NOT脥CIAS

”Uma hora ele 茅 铆ndio demais e atrapalha, outra hora ele 茅 铆ndio de menos, e n茫o tem direitos”, afirma Lucia Rangel

“As cidades brasileiras sempre foram ambientes vetados aos ind铆genas鈥, declara a antrop贸loga

 

鈥淎 cada ano voltamos a falar dos mesmos problemas鈥, diz a antrop贸logaL煤cia Helena Rangel, ao comentar os dados doRelat贸rio de Viol锚ncia 2011 contra as comunidades ind铆genas. Segundo ela, as situa莽玫es de viol锚ncia e descaso com os povos ind铆genas s茫o recorrentes e se manifestam n茫o s贸 atrav茅s dos conflitos territoriais, mas tamb茅m em casos de racismo e na tentativa de suprimir os direitos das comunidades assegurados na Constitui莽茫o Federal. 鈥淓stamos vendo a莽玫es cada vez mais fortes contra o direito 脿s terras dos povos ind铆genas. A PEC 215 e a portaria 303 da AGU s茫o exemplos disso. A cada dia aparece uma nova portaria ou um novo projeto de lei querendo modificar o artigo 231 da Constitui莽茫o, ou modificar a aplica莽茫o dos direitos鈥, assinala em entrevista concedida 脿 IHU On-Line por telefone.

De acordo com a antrop贸loga, como as mudan莽as propostas contra os direitos ind铆genas sempre 鈥渆sbarram no princ铆pio constitucional鈥, surge um 鈥渕ovimento no 芒mbito do Legislativo para modificar o princ铆pio constitucional鈥. Para ela, as elites brasileiras n茫o querem reconhecer os direitos ind铆genas e criam indisposi莽玫es entre a popula莽茫o e as comunidades, gerando um discurso racista, especialmente diante dos ind铆genas que vivem nas cidades. 鈥淥 Estado n茫o demarca as terras e n茫o quer assumir a popula莽茫o que vive nas cidades. Quem vai para a cidade n茫o vai de modo for莽ado, obviamente, mas quando analisamos a situa莽茫o das terras 鈥 no Sul, no Sudeste e no Nordeste 鈥, observamos que a quantidade de terras demarcadas n茫o suporta a popula莽茫o ind铆gena dessas regi玫es鈥, aponta. E dispara: 鈥淣um pa铆s mesti莽o como o nosso, onde todo mundo 茅 misturado, os 铆ndios n茫o podem ser misturados. Uma hora ele 茅 铆ndio demais e atrapalha, outra hora ele 茅 铆ndio de menos, e n茫o tem direitos. Ent茫o, o 铆ndio nunca tem um lugar鈥.

Lucia Helena Rangel
茅 doutora em Antropologia pela Pontif铆cia Universidade Cat贸lica de S茫o Paulo 鈥 PUC-SP com a tese Os Jamamadi e as armadilhas do tempo hist贸rico. 脡 professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ci锚ncias Sociais e do Programa de Estudos P贸s-Graduados em Ci锚ncias Sociais da PUC-SP. Tamb茅m 茅 assessora do Conselho Indigenista Mission谩rio 鈥 Cimi (Regional Amaz么nia Ocidental) e do Cimi Nacional.

Confira a entrevista.

IHU On-Line 鈥 Quais s茫o os dados mais alarmantes do Relat贸rio de Viol锚ncia Contra os Povos Ind铆genas no Brasil? Comparando com os relat贸rios anteriores, o que destaca?

