Ilustração da obra Públicos em Emergência

ENTREVISTAS

Os Desafios de uma Mediação Cultural Transformadora – Entrevista com Diogo de Moraes Silva

Crédito da imagem: Ângela de Moraes

Diogo de Moraes Silva é pesquisador, mediador cultural, artista visual, editor e, atualmente, assessor sociocultural no Sesc São Paulo, na área de Estudos e Desenvolvimento. Doutor pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo, acaba de lançar o livro Públicos em Emergência – a instituição artística revisitada pela mediação cultural, através das Edições SESC SP e disponível para compra no site de  várias livrarias.

O pesquisador do Observatório da Diversidade Cultural, José Márcio Barros entrevistou Diogo sobre essa sua importante, atual e instigante obra, leitura obrigatória para todos que atuam no campo dos processos de mediação cultural em instituições culturais.

José Márcio: Fale um pouco sobre sua trajetória acadêmica, profissional e de vida de modo a explicar como a temática dos públicos de arte se configurou como um foco central de sua atuação como pesquisador, mediador, artista. Fale também como articula essas três dimensões de atuação.

Diogo: Os públicos não especializados das artes assumem o centro das minhas abordagens muito em função da experiência profissional subsequente à graduação em licenciatura em artes visuais, em meados dos anos 2000. Ao trabalhar como mediador de exposições em instituições como Pinacoteca de São Paulo, Museu Lasar Segall e Itaú Cultural, eu testemunhava (e era interpelado por) reações dos visitantes – principalmente os escolares, mas não só – que frequentemente me desconcertavam, uma vez que se desviavam fortemente das ofertas artístico-pedagógico-culturais de que eu era porta-voz. À época, eu não sabia muito bem o que fazer e, mais ainda, como conceber e desdobrar essas respostas desafiadoras, embora já intuísse que elas portavam complexidades que precisavam ser levadas em conta. Esse foi o lastro das minhas pesquisas por ocasião do mestrado e, também, do doutorado, quando, por trilhas distintas, pude enfrentar empírica e teoricamente problemas colocados pela banda receptiva das artes visuais, particularmente por audiências não iniciadas que complicam o jogo cujas regras são definidas pelas instâncias propositivas e autorizadas, a ponto de afrontar seu hegemonismo. A inclinação artística, combinada com as linhas mediativa e teórico-conceitual, tem me permitido adotar embocadura pluralizada para lidar com as agências dos públicos e contrapúblicos, tomando seus atos de recepção deslocados como matéria para manobras ao mesmo tempo poéticas e epistêmicas. O envolvimento com as jornadas da pós-graduação, entre 2015 e 2023, me foi facilitado pelo Sesc São Paulo, organização em que atuo desde 2008. Hoje, ocupando o cargo de assessor sociocultural e integrando o time dedicado à elaboração do discurso institucional, tenho me beneficiado do reconhecimento de minha atividade como pesquisador e autor, como o demonstra a atual publicação do livro pelas Edições Sesc.

José Márcio: Você poderia nos apresentar o livro, destacando as temáticas centrais e a forma como o organizou, integrando reflexão teórica e conceitual, análise crítica da realidade, etnografia e criação artística.

