Por Fayga Moreira, jornalista, pesquisadora, roteirista, produtora cultural, escritora e mãe.
O mercado de trabalho da arte e da cultura é parte de uma estrutura social marcada por uma profunda desigualdade de gênero. Podemos partir desde já do princípio de que toda nossa sociedade foi construída tendo como base o sistema de pensamento patriarcal. Não há como dissociar as carreiras criativas desse contexto em que mulheres são subjugadas ao crivo dos homens que ocupam majoritariamente os espaços de decisão e poder.
As profissionais desse campo artístico e cultural se deparam com dificuldades diferentes de outras áreas, mas ainda assim muito desafiadoras ou até mais, por ser um mercado de trabalho em boa parte ainda desregulamentado e marcado pela pejotização, o que deixa tais trabalhadoras ainda mais vulneráveis em suas carreiras.
Costumo dizer, parafraseando Silvia Federici, que aquilo que chamam de flexibilidade, nós chamamos de trabalho precarizado. Essa falta de garantias trabalhistas impacta negativamente na trajetória das profissionais inseridas em todas as etapas do mercado de trabalho da arte (desde cargos técnicos – iluminadoras, figurinistas, cenógrafas, produtoras, gestoras etc, até artistas e criadoras). Ou seja, a desigualdade de gênero somada à uberização do nosso mercado de trabalho agudiza a informalidade, a diferença salarial, a insegurança financeira e, em última instância, a própria continuidade dessas profissionais no mercado artístico, especialmente quando se tornam mães.
Quando voltamos no tempo, necessariamente nos deparamos com a história de Maria Firmina dos Reis, de Dona Jacira (mãe do rapper Emicida), de Cora Coralina, de Carolina Maria de Jesus. Cada uma delas com suas obras atravessadas de forma contundente pelos marcadores de gênero. A história do apagamento de Maria Firmina é, ao meu ver, bem elucidativa do que ocorria no passado. Uma mulher negra, nascida em 1822, na cidade de São Luís, no Maranhão. Musicista, compositora, poetisa, professora e escritora. Uma multiartista que só foi reconhecida como a primeira romancista negra do Brasil porque um homem encontrou seu livro em um sebo. Nesse livro, assinado com o pseudônimo “Uma maranhense”, a escritora já resume o lugar da mulher em seu tempo: “Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. (…) Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados”. Além de silenciada e embranquecida, Maria Firmina morreu pobre e cega, apesar de sua genialidade.
É certo que já não vivemos um processo de apagamento tão escandaloso. Mas a obliteração se dá de outras formas: quantas mulheres abrem mão de suas carreiras porque acumulam as tarefas de cuidado (doméstico, com os filhos, com os idosos), enquanto os homens se escondem atrás de argumentos espúrios para não se comprometerem com o cuidado necessário para manutenção da vida? Inclusive abandonando os próprios filhos, como evidenciam as estatísticas. Muitas de nós já nem precisam usar pseudônimos porque simplesmente são esmagadas pelo neoliberalismo patriarcal e a sobrevivência fala mais alto que sua arte, sua criatividade, seus projetos e sonhos. Uma mãe solo precisa colocar comida na mesa hoje, não dá para esperar o dinheiro do edital sair para pagar seu aluguel e alimentar o seu filho.
Apesar de todo esse cenário, tivemos muitos avanços, com certeza. Tanto institucionais quanto da insurgência de mulheres diante dessas barreiras. Editais específicos, por meio de políticas públicas do Ministério da Cultura, cotas em processos seletivos, mostras com recorte de gênero, além de uma maior conscientização social sobre a falta de equidade e sobre o impacto das tarefas de cuidado nas trajetórias profissionais criativas. Soma-se a isso uma maior escolarização das mulheres, que são maioria nas universidades, embora ainda ocupem cargos menos valorizados e ganhem menos. Editoras independentes voltadas para a publicação de livros exclusivamente de autoria feminina também são exemplos de arranjos essenciais para o fortalecimento e reconhecimento do talento de mulheres artistas. Óbvio que não queremos ocupar apenas esses espaços generificados, mas neles nos fortalecemos para que nossa arte e nossas carreiras criativas alcancem espaços de visibilidade, de poder e potência, almejando alcançar paridade com os homens do mesmo setor artístico.
Um estudo bem elucidativo feito pela Ancine, a partir de bancos de dados oficiais, traça o panorama da condição das mulheres no mercado audiovisual, por exemplo. O relatório demonstra que, entre 2011 e 2021, a remuneração média mensal feminina ficou 26% abaixo da masculina no período. Por outro lado, os títulos com direção feminina obtiveram melhor desempenho de público e renda em comparação com a média geral, embora as obras dirigidas por mulheres tenham somado apenas 19,3% do total de obras brasileiras exibidas no cinema.
Ou seja, aumenta a participação, mas a desigualdade permanece em um patamar acima do eticamente aceitável. Basta lembrar, também, que os dois filmes celebrados pelo país e com premiação expressiva em festivais internacionais, “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”, foram dirigidos por homens brancos de classe alta, o que não diminui o mérito destas obras, embora exponha a importância de condições de trabalho com equidade para o desenvolvimento igualitário de talentos.
Fato é que ainda temos muito a avançar na luta para aplacar essa desigualdade, que atravessa não só as etapas de produção e criação, mas também a curadoria de museus, mostras, festivais, editoras, processos seletivos. Onde há hierarquia na seleção, ainda estamos submetidas muito fortemente ao escrutínio masculino das nossas obras.
Basta lembrar da indignação que o escritor francês Édouard Louis provocou, recentemente, ao reduzir a obra da italiana Elena Ferrante a uma crítica: literatura ruim, feita para adolescentes. A repercussão foi imensa porque não se tratava apenas do gosto subjetivo do autor, mas da inferiorização de narrativas cuja centralidade é a experiência de personagens femininas e suas angústias, complexidades, sombras e perplexidades, retrato do que vivenciamos no cotidiano. Um bom exemplo de como, para o olhar supostamente técnico masculino, nosso fazer artístico é menor ao expressarmos no cerne de nossas obras as questões estruturais que nos atravessam.
Concluo com a indignação da atriz Gwyneth Paltrow ao falar sobre a diferença salarial existente em Hollywood: “O seu salário é uma maneira de quantificar o quanto você vale. Se os homens recebem muito mais e fazem a mesma coisa, isso faz você se sentir uma merda”.
[1] Em virtude do Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, Carolina Pessoa Mulatinho, jornalista da Rádio Nacional, veículo de comunicação ligado à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), me convidou para uma entrevista sobre as desigualdades de gênero no mercado de trabalho das artes. Essa coluna foi escrita a partir da compilação das respostas completas, além de reflexões novas que me ocorreram após a publicação.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]