 

Lucia Helena Vitalli Rangel 鈥 脡 dif铆cil mencionar o que 茅 mais alarmante, porque algumas situa莽玫es se repetem a cada ano, com varia莽玫es. Assim, em determinados momentos, o desmatamento chama mais aten莽茫o, em outros, a sa煤de etc. No ano de 2011, registramos um quadro grave, que j谩 tinha sido destacado em anos anteriores e que diz respeito 脿 situa莽茫o da sa煤de dos povos do Vale do Javari, no estado do Amazonas. O Vale do Javari 茅 uma 谩rea muito grande, demarcada, e que abriga diversos povos, sendo que muitos deles possuem comunidades isoladas no meio do mato, com os marubos, corubos, os matis, os canamari. Entretanto, as popula莽玫es que vivem na beira dos rios est茫o sofrendo de verdadeiras epidemias de mal谩ria, de hepatite e das doen莽as a茅reas: gripes, tuberculose, pneumonia. Nessas comunidades, a mortalidade infantil 茅 muito alta. As lideran莽as ind铆genas relatam que nos 煤ltimos dez anos houve 300 mortes. N茫o temos como saber, de fato, qual 茅 o tamanho dessas popula莽玫es, mas vamos supor que seja algo em torno de tr锚s a quatro mil pessoas. Nesse caso, 300 mortes em 10 anos 茅 muito.

Outro caso grave, identificado atrav茅s do relat贸rio, 茅 a situa莽茫o do povo guarani-kaiow谩 do Mato Grosso do Sul, onde h谩 uma taxa de homic铆dios de cem mortos por cem mil pessoas. Essa taxa 茅 maior do que a do Iraque, e quatro vezes maior do que a taxa nacional. O Conselho Indigenista Mission谩rio 鈥 Cimi j谩 denunciou os casos de genoc铆dio, e essas den煤ncias j谩 chegaram 脿 ONU, a organismos internacionais, e v谩rias delega莽玫es j谩 foram ao Mato Grosso do Sul para constatar tal situa莽茫o. Entretanto, n茫o se toma nenhuma provid锚ncia. Outro problema muito complicado 茅 o desmatamento. Este ano destacamos viola莽玫es ao patrim么nio ind铆gena, depreda莽茫o, retirada ilegal de recursos naturais, inc锚ndios criminosos etc.

Comparando os dados deste relat贸rio com os relat贸rios anteriores, n茫o temos como dizer se a situa莽茫o dos ind铆genas melhorou ou piorou. 脌s vezes piora, 脿s vezes melhora, mas isso n茫o significa nenhuma tend锚ncia nem de melhorar, nem de piorar. A cada ano voltamos a falar dos mesmos problemas.

IHU On-Line 鈥 Qual a situa莽茫o dos xavantes no Mato Grosso? Os conflitos tamb茅m est茫o atrelados 脿 disputa pela terra?

Lucia Helena Vitalli Rangel 鈥 No caso dos xavantes, a situa莽茫o mais complicada 茅 a da terra ind铆gena Mar茫iwats猫d猫. Essa terra est谩 foi invadida por fazendeiros e est谩 em lit铆gio h谩 muitos anos. As comunidades n茫o se conformaram com as ocupa莽玫es indevidas e tentam reaver o seu territ贸rio na integralidade. Al茅m de terem acesso a pouca terra, eles s茫o pressionados pelo desmatamento oriundo da pecu谩ria, do agroneg贸cio, da soja, das queimadas, do envenenamento de rios etc. Al茅m disso, a mortalidade infantil entre os xavantes foi alarmante nos anos de 2009 e 2010.

H谩 uma relut芒ncia da Funai diante destes conflitos, porque o 贸rg茫o cria projetos, faz levantamentos, identifica as terras que devem ser demarcadas, mas n茫o conclui tais projetos, e mesmo quando h谩 conclus茫o, quando os relat贸rios s茫o publicados, n茫o h谩 continuidade nas a莽玫es. Tanto no Rio Grande do Sul como em Santa Catarina h谩 estradas em que se veem placas indicando 鈥淐uidado, ind铆genas na estrada鈥, como se eles fossem animais selvagens.

IHU On-Line 鈥 Quais s茫o as etnias que mais sofrem por causa da viol锚ncia e dos conflitos de terra?