Diogo: O livro é formado por três capítulos, aos quais se agrega uma seção, por assim dizer, artístico-etnográfica. Trata-se de buscar duas entradas e saídas distintas, porém complementares, para um problema comum, a saber, das atividades receptivas exercidas por públicos inexperientes e que os museus, institutos e bienais têm dificuldade em reconhecer e repercutir – justamente por enxergá-los apenas como “beneficiários” das políticas de democratização do acesso aos bens artísticos. Para tentar dar conta dos modos de usar heterônomos ostentados por essas audiências, abro o livro com um capítulo em que, por intermédio do exemplo da Bienal de São Paulo, cotejo linhas de força tanto institucionais quanto extrainstitucionais, guiando-me pela inconciliação entre condutas e enunciados de atores com poder e, por outro lado, de públicos que frustram empreendimentos pedagógicos que se apresentam como inclusivos dos que se encontram alijados do circuito artístico-cultural consagrado. O segundo capítulo é dedicado a rediscutir o estatuto dos públicos, retirando-os de uma posição institucionalmente tutelada para repensá-los em chave tripartida, enquanto sujeitos políticos, agentes destinatários e intérpretes ativos. O último capítulo do flanco teórico é reservado a formas alternativas de praticar mediação a partir das instituições de arte, em sintonia com premissas da democracia cultural – que postula a articulação entre muitos daquilo que também é produzido por muitos. Embora a disposição empírica perpasse os três capítulos, é na seção final, do Diário do busão: visitas escolares a instituições artísticas, que a assumo mais plenamente. Ao acompanhar, inclusive nos percursos de ida e volta, grupos escolares que participam de visitas mediadas no Instituto Tomie Ohtake, na Pinacoteca de São Paulo, no MASP, no MIS-SP e na Bienal de São Paulo, lanço mão de um tipo de mediação documentária. Ele se presta a registrar, traduzir e fazer circular todo um universo de reações espontâneas dos alunos e de suas professoras a oportunidades de fruição com as quais se encontram muito pouco familiarizados.

José Márcio: Na sua opinião, por que a discussão sobre práticas de mediação institucionais e extrainstitucionais é importante? Por que fazer uma crítica teórica e política ao modo como as instituições produzem e gerenciam seus públicos?

Diogo: Falar em mediação cultural nos contextos de difusão artística pressupõe, a meu ver, enfrentarmos a questão da existência pública da arte. Essa existência é necessariamente acidentada, ao passo que permeada por estranhamentos e não reconhecimentos de várias ordens, principalmente quando consideramos o chamado grande público. Daí a importância de a mediação institucional, preocupada que está em facilitar o acesso a amplas parcelas da população, ser investida por uma dimensão extrainstitucional, que não somente corrobore as prerrogativas de quem está autorizado a endereçar as audiências – tacitamente tidas como culturalmente deficitárias. E tem mais, se a instituição artística, para seguir existindo, deve se fazer social e culturalmente relevante, então ela também precisa se abrir às demandas (imprevisíveis e emergentes) daqueles que dela usufruem com maior ou menor assiduidade. Caso contrário, ela corre o risco de se tornar anacrônica e, portanto, prescindível. A mediação extrainstitucional, contrariando a lógica de classificação e gestão dos públicos, associa-se a eles na condição de cúmplice, vertendo e visibilizando suas manifestações responsivas, com vistas a convocar os agentes institucionais a também aprender com seus “destinatários”. Note que, nesse caso, a máxima da transformação dos públicos pela arte e pelas correlatas políticas institucionais é relativizada em virtude de uma dinâmica que se pretende de mão dupla. Em realidade, a mediação extrainstitucional presta um importante favor para as instituições, ainda que as confrontando em alguma medida, pois as expõe ao vir a ser dos públicos no plural e, ao fazê-lo, as sincroniza com seu tempo histórico e os dilemas que o caracterizam.

José Márcio:  Você afirma que o conceito de “público” precisa ser revisto diante das transformações contemporâneas, das e nas instituições culturais. Como articular a categoria públicos de arte e cultura com a diversidade cultural? O que é não público e contra público? Para que servem esses conceitos?

