Na beira do velho Chico, no seu lado alagoano, um pequeno munic铆pio sertanejo, com pouco mais de vinte mil habitantes, 茅 uma esp茅cie de o谩sis no sert茫o. N茫o porque l谩 chova mais do que em outros lugares do territ贸rio nordestino. Ou porque l谩 pernoitou o imperador em 1859 a caminho da cachoeira de Paulo Afonso. Ou por conta da r茅plica kitsch do Cristo Redentor postado no topo do morro do Cavalete, de onde se v锚 o rio deslizando dentro de suas tr锚s margens (viva, Guimar茫es!).
Jaciob谩, “espelho da Lua” em guarani, por conta dos reflexos do sat茅lite no S茫o Francisco, ou P茫o de A莽煤car, seu nome oficial, 茅 um munic铆pio privilegiado por conta de um distrito seu: Ilha do Ferro. Tamb茅m 脿 beira do Baixo S茫o Francisco, neste povoado com cerca de 500 habitantes quase todo mundo 茅 artista e quase toda resid锚ncia 茅 um ateli锚, e o melhor bar, o 鈥淢acumba鈥, funciona como uma esp茅cie de galeria. E tem ainda 鈥淎 Cabra鈥 (https://www.instagram.com/cabrailhadoferro/), misto de espa莽o expositivo e resid锚ncia art铆stica.
Experimente andar pelas poucas ruas, pedindo licen莽a para entrar nas casas e conhecendo os trabalhos das artistas e dos artistas, nos mais variados suportes (madeira, cer芒mica, tecido etc.) e estilos. Depois, pegue uma canoa e v谩 visitar o ateli锚 dos irm茫os Amilton聽e Clemilton (https://www.instagram.com/clemiltonarte/) na Mata da On莽a, outro povoado de P茫o de A莽煤car, que transformam pe莽as de madeira inutilizadas (muitas delas, restos de embarca莽玫es) em obras de arte coloridas.
Se afastando do rio e adentrando um pouco no sert茫o, chega-se em outra comunidade, Lagoa de Pedra. L谩 nasceu, vive e trabalha em sua arte, Maria Jos茅 Lisboa da Cruz, a Roxinha Lisboa, ou, simplesmente dona Roxinha (https://www.instagram.com/roxinhalisboa/?hl=pt-br). Nascida em 1953, depois de trabalhar na lavoura, em uma pedreira e como gari por quase vinte anos, dona Roxinha, com saudade dos filhos e das filhas que migraram para o Sudeste, come莽ou a pintar. Tinha 59 anos e seus desenhos eram uma forma de dizer para as crias distantes o que se passava na terra natal, na sua casa, com ela e o marido, seu Domingos.
Utilizando primeiro o papel como suporte, e depois as paredes e portas da pr贸pria casa 鈥 que depois se tornaria ateli锚, al茅m de moradia 鈥, a artista passou a explorar outros meios, inclusive o que a sociedade descarta como lixo, como televis茫o, garrafa, prato de isopor. Atualmente, dona Roxinha trabalha pintando madeira com acr铆lica. E o que ela retrata em seus quadros 茅 a sua vida, os registros do que v锚 ao seu redor, na sua aldeia ou mediada pelos meios de comunica莽茫o de massa.
脡 poss铆vel ver em sua arte uma esp茅cie de ast煤cia, como diria Michel de Certeau, essa capacidade de dobrar as estruturas por meio das pr谩ticas cotidianas. Essa 鈥渁rte do fraco鈥 que, se n茫o possui um lugar pr贸prio na l贸gica do poder, de forma inteligente e criativa, aproveita as oportunidades e as brechas, vai reinterpretando a vida e se desviando das agruras. Da铆 o colorido, o humor, o amor e o afeto se sobressa铆rem nas obras. Nelas, a narrativa est谩 no desenho interagindo com frases ou palavras soltas. Incorporando a oralidade transcrita em palavras, Roxinha desafia as normas gramaticais, a fixidez das regras, e pratica uma l铆ngua viva, falada, com seus sentidos duplos, g铆rias e ironias.
Roxinha tem obras em importantes galerias do pa铆s e exp么s em 2023, no Museu do Pontal, no Rio de Janeiro, sua primeira individual 鈥淩oxinha: Uma vida de novela鈥. Agora, o circuito da Caixa Cultural exibe a exposi莽茫o 鈥淩oxinha Lisboa: Meu Brasil interior鈥 (https://www.caixacultural.gov.br/Paginas/Programacao.aspx?idEvento=4119). Dividida em tr锚s se莽玫es, 鈥淐asa Ateli锚 de Roxinha – Vida no interior”, 鈥淣ovelas da vida” 鈥 A arte e a TV no imagin谩rio brasileiro” e 鈥淐artas para Roxinha – Uma conversa com a arte”, a mostra, que j谩 passou por Recife, est谩 em Fortaleza at茅 o dia 14 de junho para, em seguida, continuar circulando por outras capitais.
Refer锚ncia
Michel de Certeau. A inven莽茫o do cotidiano. Artes de fazer. Petr贸polis: Vozes, 2000.
CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O Revista Observat贸rio da Diversidade Cultural, volume 104, n潞 01/2026 Diversidade Cultural e A莽茫o Comunit谩ria: possibilidades, experi锚ncias e desafios Per铆odo para submiss茫o: 09 de mar莽o a 04 de maio de 2026 A Revista do Observat贸rio da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideran莽as comunit谩rias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]