Lucia Helena Vitalli Rangel鈥 No extremo sul da Bahia, o povo patax贸 tem sofrido h谩 d茅cadas press玫es e viol锚ncias brutais, tais como assassinatos, emboscadas em estradas, tiroteios, inc锚ndios de escolas, de casas, de ro莽ados por parte de fazendeiros que n茫o querem admitir que as terras dos patax贸s e dos tupinamb谩s, que vivem nessa regi茫o, sejam demarcadas. Eles afirmam que o governo do estado da Bahia concedeu as terras para eles e, portanto, t锚m mais direitos do que os 铆ndios. Entretanto, ningu茅m leva em conta que o pr贸prio governo da Bahia foi o primeiro a violar os direitos ind铆genas ao conceder as terras a um fazendeiro qualquer, considerando que muitos deles nem eram daquela regi茫o.

Outras etnias v铆timas da viol锚ncia s茫o os guarani e os kaingang, no Sul; os guarani-kaiow谩, no Mato Grosso do Sul, os guajajara e os aw谩-guaj谩, no Maranh茫o; os turuc谩, em Pernambuco e no Norte da Bahia. Outra situa莽茫o interessante de apontar 茅 o caso de Roraima, da terra ind铆gena Raposa Serra do Sol, onde vivem os povos uapixana, macuxi, e outros. Ali havia registros de viol锚ncia brutal durante muitos anos. A luta foi longa, mas finalmente em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal 鈥 STF corroborou a homologa莽茫o que j谩 havia sido feita pelo ent茫o presidente da Rep煤blica, concedendo aos ind铆genas a terra, os relatos de viol锚ncia, em 2011, praticamente sumiram dos relat贸rios. Isso prova que a situa莽茫o dos ind铆genas melhora se as terras forem demarcadas.

Por mais que haja posi莽玫es contr谩rias de alguns senadores e deputados, que dizem que os 铆ndios de Roraima vivem nas cidades no meio do lix茫o, devemos lembrar que essa situa莽茫o 茅 muito anterior 脿 demarca莽茫o. O que n贸s comparamos n茫o 茅 a situa莽茫o dos ind铆genas que vivem na cidade de Boa Vista, mas a situa莽茫o de viol锚ncia dentro da terra ind铆gena Raposa Serra do Sol.

IHU On-Line 鈥 A disputa pela terra 茅 a principal raz茫o pelos conflitos entre ind铆genas e n茫o 铆ndios? Que outros problemas s茫o gerados em decorr锚ncia da n茫o demarca莽茫o das terras?

Lucia Helena Vitalli Rangel鈥 O pano de fundo 茅 a quest茫o da terra. Entretanto, n茫o podemos reduzir tudo a essa quest茫o. Mas in煤meros problemas v锚m da铆, porque quando uma terra n茫o est谩 reconhecida, os 铆ndios n茫o t锚m acesso 脿 assist锚ncia de sa煤de, n茫o recebem programas de educa莽茫o escolar, n茫o recebem insumos agr铆colas, projetos de alimenta莽茫o etc. Ent茫o, trata-se de uma quest茫o fundi谩ria, de disputa pelas terras ind铆genas e de n茫o reconhecimento dos direitos ind铆genas 脿s suas terras. Os ind铆genas t锚m um modo de vida baseado na rela莽茫o com a terra, com o territ贸rio, com a natureza. E essa rela莽茫o 茅 a base da vida deles.

No Mato Grosso do Sul, cerca de dez reservas ind铆genas de kaiow谩-guarani foram demarcadas. A Funai levou todas essas comunidades para dentro dessas terras, e elas viraram um barril de p贸lvora por causa da superlota莽茫o. H谩 conflitos internos entre comunidades que n茫o se entendem; h谩 casos de alcoolismo, falta de perspectiva etc. Al茅m disso, eles n茫o conseguem trabalhar a terra porque n茫o tem espa莽o para isso. Ent茫o h谩 consequ锚ncias graves por causa da falta de demarca莽茫o das terras.

