Fernando Fraz茫o/Ag锚ncia Brasil

NOT脥CIAS

Para al茅m dos editais: a necessidade da arte

A necess谩ria distin莽茫o entre cultura e arte nas pol铆ticas p煤blicas

Foto: Fernando Fraz茫o/Ag锚ncia Brasil

Por Marcelo Bones

 

Quando fiz o curso de Sociologia na FAFICH 鈥 UFMG, e isso foi h谩 muitos… muitos anos, tive acesso ao livro A Necessidade da Arte, de Ernst Fischer. Sem menosprezar o conte煤do, denso e corajoso, escrito num tempo em que a arte ainda era vista como motor de transforma莽茫o e n茫o como ap锚ndice decorativo das pol铆ticas sociais, o que mais me marcou foi o pr贸prio t铆tulo. Foi a for莽a silenciosa da pergunta embutida no nome que me seguiu at茅 hoje. 脌quela altura, eu j谩 ensaiava minhas primeiras aventuras como artista e profissional do teatro e do circo, paralelamente ao curso universit谩rio. E desde ent茫o, entre palcos, pra莽as, editais e desmontes, nunca parei de me perguntar ou de ter que responder, afinal: qual 茅 a necessidade da arte?

O livro me marcou porque tratava a arte n茫o como ornamento, nem como luxo ou privil茅gio, mas como algo fundamental 脿 experi锚ncia humana. Fischer afirmava que a arte nasce da pr贸pria condi莽茫o de inacabamento do ser humano: ela seria um modo de tornar o mundo habit谩vel, ao mesmo tempo em que revela sua imperfei莽茫o. Uma forma de reencantar o cotidiano sem neg谩-lo, de denunciar a aliena莽茫o sem abrir m茫o da beleza, de resistir 脿 barb谩rie com imagina莽茫o. A arte, para ele, 茅 necess谩ria porque reconecta o ser humano consigo mesmo, com o outro e com a possibilidade de um mundo diferente. N茫o como fuga, mas como presen莽a ampliada. N茫o como produto, mas como linguagem. Essa vis茫o, que me arrebatou ainda jovem, continua me acompanhando sempre que vejo a arte ser tratada como 鈥渁莽茫o cultural鈥, gen茅rica, mensur谩vel, domesticada, nos documentos e planos de fomento do Estado. De l谩 para c谩, 茅 certo que o pensamento acad锚mico sobre cultura avan莽ou muito. Mas eu, artista e gestor, segui por outro caminho. Acompanhei esses avan莽os acad锚micos 脿 dist芒ncia, atento mais 脿s pra莽as e aos palcos do que 脿s bibliotecas, mas sempre com essa pergunta, que nunca deixou de me convocar: qual 茅, afinal, a necessidade da arte?

脡 preciso, antes de tudo, marcar uma diferen莽a fundamental, muitas vezes esquecida de modo geral e, sobretudo, no campo das pol铆ticas p煤blicas, entre arte e cultura. Embora compartilhem territ贸rios, se interseccionem e, em muitos casos, se confundam, o que 茅 pr贸prio da complexidade contempor芒nea, s茫o campos distintos. A cultura diz respeito aos modos coletivos de viver, aos saberes compartilhados, aos rituais, 脿s pr谩ticas que constroem v铆nculos e estruturam a mem贸ria e o pertencimento. A arte, mesmo quando nasce da cultura, opera em outra l贸gica: a da inven莽茫o, da forma e da linguagem. N茫o se limita a reproduzir o que j谩 茅, mas se lan莽a na cria莽茫o do que ainda n茫o foi. Enquanto a cultura tende 脿 perman锚ncia e 脿 transmiss茫o, a arte se inclina para a ruptura, para a descontinuidade e para a reinven莽茫o. A cultura afirma identidades; a arte pode desestabiliz谩-las. Reconhecer essa diferen莽a n茫o significa opor nem hierarquizar. Significa compreender que arte e cultura t锚m fun莽玫es simb贸licas, modos de exist锚ncia, de frui莽茫o, de forma莽茫o e de transmiss茫o distintos e, por isso, demandam pol铆ticas p煤blicas tamb茅m diferenciadas. Quando essa distin莽茫o 茅 apagada, corremos o risco de exigir da arte aquilo que ela n茫o pode, nem deve, oferecer, reduzindo-a a uma ferramenta auxiliar de media莽茫o cultural ou a uma forma uniformizada de interven莽茫o social.