Diogo: No léxico institucional, a noção de “não público” funciona, sobretudo, para designar aquelas parcelas a serem ainda alcançadas pela ação cultural, como uma espécie de reserva gradativamente ativável por iniciativas bem intencionadas e pretensamente inclusivas. Tal categoria me soa um pouco cômoda, pois sugere o reconhecimento da exclusão, ao mesmo tempo em que denota o benemérito de dirimi-la pouco a pouco, sob a égide dos direitos culturais. Aqui, a conta fecha com certa conveniência, com as instituições justificando sua relevância enquanto mecanismos voltados a abranger cada vez mais gente – sem que se discuta possíveis questionamentos e recusas a esse projeto. Já os “contrapúblicos” estão, como se diz, no meio da sala, causando desconforto nos habitués e em quem dita as regras do jogo, uma vez que afrontam as expectativas e protocolos dos espaços de exibição e circulação da arte (físicos ou virtuais). Sustentar a presença dos contrapúblicos, no que eles têm de indigesto, é conferir consequência radical ao próprio projeto da democratização cultural – mas não para edulcorá-lo, e sim aprofundá-lo. A contrapublicidade é a encarnação performativa, em ato, do dissenso e, faz-se necessário registrar, não se confunde com a afirmação de identidades substancializadas e coesas. A propósito, me parece que a diversidade cultural vem sendo operacionalizada pelas instituições de arte, hoje, majoritariamente pelo enquadramento identitário – talvez por ele ser mais facilmente administrável. Percebo, inclusive, um viés concessivo em muitos dos programas que caminham nessa direção, não raro, movidos a um tanto de má consciência e de condescendência culpada, em que o outro é (aparentemente) reverenciado como oráculo-salvador das mazelas do Ocidente e dos processos coloniais. Tenho ciência do quão polêmico pode ser esse posicionamento, mas sinto que o compromisso mediativo e democrático com o agonismo – de balizamento produtivo dos antagonismos sociais – se encontra obliterado pela moralização do debate e pela tentativa de apaziguamento das tensões sociopolíticas pela via da segmentação e sobrevalorização das identidades, em linha com o progressismo neoliberal. É curioso observar como, em vez de topar lidar com o que emerge de dissonante face a seus programas, as instituições artísticas de um modo geral têm optado por conservar seu controle por meio da prerrogativa de proceder por “convite” – com as diferenças devidamente fatiadas e estabilizadas. Os contrapúblicos, por sua parte, irrompem sem serem convidados e é por isso que podem desafiar a instituição. A questão é oportunamente ambivalente: abrir-se à interpelação contrapública é condição para rever-se e reinventar-se.

José Márcio:  Em seu livro e em outros escritos seus, você afirma que as instituições artísticas e culturais não são neutras, elas forjam seus públicos e os sentidos. A instituição artística e cultural, organiza visibilidade, regula acesso simbólico, produz regimes de recepção. Como seria pensar uma mediação cultural como campo autônomo, e não apenas educativo, neste tipo de instituição, de forma a instituir práticas baseadas na escuta do dissenso, na ação colaborativa entre os públicos e a instituição, no diálogo entre repertórios distintos e às vezes divergentes?

Diogo: Considero que, antes de mais nada, precisamos desanexar a mediação cultural da encomenda institucional, com o que ela tem convencional. A regra geral tem sido a convocação da mediação para servir de apêndice educativo a reboque das curadorias das exposições. Nesse papel secundário, de serviço de atendimento aos visitantes, espera-se que a mediação alce “pontes” por sobre o abismo entre a prática hiperespecializada da arte e a hipotética ignorância dos públicos neófitos. O contrato que se estabelece nessa relação é não somente assimétrico, mas também dissipador de respostas e contribuições por parte da banda receptiva. Conceber a mediação ao largo dessa equação significa sustentá-la como uma espécie de movimento cultural que negocia em outras moedas com a instituição artística. Ele é ambicioso a ponto de apostar que pode contribuir para a complexificação da dinâmica institucional, na perspectiva da construção distribuída de conhecimento, com os públicos ocupando posições não limitadas à de usufrutuários de ofertas benevolentes. Repactuar as aproximações nessas bases inclui acolher e trabalhar as tensões oriundas do “diferendo” – quando distintas referências, valores e entendimentos são mobilizados para a fruição e valoração de um mesmo bem simbólico, o que tende a gerar choques de compreensão muitas vezes insolúveis. A instituição de arte só pode aceitar esse outro contrato com os públicos, via mediação cultural, caso esteja disposta a também ser transformada por aquilo que ela (ainda) não é.

José Márcio: A partir da constatação de que a mediação é a “prima pobre” entre as diversas camadas organizacionais nas instituições culturais, como é possível que ela assuma o lugar político de tensionar a lógica institucional da arte e da cultura? É possível enfrentar o poder curatorial? E o artista, como fica nessa relação?