IHU On-Line 鈥 Como v锚 o projeto desenvolvimentista brasileiro, que prop玫e a expans茫o do parque energ茅tico em 谩reas ocupadas por comunidades ind铆genas e tradicionais, como o caso do Xingu e do Tapaj贸s? Como ficam os povos ind铆genas diante desses projetos?

Lucia Helena Vitalli Rangel鈥 Cada rio da bacia amaz么nica tem um tipo de potencial hidrel茅trico, e s茫o todos discut铆veis, porque alguns rios t锚m um potencial maior, outros, menor. O quanto isso vai beneficiar a produ莽茫o econ么mica, as cidades brasileiras, a popula莽茫o que vive nas cidades, tamb茅m 茅 uma coisa a ser discutida, porque os mais prejudicados com essas constru莽玫es, com esses empreendimentos, s茫o as popula莽玫es ribeirinhas e as popula莽玫es ind铆genas.

No rio Madeira, as hidrel茅tricas de Jirau e Santo Ant么nio est茫o sendo feitas em uma regi茫o onde h谩 comunidades ind铆genas isoladas, que ainda n茫o fizeram um contato regular com os agentes do Estado brasileiro e a sociedade. O que vai acontecer com essa gente, n贸s n茫o sabemos. Por onde eles v茫o escapar? Eles v茫o morrer ou n茫o? V茫o pegar epidemia ou n茫o? N茫o h谩 como saber.

Hidrel茅tricas

Em Altamira, onde est谩 sendo constru铆da a hidrel茅trica de Belo Monte, no rio Xingu, vive uma popula莽茫o ind铆gena que j谩 tem contato regular com a sociedade. Ocorre que essa popula莽茫o da regi茫o da Volta Grande j谩 foi deslocada em momentos anteriores. Ent茫o, trata-se de uma popula莽茫o que tem essa mem贸ria, que sabe o quanto custa um empreendimento desses. Quando a Transamaz么nica foi constru铆da, essa popula莽茫o n茫o foi ouvida, os impactos n茫o foram avaliados corretamente, e o pr贸prio Ibama reconhece isso.

Diante de empreendimentos como Belo Monte, os empreendedores e os representantes do Estado dizem para a popula莽茫o de Altamira o seguinte: 鈥淥s ind铆genas n茫o querem que voc锚s tenham acesso 脿 energia鈥. Ent茫o cria um conflito que 茅 insuport谩vel.

No Tapaj贸s, acontece a mesma coisa. O complexo hidrel茅trico de Tapaj贸s vai alagar terras ind铆genas. Prioritariamente, quase todas as hidrel茅tricas que foram constru铆das nesse plano de desenvolvimento afetaram os povos ind铆genas, a exemplo de Itaipu, Tucuru铆 entre outras.

Por causa da transposi莽茫o do rio S茫o Francisco, por exemplo, o povo Truk谩 foi afetado pela transposi莽茫o do rio, porque o canal dividiu a terra deles ao meio, e usou parte do territ贸rio para instalar canteiros de obras. Os pr贸prios ind铆genas denunciam e reclamam das consequ锚ncias, como o aumento do alcoolismo, da prostitui莽茫o, da falta de emprego e da diminui莽茫o das terras agricultur谩veis. Nesse caso do rio S茫o Francisco, transp玫e-se o rio para irrigar terras, mas quem est谩 na beira do canal perde 谩rea cultiv谩vel. Quer dizer, trata-se de um contrassenso da obra ou de uma falta de respeito pelos ind铆genas que viviam ali. Por que o canal tem que cortar a terra ao meio?

IHU On-Line 鈥 Os 铆ndios t锚m clareza dessa situa莽茫o, das implica莽玫es das obras? No caso de Belo Monte, por exemplo, algumas etnias est茫o divididas. Eles acabam sendo cooptados pelo Estado?

Lucia Helena Vitalli Rangel鈥 脡 sempre assim. T锚m aqueles que, em troca de algum dinheiro ou algum benef铆cio, trabalham para que a obra se realize. A consequ锚ncia disso, depois da obra pronta, 茅 um conflito interno muito grande, porque aqueles que se beneficiaram n茫o dividem o benef铆cio com toda a comunidade.