A quest茫o 茅 que boa parte das pol铆ticas p煤blicas hoje insiste em tratar arte e cultura como se fossem express玫es equivalentes, intercambi谩veis, confundidas. A arte, assim, 茅 convocada a se ajustar 脿 mesma l贸gica que orienta a莽玫es culturais comunit谩rias ou patrimoniais: presen莽a territorial obrigat贸ria, fun莽茫o social expl铆cita, impacto mensur谩vel, engajamento direto. Ela passa a ser vista como ferramenta, estrat茅gia ou suporte pedag贸gico. Nesse processo, perde sua condi莽茫o mais profunda: a de ser um fim em si mesma. A arte n茫o serve, e 茅 justamente por isso que ela 茅 necess谩ria. N茫o responde a metas nem se submete a objetivos externos. Sua exist锚ncia n茫o se justifica por tabelas ou contrapartidas. A arte basta no gesto que a inicia, no movimento que rompe o previs铆vel, no acontecimento que suspende o real e abre um campo outro de experi锚ncia. Seu valor est谩 justamente no que escapa, e isso nem sempre pode ser planejado.

Quando voltamos o olhar para a arte como of铆cio profissional, a diferen莽a em rela莽茫o 脿 cultura torna-se ainda mais n铆tida. O artista, formado em escolas, universidades, conservat贸rios ou em longos percursos de aprendizagem n茫o formal (mestres de tradi莽茫o, grupos de pesquisa, laborat贸rios coletivos, viv锚ncias de palco e de rua), trabalha com elementos que escapam 脿 l贸gica utilit谩ria: fic莽茫o e abstra莽茫o. 脡 na elabora莽茫o consciente da fic莽茫o que a arte desenha mundos outros; 茅 na for莽a da abstra莽茫o que ela modela formas capazes de condensar e expandir sentidos. Essa combinat贸ria exige tempo, rigor t茅cnico, pesquisa continuada e espa莽os de risco. Muitas vezes requer tamb茅m infraestrutura espec铆fica, como salas de ensaio equipadas, ateliers, est煤dios de grava莽茫o, sistemas de ilumina莽茫o c锚nica ou acervos digitais, custos que tornam ainda mais dif铆cil a sustentabilidade de coletivos e artistas individuais. Pol铆ticas p煤blicas que tratam a arte como simples extens茫o cultural raramente alcan莽am tais necessidades: financiam a visibilidade, mas n茫o sustentam o processo; pagam o produto final, mas n茫o investem na forma莽茫o permanente, na pesquisa de linguagem, na manuten莽茫o de grupos. Se reconhecermos que a arte profissional opera num territ贸rio onde a inven莽茫o formal, o pensamento abstrato e a fabula莽茫o consciente s茫o ferramentas essenciais, ent茫o o fomento precisa acolher essa especificidade. Esse princ铆pio refor莽a a no莽茫o de que pol铆ticas p煤blicas para as artes devem contemplar n茫o s贸 o resultado final, mas todo o ecossistema que sustenta a pesquisa est茅tica, o aprimoramento t茅cnico e a densidade 茅tica que um ou uma artista pode oferecer 脿 sociedade. Caso contr谩rio, o pa铆s continuar谩 confundindo arte com entretenimento ocasional ou com a莽茫o sociocultural gen茅rica, deixando 贸rf茫o justamente o lugar onde a linguagem se reinventa e onde a sociedade pode se ver, em fic莽茫o, para imaginar-se de outro modo.