Aí é que está… A mediação configura uma prática ambígua, de pouco valor no mercado institucional, mas de enorme potencial na arena pública. Nós, mediadores, dispomos de um trunfo: atuamos principalmente com os públicos e, por isso, somos testemunhas privilegiadas, de primeira mão, do que efetivamente se passa no tempo, por exemplo, das exposições de arte. Não é incomum que, inaugurada uma mostra, feitos os brindes, bebericados os espumantes e tecidos os networks, a banda propositiva – artistas inclusos – se ausente do ambiente expositivo e de sua extensão temporal. Mas as mediadoras e mediadores seguem por ali, interagindo cotidianamente com a malta dos frequentadores, com alguns tantos desavisados. Se a mediação for capaz de se desvencilhar de certos compromissos institucionais estipulados a priori, talvez possa inventar coisas surpreendentes (não solicitadas pelo contratante) a partir da convivência com as audiências e suas idiossincrasias. Há algo de subversivo em tal predisposição, ainda mais quando postulamos a simetria entre o que se exibe com respaldo institucional e o que é desdobrado, ou desviado, pela recepção diante desse mesmo repertório. O lance é demonstrar que o que se elabora performativamente com os públicos é parte constitutiva da vida de uma proposta expositiva, e que permanecer alheio a isso é ficar bastante aquém do que pode surgir da exibição pública da arte. Caberia à mediação, do modo como a vejo sendo mais promissora, assumir-se como procedimento documentário e (an)arquivístico, gerando memórias e objetos culturais fruíveis noutros contextos e temporalidades, para além dos momentos fugazes de interação entre mediadores, exposições, obras de arte e públicos. Formalizar essas peças de origem relacional, e fazê-las circular, é também uma forma de reendereçar as instituições e seus agentes, tornando-os públicos daqueles que até então eram seus públicos. Eis uma forma de jogar com a inversão de direções e, assim, de fomentar aprendizagens mútuas.

José Marcio: Considerando que público é produzido discursivamente, formado institucionalmente e atravessado por classe, território e repertório, e que vivemos uma crise do modelo modernista de autonomia da arte, conjugada à demanda por participação social, tensionamento das hierarquias culturais e politização da recepção artística, o que seria uma mediação sensível a essa conjuntura? O que seria uma mediação emancipadora? A mediação pode mesmo atuar como forma de crítica interna à instituição artística e cultural?

Entendo que poderíamos justamente aproveitar a condição pós-autônoma da arte – em que seu campo é sistematicamente desdefinido por pressões de diferentes naturezas, inclusive por parte de audiências que usam critérios interpretativos externos ao regime estético – para ensaiar modalidades de mediação que tratem (em mais de um sentido dessa palavra) dos dissensos, traduzindo-os e conferindo-lhes balizas para o seu encaminhamento em termos democráticos. Aliás, ao abdicar do posto de arbitragem sobre se os receptores têm ou não razão, para, em lugar disso, assumir a tarefa de compreender quais são efetivamente as suas razões, a mediação adotaria uma abordagem pós-crítica, dedicada a acompanhar e a conferir consequência a condutas e argumentações que, não raro, afrontam hierarquias culturais e reivindicam protagonismo social. Uma questão que fica em aberto, entretanto, é que as reações heteróclitas dos públicos nem sempre se baseiam em princípios emancipatórios, como demonstrou a onda de ataques civis reacionários a exposições de arte no Brasil, no segundo semestre de 2017 – emblemada pelo encerramento antecipado da “Queermuseu” pelo Santander Cultural, em Porto Alegre. Esse também é um imbróglio com o qual a mediação deve lidar, inclusive para aumentar a capacidade das instituições de arte de assumir esse tipo de insurgência como aspecto integrante da dinâmica político-social que elas dizem querer encampar, aprendendo quem sabe a trabalhá-lo. Procurei enfrentar esse problema em minha recente tese de doutorado, intitulada (Contra)públicos das artes visuais em tempos de guerras culturais: Leituras da recepção detratora via práticas documentárias. Mas esse é assunto para uma próxima conversa.

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