Incra/Divulga莽茫o

NOT脥CIAS

Nos quilombos, coronav铆rus mata um por dia

Lideran莽as hist贸ricas est茫o entre as mais de cem mortes e quase mil infectados. Quilombolas tamb茅m relataram racismo na busca de testagem e atendimento

Imagem capa: Incra/Divulga莽茫o

REPRODU脟脙O: Ag锚ncia P煤blica

Texto: Rafael Oliveira | Infogr谩ficos: Bruno Fonseca

 

Nos quilombos da regi茫o dos Lagos, no Rio de Janeiro, a Covid-19 fez v铆tima uma das mais importantes figuras quilombolas do estado, regi茫o que lidera as mortes entre quilombolas no pa铆s: 36 贸bitos. 鈥淒ona Uia era uma biblioteca viva, era a grande lideran莽a que lutava pela quest茫o territorial. Uma mulher honesta, sincera, que ganhou credibilidade e as comunidades come莽aram a reivindicar seus direitos鈥, conta Jane Oliveira, sobrinha de Carivaldina Oliveira da Costa, a dona Uia. Ela deixou seis filhos, oito irm茫os e sua m茫e, Dona Eva, a matriarca de 110 anos do Quilombo da Rasa, com quem compartilhava as hist贸rias, os cantos e a mem贸ria. Eva, que ainda n茫o sabe da morte da filha, foi testada e o resultado para Covid-19 foi negativo.

Conhecida pelo sorriso largo, dona Uia faleceu no 煤ltimo dia 10 de junho, em B煤zios, a 170 km da capital fluminense. Dois dias antes de morrer, ela buscou o posto de sa煤de da regi茫o com febre e outros sintomas. Retornou para sua casa, mas continuou a se sentir mal. Internada na madrugada do dia 9 de junho, faleceu no dia seguinte, uma semana depois de completar 79 anos. Descendente de escravizados, ela ajudou na difus茫o da hist贸ria de seu povo e capitaneou o movimento quilombola na regi茫o desde o final dos anos 1990.

Al茅m de dona Uia, outros 118 quilombolas j谩 morreram v铆timas da pandemia de Covid-19 no pa铆s, segundo levantamento da Coordena莽茫o Nacional de Articula莽茫o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) 鈥 institui莽茫o que Uia ajudou a fundar. Em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), a Conaq 茅 quem tem acompanhado o avan莽o da Covid-19 nos quilombos de todo o pa铆s, j谩 que n茫o h谩 um registro nacional da situa莽茫o epidemiol贸gica da doen莽a entre a popula莽茫o remanescente.

Segundo o 煤ltimo boletim do Observat贸rio da Covid-19 nos Quilombos, h谩 ao menos 973 casos confirmados e outros 197 em monitoramento entre quilombolas de 16 estados brasileiros.

Desde o registro do primeiro 贸bito, em 11 de abril, a Conaq j谩 contabilizou mortes em 11 estados, com a m茅dia de 1,5 贸bito por dia. A situa莽茫o 茅 especialmente cr铆tica no Rio de Janeiro de dona Uia e no Par谩, que contabilizam 36 mortes e 33 mortes respectivamente. Amap谩, com 16 casos, Maranh茫o e Pernambuco, com 9 cada, tamb茅m lideram a lista de estados mais atingidos.

Infogr谩fico: Bruno Fonseca/Ag锚ncia P煤blica

 

Para a coordenadora e membra-fundadora do Conaq Giv芒nia Silva, o coronav铆rus aprofundou problemas j谩 hist贸ricos que as popula莽玫es quilombolas enfrentam. 鈥淪茫o comunidades que n茫o acessam os servi莽os de sa煤de, sem 谩gua, sem energia, sem internet. S茫o problemas que, num tempo 鈥渘ormal鈥, as comunidades convivem com essa aus锚ncia de pol铆tica. S贸 que num momento como esse, de uma pandemia com a velocidade e com a letalidade que 茅 a Covid-19, essas pol铆ticas fazem muito mais falta e deixam essas pessoas muito mais vulner谩veis鈥, afirma a lideran莽a quilombola.

