
1
Desde Jos茅 de Anchieta os 铆ndios t锚m servido a alegorias na literatura que viria a se chamar brasileira. Os 铆ndios foram dem么nios em Anchieta, foram reis na alegoria do regic铆dio no panfleto anti-jesu铆tico聽O Uraguai, foram crist茫os antes mesmo do contato na alegoria da convers茫o no in铆cio do聽Caramuru. A partir de Gon莽alves de Magalh茫es, Gon莽alves Dias e Jos茅 de Alencar, os 铆ndios foram pe莽as-chave nas alegorias da nacionalidade compostas pelos rom芒nticos. Conforme Alfredo Bosi em聽Dial茅tica da coloniza莽茫o, Alencar representava o papel do ind铆gena na forma莽茫o nacional sob o paradigma (aleg贸rico) do sacrif铆cio. 脡 tamb茅m uma leitura aleg贸rica que a Antropofagia de Oswald de Andrade faz da cultura brasileira e 茅 como alegoria estilha莽ada que M谩rio de Andrade, no聽Macuna铆ma, aproveita os mitos聽pemon聽[nota 1]聽recolhidos por Theodor Koch-Gr眉nberg e editados no segundo volume de seu聽Vom Roraima zum Orinoco聽(1916).
A vontade de alegoria acompanha a literatura daqui desde antes de se saber brasileira. At茅 o s茅culo XVIII, a alegoria era uma forma nobre de express茫o, codificada nas regras da ret贸rica antiga e aplic谩vel a diversos contextos, sobretudo na tem谩tica crist茫. Obras como o聽Comp锚ndio narrativo do peregrino da Am茅rica, hoje quase n茫o lida, eram comuns e populares (basta ver a popularidade mundial do聽Pilgrim鈥檚 Progress). A alegoria, isto 茅, a figura de pensamento que, por semelhan莽a, 鈥渄iz b para significar a鈥澛[nota 2], era utilizada nos mais diversos g锚neros, do breve poema l铆rico a 茅picos extensos como o Caramuru.
Com o advento da est茅tica rom芒ntica, a alegoria foi repudiada em prol do s铆mbolo: enquanto este significaria o geral ou ideal de maneira imediata, a alegoria seria artificial e exterior ao conceito聽[nota 3]. Apesar de reprimida, a alegoria se manifestou a todo momento no romantismo brasileiro e no que vir铆amos a chamar de 鈥渞ealismo鈥 鈥 basta ver sua recorr锚ncia na obra de Machado de Assis (em in煤meros contos, como 鈥淯m ap贸logo鈥, e em alguns romances, como, creio,聽Esa煤 e Jac贸). Se a literatura brasileira posterior teve um marco naturalista (uma obsess茫o em retratar o Brasil, como argumentado por, entre outros, Flora S眉ssekind), o retrato que fez do Brasil encapsulava em algumas figuras (o sertanejo, o malandro, o bandido, o pol铆tico corrupto) significa莽玫es que, formando um mapa conceitual de certa imagem da na莽茫o, s贸 se podem chamar aleg贸ricas.
Notemos, no entanto, que, ao contr谩rio do 鈥淯m ap贸logo鈥, de Machado de Assis, e das聽F谩bulas聽de La Fontaine, a maior parte das alegorias n茫o se diz alegoria. O leitor necessita de indica莽玫es indiretas ou de um esfor莽o interpretativo para encontr谩-las nos textos. Na tradi莽茫o ret贸rica, a alegoria se divide entre 鈥渁legoria dos poetas鈥, ou a alegoria que se encontraria 鈥渘a obra鈥, e 鈥渁legoria dos te贸logos鈥, ou a alegoria que se descobre a partir do trabalho hermen锚utico. O segundo tipo se refere 脿 tradi莽茫o medieval de interpretar a B铆blia de forma n茫o-literal, fazendo com que passagens do Antigo Testamento prefigurem o advento de Cristo, o Ju铆zo Final ou mesmo certos eventos hist贸ricos. Os serm玫es do padre Antonio Vieira geralmente se constroem em torno de jogos aleg贸ricos 鈥渄e te贸logo鈥. Esta alegoria 鈥渜ue interpreta鈥 comparecia no esfor莽o rom芒ntico de ler o passado colonial como express茫o da nacionalidade de uma na莽茫o que ainda n茫o havia. Desde o聽Resumo da hist贸ria liter谩ria de Portugal, seguido do resumo da hist贸ria liter谩ria do Brasil, de Ferdinand Denis (1826), os cantos ind铆genas foram considerados como hip贸tese, sempre presente mas nunca efetivada, de in铆cio de uma literatura brasileira. Os brasis聽[nota 4], assim, seriam a origem do Brasil.