Um exemplo s茫o os ind铆genas que vivem pr贸ximo ao rio Tocantins. O povo xerente foi afetado pela hidrel茅trica do Lajeado, que teve a barragem constru铆da no 鈥減茅鈥 da terra deles. 脌 茅poca, algumas lideran莽as se apressaram e quiseram convencer todo mundo de que eles deveriam aceitar o dinheiro da mitiga莽茫o do impacto 鈥 e a mitiga莽茫o do impacto nessas obras acaba sendo sempre o dinheiro. Ent茫o, quando eles aceitam, recebem um valor monet谩rio determinado, para implementarem projetos dentro da 谩rea. Mas com esse valor, criam uma associa莽茫o, constroem uma sede na cidade, compram ve铆culos (tanto ambul芒ncias como camionetes e caminh玫es), computadores, telefones. Posteriormente, tudo isso gera uma fase de insatisfa莽茫o e reclama莽玫es. Aumentam os conflitos entre as comunidades que vivem dentro da mesma 谩rea, porque umas ganharam mais dinheiro, outras ganharam menos benef铆cios. Claro, n茫o cabe 脿 empresa que vai construir a hidrel茅trica resolver esse problema, mas a atua莽茫o dos agentes do Estado podia levar em conta essas coisas, porque elas s茫o conhecidas.

Agora, quando algu茅m oferece dinheiro para as comunidades, todo mundo fica enlouquecido pelo dinheiro. Ent茫o, esse 茅 um problema muito s茅rio e muito complicado. Quem sou eu, por exemplo, uma professora e antrop贸loga, para dizer a um ind铆gena que, se ele aceitar esse dinheiro, posteriormente enfrentar谩 muitos problemas? Trata-se de outro processo de conscientiza莽茫o, de an谩lise, que demandaria um esfor莽o diferente no tratamento dessas quest玫es com os ind铆genas. A pressa em propor essas formas de mitiga莽茫o 茅 que faz com que alguns ind铆genas tamb茅m se sintam atra铆dos e aceitem, de 鈥渕茫o beijada鈥, coisas que trar茫o consequ锚ncias graves para a sua comunidade.

IHU On-Line 鈥 De acordo com os dados do Cimi, a homologa莽茫o das terras ind铆genas diminuiu drasticamente de 145 registros no governo Fernando Henrique Cardoso para 79 no governo Lula e apenas tr锚s no governo Dilma. Quais as raz玫es dessa redu莽茫o? O que essa mudan莽a na pol铆tica governamental sinaliza?

Lucia Helena Vitalli Rangel鈥 Cada governo enfrenta um tipo de press茫o. Da gest茫o Lula para c谩, o governo tem cedido demais 脿s press玫es dos fazendeiros, das empreiteiras, daqueles interessados ou nos grandes projetos, nas grandes obras ou no agroneg贸cio. O governo faz alian莽as pol铆ticas e depois tem que dar a contrapartida. Isso 茅 evidente, no caso do Mato Grosso do Sul, porque h谩 uma press茫o muito forte do governo estadual, dos empres谩rios do agroneg贸cio. At茅 o judici谩rio, no Mato Grosso do Sul, 茅 contra os ind铆genas, sendo que existem leis, que h谩 uma Constitui莽茫o Federal. Mas ningu茅m respeita.

IHU On-Line 鈥 E ainda s茫o publicadas a portaria 303 da AGU, a PEC 215…

Lucia Helena Vitalli Rangel 鈥 Exatamente. Estamos vendo a莽玫es cada vez mais fortes contra o direito 脿s terras dos povos ind铆genas. A PEC 215 e a portaria 303 da AGU s茫o exemplos disso. A cada dia aparece uma nova portaria ou um novo projeto de lei querendo modificar o artigo 231 da Constitui莽茫o, ou modificar a aplica莽茫o dos direitos.