Segundo a assessora do ISA Milene Maia, n茫o h谩 ainda uma atua莽茫o efetiva do poder p煤blico para conter a pandemia nas comunidades quilombolas. 鈥淰oc锚 n茫o consegue ter, por exemplo, uma informa莽茫o dos atendimentos que s茫o feitos pelas secretarias de sa煤de com esse recorte de ra莽a, apesar disso j谩 ser uma obriga莽茫o鈥, diz.

No 煤ltimo dia 16, o Senado Federal aprovou o projeto de lei 1.142, que estabelece um plano emergencial para proteger ind铆genas, quilombolas e demais comunidades tradicionais do coronav铆rus. O texto de autoria da deputada federal Professora Rosa Neide (PT/MT) aguarda san莽茫o presidencial.

De acordo com o IBGE, h谩 5.972 comunidades quilombolas no Brasil, n煤mero um pouco abaixo do contabilizado pela Conaq, que fala em 6.330. Pouco mais de metade dos territ贸rios (3.432) s茫o certificados pela Funda莽茫o Cultural Palmares (FCP), e apenas 182 foram titulados.

A condu莽茫o da presid锚ncia da Funda莽茫o Cultural Palmares feita por S茅rgio Camargo 鈥 que chamou o movimento negro de 鈥渆sc贸ria maldita鈥, Zumbi dos Palmares de 鈥渇ilho da puta que escravizava pretos鈥, e uma m茫e de santo de 鈥渕acumbeira鈥 鈥 茅 alvo de cr铆ticas do movimento quilombola. De mar莽o at茅 agora, Camargo n茫o recebeu nenhum representante do movimento negro.

鈥溍 um 贸rg茫o que poderia estar preocupado em pelo menos ajudar a mapear essas comunidades que est茫o com maior vulnerabilidade, e est谩 preocupado em desconstruir a hist贸ria das lideran莽as negras. 脷nica coisa que a Funda莽茫o Palmares tem se preocupado 茅 em fazer desservi莽o com a hist贸ria da popula莽茫o negra brasileira鈥, afirma a coordenadora do Conaq Giv芒nia Silva.

Para Magno Nascimento, integrante da Malungu, associa莽茫o de quilombolas do Par谩, a Palmares tem 鈥渇eito papel inverso daquele para qual ela foi criada鈥. 鈥淓la faz um papel de aumentar a preocupa莽茫o e o sofrimento dos quilombolas nesse momento. N贸s repudiamos veementemente o entendimento da Palmares de liberar a permiss茫o de obras dentro dos nossos territ贸rios. Nesse momento o foco deveria ser voltado para o combate ao coronav铆rus鈥, ressalta o quilombola. Magno se refere a falta de consulta pr茅via, livre e informada dos afetados pela constru莽茫o de uma linha de transmiss茫o de energia ligando os munic铆pios de 脫bidos, Juruti e Parintins (PA), onde vivem quilombolas e popula莽玫es ribeirinhas, situa莽茫o denunciada com exclusividade pela P煤blica.

No Rio de Dona Uia, 36 quilombolas j谩 faleceram de coronav铆rus

Al茅m do Quilombo da Rasa, onde vivia dona Uia e cerca de 800 fam铆lias, o Rio de Janeiro tem outras 40 comunidades quilombolas certificadas pela FCP, sendo que apenas tr锚s delas t锚m seu territ贸rio titulado pelo Instituto Nacional de Coloniza莽茫o e Reforma Agr谩ria (Incra). Das mortes por coronav铆rus, quatro 贸bitos foram em B煤zios, onde fica Rasa. Os dados foram levantados pela Acquilerj, associa莽茫o quilombola do estado, junto 脿 secretaria de sa煤de do RJ, e repassados 脿 Conaq.

O n煤mero pode ser ainda maior, j谩 que a popula莽茫o quilombola do Rio enfrenta dificuldades para conseguir ser testada, segundo a sobrinha de dona Uia e coordenadora nacional do Conaq, Jane Oliveira. 鈥淎gora que come莽aram a liberar exame, depois dessas mortes. Eu at茅 achei que eles estavam de preconceito, porque s贸 estavam fazendo exame nos brancos. Meu esposo n茫o 茅 negro, fez o exame com maior tranquilidade. Voc锚 mandava um negro, n茫o estavam testando. Eu falei com a Secretaria de Sa煤de do Rio (SES-RJ), porque a gente estava se sentindo discriminado, agora eles est茫o testando todo mundo鈥, explica.