2
Na tentativa de fazer um panorama da fic莽茫o dos anos 1970, Davi Arrigucci Jr.聽[nota 5]聽fala de uma certa tens茫o entre realismo e alegoria presente no per铆odo. Para ele, a tentativa de retratar o contempor芒neo em romances de Antonio Callado, Jos茅 Louzeiro e Paulo Francis recai no aleg贸rico ao tentar ser realista.聽L煤cio Fl谩vio聽e聽Aracelli, de Louzeiro, est茫o pelo (ou por certo) Brasil, assim como o 鈥渢errorismo鈥 e o movimento das classes pol铆ticas seriam explica莽玫es privilegiadas da hist贸ria brasileira em聽Reflexos do baile, de Callado. Neste 煤ltimo caso, para o cr铆tico, o romance recai na abstra莽茫o ao ignorar o papel do povo. A parcialidade dos panoramas 鈥 criminalidade para Louzeiro, viol锚ncia e pol铆tica para Callado, as classes dirigentes para Francis 鈥 indica o car谩ter aleg贸rico dos romances e impede a realiza莽茫o completa de seu realismo. Nesta oposi莽茫o, Arrigucci segue Gyorgy Luk谩cs. Outros te贸ricos de tradi莽茫o marxista, como Walter Benjamin e Fredric Jameson, valorizam o papel da alegoria.
Quarup聽traz um amplo panorama social dos anos 1950-1960, do segundo governo Vargas ao in铆cio da ditadura civil-militar. O leitor adentra, ao longo do romance, o mundo do clero, da alta burocracia do Rio de Janeiro, das etnias ind铆genas xinguanas, dos camponeses e dos pescadores pernambucanos. Sua amplitude de vis茫o 茅 rara na literatura brasileira. Lembro poucas obras posteriores compar谩veis sob este aspecto, como聽Viva o povo brasileiro, de Jo茫o Ubaldo Ribeiro, e聽Um defeito de cor, de Ana Maria Gon莽alves. Ou talvez alguns momentos do cinema de Glauber Rocha (Terra em transe,聽A idade da terra).
Neste amplo quadro, a alegoria frequentemente se explicita. Os in煤meros di谩logos do romance, que, talvez, sejam a maior parte do seu texto, introduzem diversas teorias a partir das quais as personagens leem o mundo. Como nas leituras medievais, o mundo 茅 interpretado a partir do 茅ter ou lan莽a-perfume (pelo personagem Falua), a partir dos antigos rem茅dios de matriz francesa (por Ramiro), da luta de classes (por uma s茅rie de personagens, como Ot谩vio) ou da sexualidade (pelo protagonista, Nando). O pedante Lauro alegoriza explicitamente ao ler o Brasil atrav茅s das narrativas ind铆genas do jabuti聽[nota 6].
Tanta alegoria de te贸logo evidencia uma alegoria de poeta: a viagem errante dos personagens em busca do centro geogr谩fico do Brasil nos indica que a discuss茫o passa pela nacionalidade. Os personagens querem ligar o Brasil atrav茅s de estradas, refundar a Rep煤blica Guarani, alcan莽ar a ra莽a c贸smica pela miscigena莽茫o, alcan莽ar a Revolu莽茫o. O mais realista deles, o sertanista alco贸latra Fontoura, quer a demarca莽茫o do Parque Ind铆gena do Xingu, para que os 铆ndios fossem protegidos, preferencialmente por uma cerca de arame farpado (鈥淓letrificado. Contra o Brasil.鈥, p. 161 de聽Quarup). Mesmo Fontoura, no entanto, diz ouvir um cora莽茫o batendo na terra, ao, no momento da morte, entrar no grande formigueiro de sa煤vas do centro geogr谩fico. E 茅 um centro perdido, seja o da na莽茫o, seja em uma mulher (S么nia, Francisca), que os personagens buscam.