Outro exemplo foram as discuss玫es em torno da mudan莽a do C贸digo Florestal, que acabou sendo aprovado na C芒mara Federal atrav茅s dos piores princ铆pios. Por exemplo, em 2010 as discuss玫es das mudan莽as do C贸digo Florestal desencadearam um verdadeiro vandalismo. No Mato Grosso, as terras ind铆genas foram afetadas pelo desmatamento de uma forma violenta. Segundo a Pol铆cia Federal, cem terras ind铆genas foram afetadas, al茅m de 20 unidades de conserva莽茫o.

IHU On-Line 鈥 Como compreender tais portarias diante do artigo 231 da Constitui莽茫o Federal?

Lucia Helena Vitalli Rangel 鈥 A Constitui莽茫o Federal 茅 uma 鈥渟alva guarda鈥, ela resguarda os direitos cidad茫os. Ent茫o, o artigo 231 da Constitui莽茫o reconhece o direito dos ind铆genas 脿s suas terras, a ocupa莽茫o origin谩ria etc. Portanto, o reconhecimento do direito 茅 constitucional, e 茅 o princ铆pio mais importante. Agora, a aplicabilidade do direito n茫o depende somente da Constitui莽茫o Federal; h谩 de ter uma regulamenta莽茫o. No caso dos povos ind铆genas, a regulamenta莽茫o acontece atrav茅s do Estatuto do 脥ndio. Depois de 1988, quando a Constitui莽茫o foi promulgada, deu-se in铆cio 脿 discuss茫o de elaborar um novo Estatuto do 脥ndio, porque o Estatuto que vigora at茅 hoje 茅 de 1970.

IHU On-Line 鈥 Que aspectos do Estatuto do 脥ndio deveriam ser atualizados?

Lucia Helena Vitalli Rangel鈥 Teria de fazer um novo estatuto, porque o vigente foi baseado em outros princ铆pios, como o princ铆pio da integra莽茫o do 铆ndio 脿 comunh茫o nacional, o princ铆pio de que as terras ind铆genas devem ser protegidas ou administradas pela Funai e o princ铆pio de que, em nome da seguran莽a nacional, as terras ind铆genas podem ser violadas. Entretanto, o direito Constitucional de 1988 modifica esse princ铆pio, como modifica tamb茅m o princ铆pio da tutela. Ent茫o, h谩 de ter um novo estatuto, porque o atual foi elaborado durante a ditadura militar.

H谩 mais de 20 anos uma nova proposta de Estatuto do 脥ndio tramita no Congresso Nacional e na C芒mara Federal. O novo texto nunca foi votado, porque primeiro os deputados querem votar a Lei da Minera莽茫o, a mudan莽a do C贸digo Florestal, para tirar os direitos ind铆genas, e depois fazer o Estatuto do 脥ndio. Mas como as mudan莽as sempre esbarram no princ铆pio constitucional, h谩 outro movimento no 芒mbito do Legislativo, para modificar o princ铆pio constitucional. N茫o h谩 meio das nossas elites reconhecerem os direitos ind铆genas e, assim, come莽am a inventar coisas. Por exemplo, no Mato Grosso do Sul inventaram que os 铆ndios queriam 600 milh玫es de hectares, 谩rea maior do que o estado do Mato Grosso do Sul. Mas eles n茫o querem 600 milh玫es de hectares; querem o peda莽o que lhes cabem. Essa distor莽茫o fomenta a disc贸rdia, criam uma indisposi莽茫o entre a popula莽茫o local e os ind铆genas. A莽玫es como essa geram racismo, preconceito. Parece que n茫o h谩 nem um pouco de vergonha em manifestar isso contra os ind铆genas.

Al茅m disso, outros dizem que alguns 铆ndios n茫o s茫o mais 铆ndios, porque t锚m cabelo crespo, moram na cidade, s茫o 鈥渕isturados鈥, quer dizer, eles t锚m menos direitos do que os outros. Num pa铆s mesti莽o como o nosso, onde todo mundo 茅 misturado, os 铆ndios n茫o podem ser misturados. Uma hora ele 茅 铆ndio demais e atrapalha, outra hora ele 茅 铆ndio de menos e n茫o tem direitos. Ent茫o, o 铆ndio nunca tem um lugar.