Falo a partir de uma experi锚ncia direta e engajada no que se convencionou chamar de teatro de grupo. Desde meados da d茅cada de 1980 mergulhei nesse universo que se organiza pela coletividade, pela partilha dos processos e pela busca de autonomia est茅tica e pol铆tica. Naquele per铆odo, estendido pelos anos 1990, a articula莽茫o entre companhias, coletivos e movimentos foi intensa: festivais independentes, circuitos alternativos, encontros nacionais, manifestos e pesquisas acad锚micas; tudo convergia para fortalecer um segmento que entendia o palco como lugar de cria莽茫o e de debate p煤blico. Havia, nessa milit芒ncia, uma tr铆ade que orientava a pr谩tica: est茅tica, t茅cnica e 茅tica. A est茅tica apontava para a inven莽茫o de linguagens pr贸prias, fruto de pesquisa continuada e di谩logo com o p煤blico; a t茅cnica, entendida n茫o como formalismo vazio, mas como dom铆nio rigoroso dos meios expressivos, garantia a concretude do gesto criativo; a 茅tica, por fim, ligava cria莽茫o e postura de grupo a um compromisso com a coletividade, com o sentido de comunidade e com a cr铆tica 脿s estruturas de poder que cercam o fazer art铆stico. Estudos sobre o teatro brasileiro desse per铆odo registram como essa tr铆ade forjou obras que, ao mesmo tempo, experimentavam formas e propunham novos modos de organiza莽茫o do trabalho e de rela莽茫o com a sociedade.

Experi锚ncias internacionais mostram que diversos pa铆ses distinguem, com nitidez e sem hierarquias, os instrumentos de apoio 脿 cria莽茫o art铆stica daqueles voltados 脿 cultura em sentido amplo. Esses modelos refor莽am a ideia central deste texto. Demandas diferentes requerem pol铆ticas espec铆ficas, e arte e cultura cumprem fun莽玫es p煤blicas complementares. No Brasil, os atos de refunda莽茫o do Minist茅rio da Cultura j谩 apontam nessa dire莽茫o, ao estabelecer como compet锚ncia do 贸rg茫o 鈥渁 pol铆tica nacional de cultura鈥 e 鈥渁 pol铆tica nacional das artes鈥, sinalizando que cada campo merece abordagem pr贸pria. 脡 importante lembrar que o pa铆s j谩 possui uma funda莽茫o espec铆fica para as artes, a Funarte; contudo, suas atribui莽玫es cobrem apenas parte do ecossistema art铆stico, enquanto outras inst芒ncias federais tamb茅m executam programas para diferentes linguagens. Nos n铆veis estaduais e municipais, frequentemente existe apenas uma secretaria ou funda莽茫o encarregada de tudo ao mesmo tempo: patrim么nio, economia criativa, cultura popular e tamb茅m as artes profissionais, o que dilui a aten莽茫o 脿s especificidades de cada campo. Em junho de 2025, o Minist茅rio apresentou uma proposta de texto-base para orientar a implementa莽茫o da Pol铆tica Nacional das Artes, coordenada pela Funarte, retomando o processo iniciado em 2015 e interrompido pelo impeachment da presidenta Dilma; 脿 茅poca, atuei como consultor e articulador da linguagem do teatro. A nova proposta est谩 em debate p煤blico e pretendo fazer algumas considera莽玫es a respeito em outro texto. Aqui, interessa sublinhar o que tanto o decreto de 2023 quanto a proposta de 2025 reafirmam. 脡 preciso tra莽ar com nitidez a diferen莽a entre arte e cultura e implantar pol铆ticas diferenciadas que contemplem as especificidades de cada uma.