O t铆tulo de聽Quarup聽vem do ritual funer谩rio alto-xinguano, que envolve a visita de ind铆genas de outras comunidades e etnias para a celebra莽茫o da morte de um l铆der ou figura importante. Nesta celebra莽茫o, s茫o decorados troncos rituais de madeira, que s茫o levados at茅 a 谩gua ao final dos v谩rios dias de ritual acompanhado por comida e combates. O t铆tulo indica a morte como um dos temas recorrentes no romance. A narrativa se inicia no ossu谩rio de um mosteiro. O cl铆max do ritual do Kuarup (como hoje se prefere grafar) representado na obra se entrela莽a com a chegada via r谩dio da not铆cia do suic铆dio de Get煤lio Vargas. A morte de Fontoura marca o anticl铆max da descoberta do formigueiro do centro geogr谩fico. E a morte de Levindo, o jovem revolucion谩rio noivo de Francisca, direcionar谩 o caminho de Nando.
O rito funer谩rio ind铆gena se duplica num jogo de espelhos que prepara a transforma莽茫o final do protagonista. Como no rito ind铆gena que se conclui ao final do terceiro cap铆tulo, 鈥淎 ma莽茫鈥, um jovem l铆der morto 鈥 Levindo 鈥 茅 comemorado no banquete oferecido por Nando no pen煤ltimo cap铆tulo, 鈥淎 praia鈥. Como no Kuarup, a morte se comemora com muita comida e com combates (contra provocadores da Marcha da Fam铆lia, que ocorre ao mesmo tempo). E, assim como os quarups (os troncos rituais) s茫o levados ao rio, Nando acaba no mar, espancado por dois policiais.
Na mitologia do povo kamaiur谩, o her贸i Mavutsinim, que havia criado os 铆ndios e os brancos, faz um ritual para ressuscitar os mortos decorando tr锚s troncos de madeira. O ritual nunca se completa porque um ind铆gena desrespeita a ordem de n茫o sair da oca quem tivesse feito sexo durante a noite. Assim, a ressurrei莽茫o no Kuarup n茫o ocorre e os troncos s茫o jogados ao rio.
Nando completa a ressurrei莽茫o no 鈥淨uarup鈥 ao final do livro. Jogado ao mar, torna-se ef铆gie do morto e renasce para descobrir um novo futuro, adotando o nome de Levindo e acompanhando Manoel Tropeiro para a resist锚ncia no sert茫o. Descobre que 鈥淔rancisca 茅 apenas o centro de Francisca鈥 (p. 600) e que sua fixa莽茫o amorosa podia ficar para tr谩s ou ser sublimada. A passagem de Nando ao novo Levindo lembra, ainda, o rito antropof谩gico dos tupinamb谩 da costa brasileira no s茅culo XVI. 脡 atrav茅s de um jantar ritual que Nando se transforma em seu rival (rival pelo amor de Francisca) e adquire um novo nome.
A morte se duplica na ressurrei莽茫o, ainda que enquanto nome 鈥 como disse Ferreira Gullar em poema de poucos anos depois, 鈥渁 vida muda o morto em multid茫o鈥. O Kuarup, ritual funer谩rio xinguano, se conjuga com o cristianismo para anunciar o futuro vindouro (Levindo), ao mesmo tempo chegada do Messias e o Ju铆zo Final anunciado pelo padre Andr茅. Ut贸pica e alegoricamente, 茅 uma certa Revolu莽茫o que se anuncia, embora n茫o a revolu莽茫o prolet谩ria marxista. A organiza莽茫o da massa pr茅-moderna de desvalidos no governo Arraes de Pernambuco se interrompe pelo golpe militar. A moderniza莽茫o das rela莽玫es no campo n茫o acontece e os camponeses n茫o chegam a se tornar prolet谩rios das usinas de a莽煤car.
Os personagens buscam m煤ltiplos centros no romance, mas estes s茫o 鈥渁penas o centro鈥 do que buscam. Como o centro geogr谩fico do Brasil, recoberto de sa煤vas (e no qual Fontoura morre com 鈥減ouca sa煤de鈥), as buscas dos personagens envolvem um elemento de permanente insatisfa莽茫o, de deslocar o objeto do desejo para ainda al茅m, sempre mais al茅m. Pode-se ler este afastamento permanente como culminando na transforma莽茫o final de Nando, que mostra que, desejando Francisca, ele desejava na verdade Levindo, isto 茅, a si mesmo. No entanto, fica em aberto se esta 茅 mais uma etapa (se Nando/Levindo ainda se transformar谩) ou se o percurso realmente chegou ao fim.

