos. Ocorre nas ruas e nas casas, nas pris玫es e nas universidades, nos supermercados e nas esquadras de pol铆cia. Disfar莽a-se facilmente de outras formas de domina莽茫o tais como diferen莽as de classe e de sexo ou sexualidade. Verdadeiramente s贸 茅 capt谩vel em close-ups, instant芒neos do dia-a-dia. Em alguns deles, o colonialismo insidioso surge como saudade do colonialismo, como se fosse uma esp茅cie em extin莽茫o que tem de ser protegida e multiplicada. Eis alguns desses instant芒neos.

Primeiro. Um dos 煤ltimos n煤meros de 2017 da revista cient铆fica Third World Quarterly, dedicada aos estudos p贸s-coloniais, inclu铆a um artigo de autoria de Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, intitulado 鈥淓m defesa do colonialismo鈥. Eis o resumo do artigo: 鈥淣os 煤ltimos cem anos, o colonialismo ocidental tem sido muito maltratado. 脡 chegada a hora de contestar esta ortodoxia. Considerando realisticamente os respectivos conceitos, o colonialismo ocidental foi, em regra, tanto objectivamente ben茅fico como subjectivamente leg铆timo na maior parte dos lugares onde ocorreu. Em geral, os pa铆ses que abra莽aram a sua heran莽a colonial tiveram mais 锚xito do que aqueles que a desprezaram. A ideologia anticolonial imp么s graves preju铆zos aos povos a ela sujeitos e continua a impedir, em muitos lugares, um desenvolvimento sustentado e um encontro produtivo com a modernidade. H谩 tr锚s formas de Estados fracos e fr谩geis recuperarem hoje o colonialismo: reclamando modos coloniais de governa莽茫o; recolonizando certas 谩reas; e criando novas col贸nias ocidentais.鈥 O artigo causou uma indigna莽茫o geral e 15 membros do conselho editorial da revista demitiram-se. O autor acabou por retirar o artigo da vers茫o electr贸nica da revista; mas permaneceu na vers茫o impressa. Foi um sinal dos tempos? Afinal, o artigo fora sujeito a revis茫o an贸nima por pares. A controv茅rsia mostrou que a defesa do colonialismo estava longe de ser um acto isolado de um autor tresloucado.

Segundo. O Wall Street Journal de 22 de Mar莽o passado publicou uma reportagem intitulada 鈥淎 procura de s茅men americano disparou no Brasil鈥. Segundo a jornalista, a importa莽茫o de s茅men americano por mulheres solteiras e casais de l茅sbicas brasileiras ricas aumentou extraordinariamente nos 煤ltimos sete anos e os perfis dos doadores seleccionados mostram a prefer锚ncia por crian莽as brancas e com olhos azuis. E acrescenta: 鈥淎 prefer锚ncia por dadores brancos reflecte uma persistente preocupa莽茫o com a ra莽a num pa铆s em que a classe social e a cor da pele coincidem com grande rigor. Mais de 50% dos brasileiros s茫o negros ou mesti莽os, uma heran莽a que resultou de o Brasil ter importado dez vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos. Os descendentes de colonos e imigrantes brancos鈥 controlam a maior parte do poder pol铆tico e da riqueza do pa铆s. Numa sociedade t茫o racialmente dividida, ter descend锚ncia de pele clara 茅 visto muitas vezes como um modo de providenciar 脿s crian莽as melhores perspectivas, seja um sal谩rio mais elevado ou um tratamento policial mais justo.鈥

Terceiro. Em 24 de Mar莽o passado, o mais influente jornal da Africa do Sul, Mail & Guardian, publicou uma reportagem intitulada 鈥淕enoc铆dio branco: como a grande mentira se espalhou para os Estados Unidos e outros pa铆ses鈥. Segundo o jornalista, 鈥淥 Suidlanders, um grupo sul-africano de extrema-direita, tem vindo a estabelecer contacto com outros grupos extremistas nos Estados Unidos e na Austr谩lia, fabricando uma teoria da conspira莽茫o sobre genoc铆dio branco com o objectivo de conseguir apoio internacional para sul-africanos brancos. O grupo, que se autodescreve como 鈥榰ma iniciativa-plano de emerg锚ncia鈥 para preparar uma minoria sul-africana de crist茫os protestantes para uma suposta revolu莽茫o violenta, tem-se relacionado com v谩rios grupos extremistas (alt-right) e seus influentes contactos medi谩ticos nos Estados Unidos para erguer uma oposi莽茫o global 脿 alegada persegui莽茫o a brancos na 脕frica do Sul鈥 O ministro australiano dos Assuntos Internos disse ao Daily Telegraph que estava a considerar vistos r谩pidos para agricultores sul-africanos brancos, os quais precisavam de 鈥榝ugir de circunst芒ncias atrozes鈥 para 鈥榰m pa铆s civilizado鈥. Segundo o ministro, os ditos agricultores 鈥榤erecem aten莽茫o especial鈥 por causa de ocupa莽茫o de terras e viol锚ncia鈥 Tem tamb茅m sido prestada mais aten莽茫o a agricultores sul-africanos brancos na Europa, onde pol铆ticos da extrema-direita com contactos directos com a extrema-direita (alt-right) nos Estados Unidos t锚m solicitado ao Parlamento Europeu que intervenha na 脕frica do Sul. Agentes pol铆ticos contra os refugiados no Reino Unido est茫o igualmente ligados 脿 causa.鈥

A grande armadilha do colonialismo insidioso 茅 dar a impress茫o de um regresso, quando o que regressa nunca deixou de estar.

Fonte: Geledes
(https://www.geledes.org.br/o-colonialismo-insidioso-por-boaventura-sousa-santos/)

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