Segundo ela, muitos tamb茅m deixam de procurar o sistema de sa煤de por medo de se contaminar, e faz falta a presen莽a dos agentes comunit谩rios de sa煤de na regi茫o durante a pandemia. Al茅m de Uia, a fam铆lia de Jane tamb茅m tem mais cinco casos confirmados. Seu tio, o ex-vereador de B煤zios conhecido como Valmir da Rasa testou positivo, assim como sua esposa. Dois filhos de dona Uia tamb茅m foram diagnosticados e a pr贸pria Jane teve sintomas da doen莽a e testou positivo para Covid-19 na 煤ltima sexta (26).

V铆tima da Covid-19, Dona Uia impulsionou movimento quilombola no Rio de Janeiro. Foto: Divulga莽茫o/Ricardo Alvez

 

Formada na luta social por dona Uia e uma das respons谩veis por dar continuidade a seu legado, Jane Oliveira vive no Quilombo Maria Joaquina, que faz fronteira com a comunidade da Rasa, mas est谩 localizado na cidade de Cabo Frio. H谩 cerca de 200 fam铆lias que moram na comunidade. De acordo com a lideran莽a de 45 anos, h谩 quase 40 casos confirmados na sua regi茫o, al茅m de mais de 200 casos suspeitos ainda sem diagn贸stico.

Segundo a representante da Conaq no Rio de Janeiro a doen莽a se espalhou nos munic铆pios da regi茫o dos Lagos principalmente atrav茅s das mulheres que trabalham como empregadas dom茅sticas. 鈥淎s pessoas que t锚m casas nos condom铆nios est茫o vindo direto. No final de semana, no feriado, B煤zios estava lotado. Como eles t锚m conta de 谩gua, de luz, [passam pela barreira sanit谩ria] e v茫o entrando, e a铆 as patroas estavam for莽ando as dom茅sticas a trabalhar. Est谩 todo mundo com medo do desemprego aqui, ent茫o as dom茅sticas estavam indo, mesmo com muito medo, e acabavam sendo contaminadas鈥, conta Jane.

Para a lideran莽a quilombola, a atua莽茫o do governo local tem sido 鈥渕uito devagar鈥, al茅m de n茫o contemplar a maioria da popula莽茫o dos quilombos. 鈥淎 prefeitura de B煤zios liberou cesta b谩sica pra quem tinha filho na escola e bolsa fam铆lia, s贸 que no quilombo da Rasa a maioria j谩 n茫o tem mais filho na escola e n茫o tem bolsa fam铆lia, porque a maioria trabalhava, mas [com a pandemia] ficou desempregada鈥, explica.

Sem terras para plantar, a maioria da popula莽茫o quilombola da regi茫o ganha a vida trabalhando na pesca, no artesanato, na constru莽茫o civil, nas praias ou na hotelaria, al茅m dos servi莽os de limpeza de casas. Com as restri莽玫es impostas pela pandemia, os hot茅is passaram a demitir e a constru莽茫o civil, assim como as feiras onde os quilombolas vendem seus produtos, tiveram suas atividades suspensas.

Com o aumento do desemprego, muitos buscaram o aux铆lio emergencial pago pelo governo federal, mas a maioria encontrou dificuldades para conseguir o benef铆cio. 鈥淥 povo ficou indignado por causa da elei莽茫o, ent茫o n茫o votou. Quem teve o t铆tulo cancelado e n茫o tem o Cadastro 脷nico n茫o conseguiu acessar, muita gente ficou de fora. Na minha casa o meu esposo n茫o conseguiu acessar鈥, diz Jane.

Paralelamente 脿 pandemia, os quilombolas da regi茫o dos Lagos tamb茅m resistem 脿 press茫o da especula莽茫o imobili谩ria, com grandes empreendimentos e recorrentes invas玫es. A titula莽茫o do Quilombo da Rasa, maior sonho de dona Uia, encontra-se na fase de contesta莽茫o. 鈥淓la contribuiu com muita coisa, e agora o que ela n茫o conseguiu terminar est谩 nas nossas m茫os, na m茫o da juventude, mais do que nunca. Vamos firmar nosso espa莽o e dizer que a gente n茫o abre m茫o de nenhum direito. Nenhum direito a menos鈥, protesta Jane.

