Por Fayga Moreira*
Nos mudamos, no alvorecer do ano corrente, para uma cidade bem pequena no interior da Bahia. Peguei meus filhos, meus livros e algumas caixas de coisas úteis, outras dispensáveis, mas com valor afetivo. Disse adeus (aliás, um até breve) para a capital carioca. Deixamos um território com cerca de 6 milhões de habitantes para viver em um município com 12 mil pessoas.
Certo dia, caminhando pelas ruas pacatas, meu filho me perguntou: “mãe, por que aqui não tem gente morando nas ruas?”. Fiquei, por alguns segundos, tentando encontrar uma resposta que estivesse à altura do seu questionamento. Me resumi, na ocasião, a elogiar a sensibilidade dele e o olhar crítico sobre um problema social que eu sequer havia notado a inexistência desde nossa chegada.
As crianças não naturalizam o horror.
No Rio, tínhamos muitos “vizinhos” em situação de rua. Gente que vivia embaixo de uma marquise e sempre cumprimentávamos ao passar em frente à sua casa-calçada. Em nosso trajeto até a escola que estudavam, esses moradores já faziam parte da rotina, da paisagem urbana, onde fica tão evidente a máquina de exclusão e desumanização que normalizamos. Essas pessoas, humanas como nós, já nos eram tão familiares que sentíamos falta quando não estavam em seu canto habitual.
Ensinei para eles que, o mínimo de dignidade que podíamos lhes devolver era olhar nos olhos de cada um como quem diz: te vejo, para mim você é um igual. Há um abismo entre nós, mas eu te enxergo. Ensinei porque aprendi com o Padre Júlio Lancellotti: fazer contato visual com pessoas em situação de rua, ainda que você não possa ajudá-las, é um gesto em si transformador. Parece algo simples, mas não é. Quando você olha nos olhos, você devolve a elas a humanidade que a desigualdade social e a condição de vulnerabilidade retiram.
Quando meu filho notou algo que havia passado despercebido para mim, fiquei dias refletindo, digerindo aquela pergunta tão disruptiva. E tudo que me ocorria era a contraposição entre comunidade e capital. Será fortuito que as capitais recebam o mesmo nome do sistema produtor de cisões sociais desumanizantes em que estamos imersos? Suponho que não. As capitais, em geral, são os territórios com maior concentração e circulação de capital. E aqui me refiro estritamente ao capital econômico (que promove a hierarquização de classes sociais por meio da renda, do patrimônio, do acesso a bens materiais e serviços privados). Em um sistema baseado na exploração do trabalho para obtenção de lucro, na produtividade como fundamento para a prosperidade, no individualismo como princípio basilar da meritocracia, a concentração de renda é, lamentavelmente, sinônimo de adensamento de pobreza e de miserabilidade. O capital não só gera, mas se nutre da falta de justiça social.
Mas apenas nas capitais o capital viceja? Claro que não.
Nos interiores desse nosso Brasil profundo, inclusive, as dinâmicas de opressão e exercício do poder podem ser até mais violentas que as operadas pelo sistema financeirizado que atinge a todos. Mas é também nesses lugares, onde quase todo mundo se conhece, que o sucesso financeiro, como lógica exclusiva de distinção social, se mostra menos totalitário.
No micro, a sensação de pertencimento comunitário encontra algum espaço para florescer. Zygmunt Bauman atentou muito bem em seus livros para a diferença entre “comunidade estética” (aquela que só entende como comum seus iguais e faz do diferente, inimigo) e “comunidade ética”. Os “bem-sucedidos” criam, segundo ele, simulacros de comunidade, que não pressupõem responsabilidades éticas compartilhadas, muito menos compromissos coletivos. Já nas periferias, a ideia de comunidade se torna estratégia de resistência e mecanismo de sobrevivência, em contraponto às violências estruturais a qual são submetidas. Contudo, dessa comunidade, busca-se sair por meio do sucesso.
A “favela venceu” é uma espécie de slogan neoliberal. Um enriquece e leva sua família junto. A favela continua sendo onde a classe trabalhadora é explorada ao extremo e desassistida pelo estado (também corroído ou hermanado com o capital). Bauman nos lembra que esse sistema meritocrático culpabiliza quem supostamente fracassa. Aspas para o autor: “somos convocados (…) a buscar soluções biográficas para contradições sistêmicas; procuramos salvação individual para problemas compartilhados”.
E há saída?
Minha hipótese é que, nas cidades pequenas dos interiores, existem mais condições para que uma “comunidade ética” vigore. Como? Por meio de um tecido social que absorve os desvios e que estabelece um pacto coletivo de cuidado com os mais vulneráveis. Assim, fica mais fácil acessar, inclusive, os direitos sociais garantidos pelo estado. Um menor adensamento populacional acaba produzindo uma sensação de menos pressão e superlotação dos serviços públicos. Mas não só: somos todas e todos filhos de alguém que importa para essa comunidade. Seja da artesã, da funcionária do postinho, da professora, do segurança, do pequeno agricultor, do pescador, da feirante, do vendedor de picolé, do prefeito. Isso significa, também, por óbvio, um estado de vigilância constante, não vamos romantizar. A diferença entre um compromisso ético (responsabilidade coletiva para garantir proteção, cuidado, respeito a todos) e o julgamento moral pode ser muito tênue.
Mas fato é que: não há desfiliação total de um dos membros dessa comunidade. Em algum espaço ele encontrará um acolhimento mínimo a ponto de não ser necessário que durma nas ruas e passe fome. E isso é muito.
Enquanto pensava nisso tudo para apresentar uma resposta “simples” para a pergunta “forte” lançada pelo meu filho, um trecho do documentário “A trama do olhar” passava como um looping dentro da minha cabeça. Nela, a câmera vai registrando cenas de uma grande cidade, com muitos prédios, muitos carros e muita gente aguardando os sinais nas ruas, imagens acompanhadas por uma fala em off de um ancião indígena que descreve, em sua língua, suas impressões sobre nosso modo de vida:
“Sinto que as pessoas que vivem nas cidades estão cada vez mais distantes umas das outras, principalmente das suas crianças. Fico impressionado quando vejo as moradias. Muitos moram em prédios, se encaixotando, como passarinhos nas gaiolas. A maioria das pessoas vive em condições muito desiguais. Na minha aldeia, todos têm acesso ao mesmo tipo de habitação. O ritmo de vida das aldeias e das cidades não são iguais. Para mim, é um desafio muito grande conhecer um pouco da vida dos Warazu (não-índios). Nas ruas, pessoas caminham como formiguinhas, sempre seguindo os mesmos passos. Correm contra o tempo do relógio sem olhar pra cima para ver a posição do sol e sentir o movimento da terra” (A TRAMA DO OLHAR, 2009).
Talvez seja sobre isso o senso de pertencimento a uma comunidade ética: quando temos o básico para garantir uma vida digna, o capital deixa de ser a única forma de vinculação, distinção e de criação de sentidos coletivos. O tempo deixa de ser associado ao dinheiro e podemos voltar a sentir o movimento da terra, o vai e vem das marés.
(*) Jornalista, pesquisadora, produtora cultural, professora universitária, escritora e mãe.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]