A Pol铆tica Nacional Aldir Blanc de Fomento 脿 Cultura (PNAB) trouxe f么lego in茅dito ao financiamento cultural brasileiro. A Uni茫o entrega, a cada ano, parcela 煤nica de at茅 R$ 3 bilh玫es a estados e munic铆pios, num ciclo plurianual. O desenho federativo imp玫e contrapartidas importantes, por exemplo, plano de aplica莽茫o de recursos, manuten莽茫o do or莽amento pr贸prio de cultura e meta de destinar pelo menos 20% dos recursos a territ贸rios perif茅ricos e comunidades tradicionais, al茅m de percentuais m铆nimos para o Programa Cultura Viva. Esses avan莽os consolidam uma infraestrutura de fomento cultural continuado, mas, tal como est谩, a PNAB, no seu plano geral, n茫o diferencia as especificidades da cria莽茫o art铆stica profissional: a lei agrupa 鈥渁莽玫es, iniciativas, atividades e projetos culturais鈥 em um 煤nico guarda-chuva, de modo que o mesmo edital local, muitas vezes, pode alocar recursos tanto para patrim么nio e festas populares quanto para fazedores das linguagens art铆sticas. A consequ锚ncia, confirmada nos primeiros editais, 茅 a perman锚ncia do modelo concorrencial gen茅rico, em que arte e cultura disputam o mesmo envelope financeiro, sem linhas dedicadas 脿s quest玫es espec铆ficas das artes, como a infraestrutura necess谩ria para se fazer arte profissional. Assim, mesmo sendo um marco para as pol铆ticas culturais, a PNAB deixa em aberto o desafio central deste artigo: tra莽ar com nitidez a diferen莽a entre cultura e arte e implantar instrumentos de fomento espec铆ficos para cada campo nos munic铆pios e nos estados, com a necess谩ria coordena莽茫o da esfera federal.

H谩, 茅 verdade, um sinal de mudan莽a que merece aten莽茫o. Em junho de 2025, o Minist茅rio da Cultura lan莽ou o Programa Nacional Aldir Blanc de Apoio a A莽玫es Continuadas, concebido para ir al茅m dos editais espor谩dicos. A proposta reconhece que a sazonalidade e o car谩ter fragmentado dos projetos pontuais precarizam artistas, grupos, coletivos e espa莽os de cria莽茫o. O programa acena com apoio plurianual, inicialmente de (no m铆nimo) dois anos, per铆odo ainda muito modesto para processos art铆sticos, a coletivos, espa莽os culturais e eventos permanentes, valorizando trajet贸rias de longa dura莽茫o e repert贸rios cont铆nuos. Ainda assim, o alcance real dessa iniciativa depender谩 de quantos estados e munic铆pios ir茫o aderir e como a implantar茫o, do volume de recursos efetivamente destinado e da capacidade de avaliar percursos criativos para al茅m de indicadores gen茅ricos. Em outras palavras, a inten莽茫o 茅 promissora, mas seu impacto s贸 se confirmar谩 se as esferas governamentais assumirem, na pr谩tica, que a arte n茫o cabe em cronogramas de curto prazo e exige ferramentas e instrumentos espec铆ficos.

Hoje, persiste entre poder p煤blico e sociedade civil, incluindo parte dos fazedores de cultura e das artes, uma confus茫o que trata arte e cultura como se fossem pe莽as intercambi谩veis de um mesmo mecanismo sociocultural. Esse embaralhamento 茅 danoso: amortece o pensamento cr铆tico, submete a cria莽茫o a m茅tricas externas e bloqueia o alcance de pol铆ticas que deveriam sustentar justamente quem pesquisa, arrisca e reinventa linguagem. Quando arte e cultura s茫o lan莽adas no mesmo cesto de obriga莽玫es gen茅ricas, perdem a nitidez de suas fun莽玫es complementares e o pa铆s desperdi莽a pot锚ncia simb贸lica. Reconhecer a diferen莽a n茫o significa dividir um or莽amento j谩 escasso; significa multiplicar a efic谩cia de cada real investido. Cabe ao Estado criar instrumentos que garantam a autonomia da arte e 脿 sociedade civil, fazedores de cultura e das artes, gestores e p煤blico, defender esse espa莽o como direito inegoci谩vel. S贸 assim a arte continuar谩 perguntando e a cultura seguir谩 respondendo, cada qual em seu lugar, ambos essenciais para a democracia que ainda estamos construindo. Se at茅 a lei que refundou o Minist茅rio e lhe atribuiu duas compet锚ncias, 鈥減ol铆tica nacional de cultura鈥 e 鈥減ol铆tica nacional das artes鈥, j谩 admite nas entrelinhas que estamos falando de campos diferentes, por que n茫o levar a letra da lei 脿s 煤ltimas consequ锚ncias?