Hidroxicloroquina: 鈥淩esolvi n茫o tomar mais, porque ia me matar鈥

Segundo estado mais afetado pelo coronav铆rus no pa铆s entre a popula莽茫o quilombola, o Par谩 j谩 contabiliza 33 贸bitos. O quilombola Magno Nascimento, de 42 anos, sentiu os primeiros sintomas da Covid-19 no final do m锚s de abril. Al茅m de febre e tosse, ele tamb茅m sofreu com dores no corpo e apresentou trombos, em especial nas pernas e no bra莽o esquerdo. Ele conseguiu atendimento em uma cl铆nica itinerante do governo do estado na capital Bel茅m, onde est谩 morando temporariamente com sua fam铆lia. Apesar dos sintomas id锚nticos ao da doen莽a, ele n茫o conseguiu realizar o teste para comprovar a infec莽茫o. 鈥淰oc锚 falava pro m茅dico que teve tosse e um pouco de febre e j谩 estava pronta a receita, j谩 estava at茅 o kit de medicamentos separados, pegava e cai fora pra n茫o atrapalhar na fila鈥, conta.

A medica莽茫o receitada para o quilombola foi a combina莽茫o de hidroxicloroquina e azitromicina, al茅m de antial茅rgicos e rem茅dios para dor. Apesar de ciente dos riscos da droga, ele resolveu seguir a orienta莽茫o m茅dica. 鈥淎cabei de tomar aquilo [a hidroxicloroquina] e era como se estivesse explodindo o meu cora莽茫o e o meu bra莽o do lado esquerdo. Mas pensei que tinha dado essa rea莽茫o porque eu estava muito ruim e quando 茅 no outro dia, tomei o segundo comprimido. N茫o deveria ter feito, foi ainda pior. Resolvi n茫o tomar mais, porque esse medicamento ia me matar鈥, relata Magno, que dois meses ap贸s os primeiros sintomas ainda n茫o est谩 totalmente recuperado.

Par谩 茅 um dos munic铆pios com mais mortes de quilombolas em decorr锚ncia do coronav铆rus. Foto: Cristino Martins /Ag锚ncia Par谩

 

Morador do Quilombo 脕frica, na cidade de Moju, ele resolveu ficar em Bel茅m desde o come莽o da pandemia, como precau莽茫o para preservar as pessoas do grupo de risco de sua comunidade. Apesar disso, o coronav铆rus chegou com for莽a em seu munic铆pio de origem, e tamb茅m em seu territ贸rio, localizado a cerca de 100 km da capital. Moju j谩 contabiliza oito 贸bitos por coronav铆rus, sendo dois deles no Quilombo 脕frica, onde vivem cerca de 500 pessoas. H谩 outras 26 comunidades quilombolas no munic铆pio.

Al茅m de conhecidos, de amigos e dele pr贸prio, a doen莽a tamb茅m atingiu a fam铆lia de Magno, com tr锚s de suas primas se infectando pelo coronav铆rus. 鈥淒ona Arminda ficou muito ruim do dia pra noite. A comunidade correu, conseguiu um carro e levou ela para uma unidade de pronto atendimento. Internou, mas ela faleceu 脿 noite. Ela tinha uma outra irm茫, dona Maria Piedade, que vivia na comunidade mas tinha vida fora tamb茅m, e oito dias depois ela tamb茅m faleceu鈥, relata o quilombola. A terceira irm茫, dona Leoc谩dia, que 茅 presidente da associa莽茫o local, conseguiu ser levada 脿s pressas pelos filhos para Bel茅m, e teve o custo dos exames bancado por uma 鈥渧aquinha鈥 entre amigos. Ela segue em tratamento na capital.