3
Enquanto alegoria da nacionalidade, Quarup representa uma permanente busca por uma ess锚ncia do Brasil e uma cont铆nua proje莽茫o de uma utopia nacional. Os 铆ndios e a Rep煤blica Guarani, a miscigena莽茫o e a ra莽a c贸smica, os oprimidos e o M茅todo Paulo Freire 鈥 ess锚ncias e utopias parecem caminhar juntas. Os personagens discutem 脿 exaust茫o o que 茅 o Brasil e agem em prol de sua ideia de na莽茫o, mesmo que os acontecimentos os solapem.
Ocorre, por茅m, que, por mais que se discuta, os brasis insistem em n茫o ser origem de nada. Ao chegar ao Xingu, Nando cai numa pe莽a aprontada por seus colegas de viagem, que encomendam por r谩dio uma encena莽茫o: um casal de 铆ndios se veste de Ad茫o e Eva e aparece comendo uma ma莽茫, numa aldeia aparentemente vazia. Como a brincadeira indica, o Xingu n茫o 茅 o 脡den nem os 铆ndios s茫o os primeiros humanos. Conhecer os 铆ndios atropela as proje莽玫es teol贸gicas de Nando e enterra o sonho da Rep煤blica Guarani. Nem s铆mbolo, nem reserva de trabalho (como Fontoura explica aos visitantes), os 铆ndios reais n茫o se encaixam nas pressuposi莽玫es da nacionalidade.
Para o sertanista Fontoura, os 铆ndios t锚m que sobreviver e deixar de serem 鈥渃hateados鈥. Este 茅 o prop贸sito da funda莽茫o do Parque do Xingu. Qualquer demarca莽茫o, no entanto, delimita um 鈥渄entro鈥 e um 鈥渇ora鈥. Fontoura parece acreditar na conviv锚ncia entre certa ideia de desenvolvimento nacional e a preserva莽茫o dos povos ind铆genas dentro do Parque. Seu melhor amigo 茅 Vidal, que tem como miss茫o de vida construir a Transbrasiliana, estrada que permitiria ao brasileiro conhecer seu pr贸prio pa铆s.聽Experi锚ncias posteriores viriam a mostrar que a constru莽茫o de estradas 茅 geralmente uma p茅ssima not铆cia para os povos ind铆genas. O genoc铆dio do povo Waimiri-Atroari na constru莽茫o da estrada Manaus-Boa Vista durante a ditadura militar foi apenas o caso mais extremo. Mesmo experi锚ncias menos diretamente violentas, como a constru莽茫o da Perimetral Norte no territ贸rio ianom芒mi, levaram fome e doen莽as. No romance, o rompimento entre Fontoura e Vidal se d谩 quando o segundo aceita trabalhar com o grileiro Gon莽alo, evidenciando a liga莽茫o entre a constru莽茫o de estradas e a expropria莽茫o das terras ind铆genas.
H谩, assim, uma tens茫o entre a sobreviv锚ncia e preserva莽茫o dos 铆ndios, defendidas por Fontoura, e as iniciativas desenvolvimentistas que aflorariam no governo de Juscelino Kubitschek. Menos evidente no texto 茅 a tens茫o entre a posi莽茫o de Fontoura e o reformismo social de Arraes e Jango. Se a terra 茅 o problema tanto para 铆ndios quanto para camponeses, este problema n茫o tem a mesma forma e sentido. Enquanto conscientiza莽茫o e desenvolvimento andam lado a lado na a莽茫o pedag贸gica de Francisca e Nando em Pernambuco, Fontoura deixa claro que nenhuma das duas entra em sua concep莽茫o do Parque do Xingu: os 铆ndios n茫o precisam ser convertidos nem se tornarem parte do mundo do trabalho.