Fica a sugest茫o, entre um sorriso maroto e a esperan莽a de precis茫o: que tal mandarmos fundir uma placa nova para a Esplanada com o t铆tulo 鈥淢inist茅rio da Cultura e das Artes鈥?

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8 Coment谩rios para “Para al茅m dos editais: a necessidade da arte”

  1. Jos茅 Geraldo Resende disse:

    As Artes e a Literatura expressam em formas e conte煤dos, a Cultura de um povo. 鈥淥 Ser humano cria a arte 鈥 que sintetiza suas emo莽玫es, sua hist贸ria e a sua cultura, – para comunicar ao mundo sua realiza莽茫o, para explorar novas formas de olhar, interpretar e reinterpretar a vida, que ao se materializar em formas e conte煤dos, se torna produto, e ao ser fru铆da, cria identidade e se movimenta em novas s铆nteses de sentidos, gerando prazer, sentido de pertencimento e potencializa莽茫o de sensibilidade鈥.

    1. Jos茅 Geraldo Resende disse:

      Respondendo 脿 sugest茫o: O termo Cultura em sentido lato senso vai englobar todo o modo de ser e de viver de um povo, assim ter铆amos um infinitude tais como: cultura pol铆tica, desportiva, religiosa, alimentar, e etc., talvez o mais corretos seria: Minist茅rio da Cultura Art铆stica?

  2. Leo Damasio disse:

    O campo das artes n茫o 茅 um territ贸rio 脿 parte do grande campo da cultura. As pol铆ticas p煤blicas de cultura visam atender aos direitos culturais expressos no artigo 216-a da constitui莽茫o federal que abrangem, de um lado, o direito 脿 express茫o cultural de todos os fazedores de cultura, inclusive os artistas e do outro o direito 脿 frui莽茫o cultural por todos os cidad茫os, independente das linguagens e express玫es culturais a que sejam mais afeitos. Acho importante que pol铆ticas p煤blicas como a PNAB n茫o fa莽am essa distin莽茫o entre quem merece e quem n茫o merece ser chamado de artista no campo da cria莽茫o e manifesta莽茫o cultural, esteja ela ligada com as tradi莽玫es ou com a vanguarda, mesmo porque para o estado este limite entre os direitos culturais de um e do outro n茫o existe. E 茅 bom que n茫o seja feita essa distin莽茫o a priori. 脡 importante que caiba a quem faz classificar o seu fazer cultural como arte ou n茫o. N茫o caber谩, por exemplo, 脿 academia, fazer essa distin莽茫o, haja visto que o que se discute na academia acontece fora dela. A academia estuda a arte e a cultura e os sujeitos que a fazem podem passar pela academia mas n茫o 茅 l谩 que se fazem, assim como n茫o 茅 l谩 que se faz o que os instiga. 脡 interessante a iniciativa da Funarte do ponto de vista academico, mas 茅 t茫o importante quanto atentar para o risco de que essa distin莽茫o a priori entre quem 茅 artista e quem n茫o 茅 no grande campo do fazer cultural pode resultar em reserva de mercado (e de direitos!) baseado em um olhar corporativista e elitista sobre os diversos, ancestrais e transversais processos de cria莽茫o e recria莽茫o da arte e da cultura.