Respons谩vel pela coleta de dados sobre coronav铆rus no estado para a Conaq, Magno reclama da ina莽茫o do poder p煤blico. 鈥淧ara n茫o dizer que o estado do Par谩 n茫o fez nada em prol dos quilombolas, ele doou 300 litros de 谩lcool l铆quido e 19 mil m谩scaras, que n茫o d谩 para atender nem 50% das fam铆lias. Al茅m disso, posso te dizer categoricamente: nada. N茫o teve um plano de a莽茫o, n茫o teve uma campanha educativa鈥, afirma.

Atualmente, s茫o 618 casos confirmados, al茅m de quase 400 suspeitos em tratamento m茅dico, segundo dados da Coordena莽茫o Estadual das Associa莽玫es das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Par谩 (Malungu) e do N煤cleo de Estudos Interdisciplinares em Sociedade Amaz么nica, Cultura e Ambiente (Sacaca) da Universidade Federal do Oeste do Par谩 (Ufopa), que fazem o monitoramento no estado e repassam para a Conaq.

Se na capital Bel茅m, que j谩 chegou a ter 100% dos leitos de UTI da rede p煤blica ocupados, a doen莽a mostra uma pequena redu莽茫o no n煤mero de novos casos, no interior ela avan莽a cada vez mais, seguindo a tend锚ncia do pa铆s inteiro. 鈥淓ssa ida da doen莽a para o interior nos fragiliza muito, porque muitas das comunidades quilombolas est茫o mais pr贸ximas dos pequenos munic铆pios, que n茫o tem qualquer servi莽o de sa煤de de alta complexidade. Estamos vendo a situa莽茫o do Norte, em que as comunidades moram distantes e quando chegam na primeira cidade ela n茫o tem absolutamente nenhuma infraestrutura鈥, afirma a coordenadora nacional da Conaq Giv芒nia Silva.

Nas comunidades de Moju, que s贸 n茫o t锚m mais 贸bitos confirmados por Covid-19 do que as do Rio de Janeiro (RJ) e de Macap谩 (AP), os quilombolas tentam resistir 脿 doen莽a com ch谩s e medicamentos tradicionais, j谩 que o acesso ao sistema de p煤blico 茅 dif铆cil. Alguns moradores se revezam para fazer barreiras sanit谩rias com o objetivo de conter a dissemina莽茫o do coronav铆rus. Sem nenhum apoio do poder p煤blico, por茅m, eles encontram dificuldades para barrar pessoas estranhas.

Al茅m disso, a redu莽茫o do deslocamento entre as comunidades e as cidades pr贸ximas, assim como a necessidade de reduzir aglomera莽玫es, fizeram com que o sustento dos quilombolas fosse prejudicado. 鈥淪e eu n茫o posso aglomerar pra produzir, nem para comercializar, ent茫o automaticamente surge um preju铆zo. E temos uma preocupa莽茫o para al茅m do agora. Nesse momento era o per铆odo em que estar铆amos plantando, n贸s estar铆amos colhendo, limpando os a莽aizais, mas n茫o estamos podendo fazer isso agora. No ano que vem, n贸s teremos preju铆zos ainda maiores. 脡 preocupante鈥, afirma Magno.

鈥淪e eu n茫o posso aglomerar pra produzir, nem para comercializar, ent茫o automaticamente surge um preju铆zo鈥, relata Magno Nascimento, integrante da Malungu. Foto: Thiago Gomes / Ag锚ncia Par谩

 

Estado com mais quilombos certificados, Maranh茫o v锚 doen莽a avan莽ar

鈥淧or conta do racismo estrutural, o servi莽o de sa煤de n茫o est谩 preparado para nos atender. E ele n茫o quer nos atender, porque nos v锚 como uma terceira, quarta, quinta classe. N茫o d谩 import芒ncia para n贸s enquanto ser humano. Essa quest茫o da invisibilidade 茅 muito s茅ria, a gente tem que estar o tempo todo dizendo 鈥榚stamos aqui, somos seres humanos, n贸s temos esses mesmos direitos鈥欌, afirma a coordenadora nacional da Conaq no Maranh茫o, C茅lia Pinto, que vive no Quilombo Acre, na cidade de Cururupu, a 465 km da capital.

Com territ贸rios quilombolas em 107 de seus 217 munic铆pios, o Maranh茫o v锚 a doen莽a avan莽ar entre sua popula莽茫o remanescente, principalmente desde o fim de maio, quando a doen莽a passou a se interiorizar. Segundo dados da Conaq, j谩 s茫o 9 贸bitos em 7 diferentes cidades.