Estando antes e n茫o sendo origem 鈥 ou sendo 鈥渁penas origem鈥 鈥, os povos ind铆genas n茫o encontram lugar est谩vel nas diversas alegorias nacionais de Quarup. Os ind铆genas s茫o o n茫o-alegoriz谩vel, o que escapa aos impulsos de interpreta莽茫o ou teoria do Brasil. Seu lugar s贸 pode ser est谩vel se fixado na origem, se o 鈥溍璶dio verdadeiro鈥 茅 aquele do Descobrimento ou algum raro 铆ndio contempor芒neo sempre e cada vez mais long铆nquo (o ianom芒mi, o isolado). Definir um 铆ndio verdadeiro, por茅m, como advertiu Eduardo Viveiros de Castro聽[nota 7], 茅 tamb茅m estabelecer um limite e dizer quem n茫o 茅 铆ndio, quem pode ser 鈥渆mancipado鈥 (como queria a ditadura), 鈥渋ntegrado鈥 ao mundo do trabalho, quem, em 煤ltima inst芒ncia, pode ser esquecido e eliminado. Em聽Quarup, um romance sobre a morte, a dizima莽茫o de todo um povo por uma epidemia de sarampo n茫o merece ritual ou comemora莽茫o, e muito menos ressurrei莽茫o.
4
Com as cr铆ticas que se possam fazer a algumas posturas e a莽玫es dos envolvidos na campanha pelo Parque do Xingu (como o marechal Rondon, Darcy Ribeiro e os irm茫os Villas-Boas), permanece o fato de que sua cria莽茫o foi uma esp茅cie de milagre. Como o foram, ali谩s, a prote莽茫o aos direitos ind铆genas na Constitui莽茫o de 1988, a demarca莽茫o da Terra Ind铆gena Ianom芒mi e de todas as outras que foram demarcadas nas d茅cadas de 1990 e 2000. Contra toda a m谩quina grileira do Estado e do Capital, ind铆genas e aliados tiveram conquistas que permitiram a sobreviv锚ncia de diversos povos e a recupera莽茫o de alguns. 脡 o caso dos Yawalapiti, que aparecem em聽Quarup聽com uma popula莽茫o de apenas 17 indiv铆duos, mas que posteriormente se recuperaram (os dados atuais falam em 262).
As amea莽as, por茅m, nunca deixaram de existir. O Estado brasileiro continuou com os projetos de coloniza莽茫o da Amaz么nia estabelecidos na ditadura: uma infraestrutura de estradas e barragens que facilitariam a explora莽茫o econ么mica e o povoamento da regi茫o. Nos anos 1980 e 1990, foram o garimpo e a promessa de terras que atra铆ram pessoas para a regi茫o, devastando territ贸rios, poluindo rios e introduzindo epidemias. A constru莽茫o da Usina de Belo Monte inaugurou uma nova fase de interven莽茫o mais direta do Estado, que parece ter sido momentaneamente interrompida pelos esc芒ndalos ligados a empreiteiras e pela crise econ么mica. Por alterarem o fluxo dos rios, Belo Monte e outras barragens e usinas planejadas pelo Estado brasileiro t锚m o potencial de destruir modos de vida inclusive dentro de terras ind铆genas demarcadas (pois afetam a pesca e todo o ecossistema).
O projeto de colonizar a Amaz么nia, de levar o Brasil para o interior, depende de uma leitura da na莽茫o. Ler o Brasil como te贸logo, transform谩-lo em alegoria, tem o potencial de apagar as diferen莽as que n茫o se permitem subsumir. Simbologias s茫o importantes neste processo, pois denotam as leituras que est茫o sendo feitas e que orientam a a莽茫o pol铆tica. Um lema como o do governo atual, 鈥淥rdem e progresso鈥, n茫o pode sen茫o excluir o que n茫o aceita determinada ordem e o que n茫o se insere em certa no莽茫o de progresso. Poderia ser apenas uma tentativa de marcar a legitimidade de um grupo que chegou l谩 sem voto, pela associa莽茫o 脿 bandeira como s铆mbolo nacional, mas o lema se desdobra em discursos e a莽玫es. Discursos como os de um ministro que quer ensinar 铆ndio a pescar e os de um presidente da Funai que quer 鈥渆xplorar鈥 riquezas em terras ind铆genas (voluntariamente esquecendo a hist贸ria genocida do garimpo na Amaz么nia). A莽玫es como as de deputados e senadores que est茫o legislando para reduzir 谩reas protegidas e derrubar proibi莽玫es 脿 minera莽茫o, ou as de outros deputados e senadores (alguns, os mesmos) que est茫o envolvidos em den煤ncias de grilagem, desmatamento, trabalho escravo e garimpo ilegal.
