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(Re)Discutindo Fomento e financiamento: Compartilhar responsabilidades para cidades melhores

Capa_jr_48Jos茅 Oliveira Junior

Iniciaremos aqui uma s茅rie de tr锚s textos sobre o tema do financiamento da cultura, para ajudar nas reflex玫es sobre o momento que vivemos e para clarear quais caminhos e desafios temos pela frente. O assunto 茅 t茫o delicado, complexo e importante para a promo莽茫o da diversidade que precisa ser apresentado sob diversas 贸pticas de modo a compreender melhor tudo que o cerca. Come莽aremos por tratar da 鈥渁mplia莽茫o da discuss茫o鈥.

Em estudo anterior sobre fomento e financiamento聽 (OLIVEIRA Jr, 2011, 116-122) pontuamos sobre o desafio de compartilhar responsabilidade para cidades melhores. Naquela ocasi茫o, desenvolvemos a conceitua莽茫o de tr锚s princ铆pios de financiamento da cultura (P煤blico, privado, fomento), passando pelo estudo de diversos modelos de financiamento pelo mundo, para contribuir criticamente para o debate sobre este tema. Quase cinco anos depois de come莽armos a escrever aquele texto, queremos retomar um apontamento nele presente para aprofund谩-lo, dada sua atualidade:

O que o investimento p煤blico pode e deve garantir e o que o investimento privado efetivamente financia […] falar em fomento e financiamento n茫o pode resumir-se a discutir quanto cada esfera do poder p煤blico vai investir em cultura, sa煤de, defesa ou agricultura. 脡 importante que o quanto seja colocado em pauta como item important铆ssimo, mas a pauta vai al茅m de valores financeiros e toca outra natureza de 鈥渧alores鈥 (OLIVEIRA Jr, 2011, p.122-123)

Al茅m da percep莽茫o da crise de viabiliza莽茫o que vivemos no pa铆s atualmente, com tanta discuss茫o sobre o fim de recursos de algumas leis estaduais, dos crit茅rios de aprova莽茫o ou de prioriza莽茫o, de que alguns empreendedores s茫o mais beneficiados, as discuss玫es principais ainda precisam entrar efetivamente na pauta: Quais devem ser as prioridades do estado? Como conciliar o interesse p煤blico com os diversos interesses leg铆timos de uma produ莽茫o cultural cada vez mais pujante no pa铆s, se n茫o houver recursos suficientes? Se a Cultura deve ser garantida como direito b谩sico do cidad茫o, como tratar a quest茫o sob a perspectiva do financiamento vacilante entre princ铆pio p煤blico e princ铆pio privado (que, no geral, acontece no mecanismo de ren煤ncia fiscal)?

Convocamos uma abordagem de BARROS (2010) que utilizamos 脿quela 茅poca para uma imagem mais clara de como queremos desenvolver a presente provoca莽茫o:

Voc锚s imaginariam uma escola que s贸 abriria e teria um professor em sala de aula se uma empresa patrocinasse aquele professor ou aquela aula? Voc锚s imaginariam um leito de hospital que s贸 estaria aberto a algu茅m se houvesse uma empresa ou uma lei de incentivo que patrocinasse e colocasse nele uma placa dizendo que esse leito 茅 patrocinado pela lei de incentivo 脿 sa煤de? Mas 茅 assim que a cultura vive hoje. E n茫o 茅 assim que vamos encontrar o lugar da cultura no desenvolvimento[…] Projetos s茫o meios, n茫o s茫o fins. (BARROS, 2010, p.16)

N茫o queremos tomar o momento atual como 鈥渕omento de crise鈥, mas como momento de explicita莽茫o dos problemas que talvez tenham ficado ocultos pelos resultados positivos da atividade econ么mica, que significaram aportes razo谩veis de recursos para diversas cidades. Se pensarmos bem, as capitais e grandes cidades est茫o vivendo agora a escassez que a maioria das cidades do interior vive desde sempre.

O que hoje chamamos problema (representado em frases que ouvimos entre artistas e agentes culturais 鈥渁cabaram os recursos da lei estadual鈥, 鈥渢em alguns proponentes que concentram a aprova莽茫o e capta莽茫o de recursos鈥, 鈥渘a lei federal os maiores beneficiados s茫o do eixo rio-s茫o Paulo鈥) apenas oculta as reais quest玫es que precisam ser enfrentadas. Talvez por medo eleitoral de tomar medidas impopulares mas que recolocassem o interesse p煤blico no centro das preocupa莽玫es do estado com a cultura, deixamos quase vinte anos as coisas como est茫o no modelo de financiamento da cultura.

Falamos em vinte anos tomando como base a aprova莽茫o do acr茅scimo do par谩grafo no artigo 18 da lei federal de incentivo 脿 cultura, o qual deu 100% de dedu莽茫o para projetos de determinadas 谩reas. Este ponto, inclusive, 茅 um dos principais em pauta na altera莽茫o proposta pelo PROCULTURA. Enquanto no 芒mbito federal a tentativa 茅 definir 100% de dedu莽茫o apenas para propostas que atendam especificamente 脿s prioridades tra莽adas pelo CNPC (Conselho Nacional de Pol铆tica Cultural) e pelo PNC (Plano Nacional de Cultura), no 芒mbito estadual em Minas Gerais, por exemplo, a tentativa de alguns anos e que se tornou realidade foi em outra dire莽茫o, reduzindo a participa莽茫o pr贸pria da empresa para patamares que se aproximam da dedu莽茫o integral (patamares de 5%, 3% e 1%).