IHU On-Line 鈥 De acordo com os dados do censo, existem 305 etnias ind铆genas no pa铆s. Como est茫o os estudos atuais sobre essas culturas? H谩 conhecimento desta diversidade?

Lucia Helena Vitalli Rangel 鈥 Para os antrop贸logos, essa diversidade 茅 uma realidade, e como tal 茅 considerada. Entretanto, nem os antrop贸logos possuem este n煤mero, porque s贸 o IBGE consegue fazer um censo nacional e ter esse alcance. O que os pesquisadores conseguem nas universidades, nos seus laborat贸rios de pesquisa, 茅 sistematizar os dados. Foi importante o IBGE publicar essa informa莽茫o de 305 etnias. N茫o sei exatamente como 茅 a defini莽茫o de etnia do IBGE, mas s茫o muito provavelmente relativas 脿 autodenomina莽茫o da comunidade ao falar o nome do povo. Supunha-se que fossem 280 etnias, mas o IBGE fala que 茅 305. 脡 um dado mais preciso e importante.

IHU On-Line 鈥 O que os dados do censo revelam sobre os ind铆genas brasileiros? Algum dado lhe surpreendeu?

Lucia Helena Vitalli Rangel鈥 No censo do ano 2000, havia um dado da popula莽茫o autodeclarada ind铆gena. Desses, 52% viviam em cidades e 48% viviam nas terras ind铆genas, em aldeias. Ent茫o, no censo de 2010, inverteu o n煤mero. A popula莽茫o ind铆gena que vive na cidade est谩 em volta de 47% e 48% e a popula莽茫o que vive em aldeia est谩 em torno de 52% e 53%. O dado demonstra que a popula莽茫o ind铆gena que vive em cidades 茅 muito grande, e o Estado, atrav茅s da Funai, reluta em reconhecer essas comunidades como sendo comunidades ind铆genas, porque n茫o quer lhes atribuir direitos. Ent茫o, aqueles 铆ndios que vivem na cidade n茫o s茫o considerados ind铆genas. Portanto, est茫o exclu铆dos do artigo 231. O Estado n茫o demarca as terras e n茫o quer assumir a popula莽茫o que vive nas cidades. Quem vai para a cidade n茫o vai de modo for莽ado, obviamente. Quando, por茅m, analisamos a situa莽茫o das terras 鈥 no Sul, no Sudeste e no Nordeste 鈥, observamos que a quantidade de terras demarcadas n茫o suporta a popula莽茫o ind铆gena dessas regi玫es. Ent茫o, a migra莽茫o 茅 um recurso para as comunidades.

Al茅m disso, as cidades brasileiras sempre foram ambientes vetados aos ind铆genas. Quando iam para as cidades, eles eram presos, escorra莽ados, expulsos. Quando iam ao m茅dico, iam e voltavam para casa escoltados pela Funai. A Constitui莽茫o, bem ou mal, 茅 democr谩tica, e nesse sentido abriu direitos que n茫o estavam previstos, como a amplia莽茫o do direito de ir e vir, que 茅 um direito civil do cidad茫o. Ent茫o, a conquista do ambiente humano tamb茅m 茅 uma conquista para os ind铆genas, que eles n茫o t锚m mais que ficar escondidos nos fundos das fazendas, trabalhando quase como escravos, visto que n茫o possuem terra e n茫o t锚m lugar para onde ir. Ent茫o, h谩 uma s茅rie de movimentos dessa popula莽茫o que v茫o configurando tamb茅m novos perfis. Nesse sentido, os dados do IBGE s茫o muito importantes para pensarmos essas quest玫es e para aprofundarmos em nossas pesquisas.

(Por Patricia Fachin)

Fonte: Boletim IHU

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