A alegoria do Brasil que pretende, sob a 茅gide da Na莽茫o, apagar as diferen莽as que estiverem no caminho do 鈥減rogresso鈥 sempre esteve em nossas classes dirigentes, desde a Independ锚ncia e os 鈥淧rojetos para o Brasil鈥 de Jos茅 Bonif谩cio (ou o 鈥淢emorial org芒nico鈥 de Francisco Adolfo de Varnhagen, que teve a vantagem de ser mais sincero ao propor novas entradas e bandeiras para 鈥渃ivilizar鈥 铆ndios). Em alguns poucos momentos, como na Constitui莽茫o, a resist锚ncia conseguiu algumas vit贸rias contra o apagamento e o genoc铆dio. Em outros, como no per铆odo de 2003 a 2015, articula莽玫es pol铆ticas complexas levaram a resultados muitas vezes d煤bios, outras francamente inaceit谩veis (como Belo Monte). Foi somente neste 煤ltimo ano, no entanto, que parece que as luvas foram retiradas e o discurso p煤blico de certo grupo p么de se mostrar com franqueza 鈥 foi somente neste per铆odo que o projeto de parte da elite pol铆tica de reverter os direitos da Constitui莽茫o de 1988, inclusive os direitos ind铆genas, p么de se mostrar sem m谩scaras.
Quarup聽enceta um jogo de alegorias do Brasil em di谩logo, propondo e transformando ess锚ncias e utopias. Mesmo que em tom eleg铆aco, o romance preserva o espa莽o do n茫o-alegoriz谩vel dos povos ind铆genas. Neste momento uma alegoria quer se impor como a 煤nica 鈥 o dissenso deve, conforme a frase t茫o repetida em redes sociais, 鈥渋r pra Cuba鈥. Nesta nova P谩tria Grande, nesta interpreta莽茫o reativa do Brasil, n茫o h谩 espa莽o para os ind铆genas, n茫o h谩 terra e territ贸rio para 铆ndio.
Neste ano completa-se vinte anos da morte de Galdino Jesus dos Santos, lideran莽a patax贸 queimada viva numa parada de 么nibus em Bras铆lia. Como no poema de Gullar, que o morto se transforme em multid茫o.
NOTAS
[nota 1]聽Os聽pemon聽s茫o povos que habitam a fronteira entre Venezuela, Guiana e Brasil.
[nota 2]聽Hansen, Jo茫o Adolfo.聽Alegoria: constru莽茫o e interpreta莽茫o da met谩fora. S茫o Paulo: Atual, 1986. (S茅rie documentos). P谩gina 1.
[nota 3]聽De Alegoria: constru莽茫o e interpreta莽茫o da met谩fora, p谩gina 6.
[nota 4]聽Esta 茅 uma das formas com que os cronistas e viajantes do s茅culo XVI se referem aos ind铆genas.
[nota 5]聽Arrigucci Jr, Davi.聽Jornal, realismo, alegoria (romance brasileiro recente)聽(entrevista). Remate de Males, 1, p. 10-50, 1980. Dispon铆vel em聽http://revistas.iel.unicamp.br/index.php/remate/article/view/2715
[nota 6]聽O jabuti 茅 um personagem recorrente de mitologias amaz么nicas. Em muitas hist贸rias, ele vence outros animais, como a anta e a on莽a, atrav茅s da esperteza. Callado parece se referir a fontes do s茅culo XIX para estes mitos, como Charles Frederik Hartt,聽Mitos amaz么nicos da tartaruga聽(1875) e聽O selvagem, de Couto de Magalh茫es (1876).
[nota 7]聽Viveiros de Castro, Eduardo; Sztutman, Renato (org).聽Encontros Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Azougue, 2007.
Fonte: Portal Pernambuco – texto de Pedro Mandagar谩
Imagem 1: Portal Pernambuco
Imagem 2: Portal Sevenponds
CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O Revista Observat贸rio da Diversidade Cultural, volume 104, n潞 01/2026 Diversidade Cultural e A莽茫o Comunit谩ria: possibilidades, experi锚ncias e desafios Per铆odo para submiss茫o: 09 de mar莽o a 04 de maio de 2026 A Revista do Observat贸rio da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideran莽as comunit谩rias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]