Foram feitas diversas propostas quando da discuss茫o desta altera莽茫o de dispositivos da legisla莽茫o existente. Uma delas propunha que se mantivesse o percentual de 20% de participa莽茫o pr贸pria da empresa e este valor fosse aplicado diretamente no Fundo Estadual de Cultura. Outra propunha que o percentual menor de participa莽茫o pr贸pria acontecesse somente no interior do estado e em situa莽玫es espec铆ficas.
Independente da validade ou n茫o destas propostas, a situa莽茫o ainda 茅 a mesma: n茫o discutimos o modelo de financiamento, mas apenas dispositivos dos mecanismos. Estamos falando de algo como tinta nova em pintura velha, remendo novo em roupa velha. Uma an谩lise dos n煤meros globais da Lei Estadual de Incentivo 脿 Cultura de Minas Gerais (LEIC) e o Fundo Estadual de Cultura (FEC) entre 2009 e 2013 aponta um problema que nos ajuda a pensar nas reais preocupa莽玫es que deveriam nos orientar.
A diferen莽a gritante entre o montante aplicado pelo estado por meio de ren煤ncia fiscal e por meio do Fundo de Cultura deixa transparecer que, antes de simplesmente pontuarmos que o recurso dispon铆vel por meio da ren煤ncia fiscal para o ano de 2014 terminou em Mar莽o, dever铆amos nos perguntar se a prioriza莽茫o feita pelo ente federado 茅 a que melhor atende ao interesse p煤blico. (A t铆tulo de exemplo, a an谩lise 茅 relativa ao estado, mas aplica-se quase da mesma forma tamb茅m 脿 lei federal de incentivo 脿 cultura):

Vale ressaltar que, enquanto o or莽amento do Estado vem aumentando ano a ano (14,37% de 2009 para 2010; 18,77% de 2010 para 2011; 15,50% de 2011 para 2012), o referente 脿 cultura diminui 脿 m茅dia de 0,01% ao ano […] A Lei Estadual de Incentivo 脿 Cultura teve suas varia莽玫es quase sempre positivas ano a ano […] entre 2009 e 2013, a cada R$ 1,00 investido atrav茅s de Fundo Estadual de Cultura houve R$ 11,42 investidos por meio da ren煤ncia fiscal. (BARROS, Jos茅 M谩rcio, OLIVEIRA Jr, Jos茅, 2013, p.240)

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2 Coment谩rios para “(Re)Discutindo Fomento e financiamento: Compartilhar responsabilidades para cidades melhores”

  1. O que entendo 茅 que existe um equ铆voco de identidade. O Minist茅rio da Cultura e qualquer Secret谩ria de Cultura n茫o pode se comportar e pensar como um minist茅rio financiador ou viabilizador de obras. Isto seria falta de entendimento de sua fun莽茫o e import芒ncia. No campo federal, viabilizar obras 茅 fun莽茫o da FUNARTE . Ela existe para isso. Entendo que qualquer pensamento neste sentido deve ser direcionado a ela. Inclusive leis de incentivo e todos os editais neste sentido. Simples assim.
    O MinC tem fun莽茫o articulista, deve entender e assumir como ponte da cidadania brasileira pela forma de reconhecimento de seu povo com sua identidade cultural. O Cultura viva caminha neste sentido e deve aumentar cada vez mais, para sim, ser formador do pensamento, dar condi莽玫es para o Ser artista. 脡 assim que se forma p煤blico, conceito, pensamento. Isso 茅 uma revolu莽茫o cultural.
    Este posicionamento requer articula莽茫o, desenvolvimento de estrat茅gias com todas as 谩reas, ou podemos dizer, minist茅rios. Que o minist茅rio da educa莽茫o e comunica莽茫o s茫o evidentemente reconhecidos como parceiros 茅 f谩cil entender. Mas 茅 preciso mais. 脡 preciso saber que n茫o se discute por exemplo direito autoral sem ter o Minist茅rio da Justi莽a como aliado. N茫o se discute direitos de trabalho sem ter o minist茅rio do Trabalho. E Imagine se estes tantos festivais realizados tivessem uma conversa em mesmo idioma com o Minist茅rio do Turismo? A parceria com todos os minist茅rios, traz al茅m de concretiza莽茫o de um plano, rendimento para o artista, o qual seria imposs铆vel de esperar apenas contando com o MinC.
    No mais, s茫o favas contadas e recontadas e n茫o me interessa mais recontar.

    1. Sua quest茫o 茅 pertinente. Quando perguntamos qual a fun莽茫o do Estado ou o que o Estado deveria financiar, com certeza est谩 impl铆cita a perspectiva de se pensar se quem est谩 脿 frente dos 贸rg茫os de cultura sabem com certeza para que servem os 贸rg茫os de cultura, as pol铆ticas de cultura, etc.

      A fun莽茫o articuladora por parte dos 贸rg茫os p煤blicos de cultura deve entrar na pauta sim, principalmente na perspectiva do pr贸ximo artigo que traremos, discutindo as responsabilidades de cada ente federado. Para muitos colegas de pesquisa sobre o tema o Minist茅rio da Culura deveria assumir uma postura de grande articulador nacional, seja em termos de recursos que de a莽玫es de maior alcance em todo o pa铆s.

      A intersetorialidade 茅 realmente muito importante, Gilberto, e pouco presente nestas grandes discuss玫es. Quantos projetos socioculturais poderiam ter recursos das secretarias de desenvolvimento econ么mico e social?

      Vamos continuar a discuss茫o nos pr贸ximos dois textos, principalmente porque o objetivo do que propusemos como Observat贸rio 茅 contribuir qualitativamente para o momento de defini莽玫es que estamos vivendo. Sair das discuss玫es mais 贸bvias e das necessidades mais imediatas (sem esquec锚-las, claro, mas colocando-as no plano mais amplo das pol铆ticas p煤blicas, de m茅dio e longo prazo).

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