    1. Marcelo Bones disse:

      Prezado Leo Damasio. N茫o consegui responder diretamente ao seu coment谩rio. Fa莽o ent茫o assim:
      Prezado Leo,
      Concordo que, em sentido antropol贸gico, toda arte nasce e circula dentro de sistemas culturais. A distin莽茫o que defendo n茫o 茅 ontol贸gica; n茫o estou dizendo que arte vive fora da cultura, mas apontando uma necessidade operativa. Pol铆ticas focadas apenas em difus茫o, mem贸ria ou participa莽茫o social costumam falhar quando precisam financiar processos art铆sticos que demandam tempo de pesquisa, ensaio e infraestrutura. O artigo 216鈥慉 assegura express茫o e frui莽茫o a todas as pessoas, e o pr贸prio texto constitucional prev锚 instrumentos espec铆ficos para isso: prote莽茫o do patrim么nio, est铆mulo 脿 produ莽茫o cultural independente e valoriza莽茫o da diversidade art铆stica. Criar linhas exclusivas para pesquisa e cria莽茫o n茫o contraria esses princ铆pios, desde que existam outras linhas que apoiem as demais express玫es culturais. Trata鈥憇e de calibrar pol铆ticas para que nenhum segmento fique descoberto, n茫o de reservar mercado.
      Quanto ao receio de um olhar corporativista, considero a preocupa莽茫o leg铆tima. A solu莽茫o passa por crit茅rios p煤blicos e transparentes, avaliados por pares de trajet贸rias variadas. Dessa forma, qualquer pessoa ou coletivo que se apresente como artista pode concorrer, mas a sele莽茫o levar谩 em conta a coer锚ncia com o objetivo daquela linha de fomento. Assim evitamos filtros elitistas e garantimos que a arte continue a cumprir sua fun莽茫o de inven莽茫o, enquanto outras pol铆ticas seguem protegendo e promovendo o vasto campo cultural em todas as suas manifesta莽玫es.

  3. Yulo cezzar disse:

    Fala isso ha anos: Cultura n茫o 茅 arte,mas Arte 茅 cultura! O entendimento disso parece complicado para os gestores de cultura. De alguma forma 茅 o que explana no seu texto.

  4. Gilberto Mauro disse:

    Exato. Sempre chamo aten莽茫o para o ponto da distin莽茫o entre a Arte e a Cultura. Mas mas muitas vezes parece que clamo 脿s pedras, entre olhares cruzados. N茫o ha discuss茫o sobre isso. 脡 ressentimento? N茫o sei. A arte muitas vezes trabalha no contrap锚lo da cultura. A arte gesta uma nova cultura. Ela oferta, aponta! Eu sou artista e sou um criador escanfandrista. Ou seja, submerso, explorador.
    Falando de forma mais objetiva, a qual pra mim 茅 simples, n茫o vi a Funarte retomar a posi莽茫o da arte. E sim, meu caro ! Editais editais n茫o mexem nas estruturas! Precisamos do Sistema 脷nico de Cultura. Abra莽o.

  5. Carol Andrade disse:

    Muito importante isso: quando a arte e a cultura s茫o colocadas como equivalentes, as avalia莽玫es dos projetos refor莽am uma certa 鈥渓贸gica utilit谩ria鈥 da arte deixando de lado o incentivo 脿 pesquisa e cria莽茫o. Isso me faz pensar na dificuldade que 茅 para um artista defender seu projeto enquanto suas ideias criativas acompanham o projeto nos 鈥渁nexos鈥 e podem ou n茫o receber uma pontua莽茫o subjetiva complementar.. enquanto os crit茅rios principais avaliam quest玫es utilit谩rias do corpo do projeto. important铆ssima essa coloca莽茫o e diferencia莽茫o ao menos na avalia莽茫o.

  6. Queiroz de Almeida disse:

    Concordo plenamente! 脡 fundamental distinguir arte de cultura nas pol铆ticas p煤blicas. A arte, como linguagem aut么noma e espa莽o de inven莽茫o, n茫o pode ser reduzida a instrumento social ou pedag贸gico. 脡 necess谩rio garantir fomento espec铆fico que reconhe莽a os tempos, os processos e a complexidade do fazer art铆stico, assegurando sua fun莽茫o cr铆tica e transformadora na sociedade.

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