Em Cururupu, ainda n茫o h谩 贸bitos, mas j谩 s茫o pelo menos 20 casos confirmados entre os quilombolas. A situa莽茫o local preocupa principalmente porque a cidade 茅 munic铆pio-polo de atendimento de outras oito da regi茫o. 鈥淪e a gente tiver um surto aqui no munic铆pio vamos ter muita dificuldade porque n茫o tem aparato suficiente para atender essa demanda. Se continuar aumentando os casos, como est茫o aumentando aqui e nos oito munic铆pios vizinhos que s茫o atendidos aqui, n贸s vamos ter uma situa莽茫o muito cr铆tica鈥, afirma C茅lia.

No munic铆pio de Alc芒ntara, onde a popula莽茫o quilombola disputa h谩 d茅cadas seu territ贸rio com uma base de lan莽amentos de foguetes da For莽a A茅rea Brasileira, o coronav铆rus j谩 fez quatro v铆timas. 鈥淎lc芒ntara n茫o disp玫e de hospital ou estrutura hospitalar adequada para tratar os casos. N茫o h谩 sequer um 煤nico respirador no munic铆pio. O munic铆pio improvisou uma unidade de atendimento em uma escola municipal no centro da cidade鈥, conta o quilombola Danilo Serejo, assessor jur铆dico das comunidades.

Assim como em outros estados, especialmente no Norte e no Nordeste, os quilombolas do Maranh茫o enfrentam dificuldades para acessar o sistema de sa煤de p煤blica, j谩 que muitas comunidades ficam distantes dos grandes centros. Com isso, 茅 necess谩rio se deslocar centenas de quil么metros para realizar um atendimento de alta complexidade, como a interna莽茫o em uma UTI.

Em di谩logo direto com prefeituras e secretarias de sa煤de municipais, os quilombolas de algumas cidades, como Anajatuba e Icatu, t锚m conseguido driblar um dos problemas encontrados: a falta de testes. Em outros, por茅m, ainda h谩 dificuldade para conseguir ser testado, causando significativa subnotifica莽茫o. 鈥淣贸s temos munic铆pios em que as pessoas estavam procurando a rede municipal de sa煤de e diziam que n茫o tinham testes. Mandavam para uma outra unidade e, quando chegavam, as pessoas n茫o eram atendidas, diziam que n茫o tinham como fazer, que n茫o era l谩 que fazia鈥, relata a coordenadora do Conaq.

O avan莽o dos casos entre a popula莽茫o quilombola do Maranh茫o fez com que a Conaq e a Associa莽茫o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranh茫o (Aconeruq) buscassem tamb茅m di谩logo com o governo estadual, atrav茅s da secretaria de sa煤de (SES-MA). Al茅m de reuni茫o com representantes do governo, as lideran莽as tamb茅m entregaram uma lista de reivindica莽玫es. Entre os pedidos est茫o apoio nas medidas de autogest茫o dos quilombolas para que o isolamento social seja mantido, fortalecimento da rede hospitalar e suspens茫o de obras ou retiradas que impactem as comunidades.

Para amenizar o impacto econ么mico do coronav铆rus, j谩 que a pandemia afetou o escoamento da produ莽茫o agr铆cola dos quilombolas e a maioria n茫o est谩 conseguindo acesso ao aux铆lio emergencial, eles tamb茅m solicitaram a amplia莽茫o da compra de produtos da agricultura familiar pelo governo. O pedido j谩 foi atendido e houve aumento da aquisi莽茫o de alimentos dos quilombolas por meio do Programa de Aquisi莽茫o de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimenta莽茫o Escolar (Pnae).

Outro lado

A P煤blica entrou em contato com as secretarias estaduais de sa煤de (SES) de Maranh茫o, Par谩 e Rio de Janeiro, com as prefeituras de Cururupu (MA), Moju (PA) e B煤zios (RJ), al茅m da Funda莽茫o Cultural Palmares. At茅 a publica莽茫o da reportagem, s贸 obteve resposta da SES/MA e da SES/PA.

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