Por Fayga Moreira, jornalista, pesquisadora, produtora cultural, escritora e mãe.
Será coincidência ou ironia do destino que um filme que se passa no período da ditadura tenha ganhado o Oscar de melhor filme estrangeiro, dentre mais de 15 outros prêmios, no mesmo ano em que o Brasil colocava, pela primeira vez, generais que tentaram um golpe contra a democracia no banco dos réus? Para nos dar pistas sobre possíveis respostas para nossa indagação, recorro ao filósofo Jacques Rancière.
Em suas reflexões, ele defende que a política não é território apenas da luta pelo poder, mas implica necessariamente uma “partilha do sensível”, isto é: a arte impacta a experiência de tal modo que propicia novas formas de subjetividade política. O filósofo defende que tanto a estética quanto a política são modos de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos. Trazendo para nosso contexto sócio-político, podemos recorrer a uma máxima que se popularizou no país: “a crise não é apenas política, é sobretudo estética”.
O meme vai ao encontro do que Rancière argumenta: na base de toda política reside uma estética, ou seja a política se funda sobre o que se pode ver e o que se pode dizer, sobre quem tem a competência para ver; e as linguagens artísticas costumam formar um substrato sensível para que as disputas políticas ocorram.
Voltemos ao filme. Nele, a protagonista Eunice Paiva, interpretada por Fernanda Torres, luta incansavelmente para fazer justiça após o desaparecimento do seu marido no contexto da ditadura militar. Rubens Paiva foi sequestrado e assassinado pelo Estado brasileiro em 1971 e, só em 1994, Eunice obteve o atestado de óbito pelo qual tanto lutou.
O filme alcançou cerca de 6 milhões de espectadores e agendou o debate sobre os horrores da ditadura no momento em que o país atravessava outra tentativa de golpe contra a democracia. Parte da população brasileira não viveu o regime ditatorial e só o conhecia através das aulas de história. A anistia dada aos generais e torturadores que comandavam esse governo despótico serviu para aplacar a gravidade e as atrocidades cometidas. Mesmo os debates levantados pela Comissão Nacional da Verdade (2014) não ganharam a repercussão necessária para sensibilizar uma parcela significativa da opinião pública. O filme “chegou na hora certa”, digamos.
Em tempos de relativização da democracia e do surgimento de várias autocracias pelo mundo, “Ainda estou aqui” trata da ditadura brasileira a partir de uma perspectiva que toca em emoções quase universais: a desestruturação de uma família, seguida do luto, do trauma e da luta por justiça. Desse modo, sensibiliza o espectador para as violações do regime tendo como ponto de vista um drama particular que se conecta inevitavelmente ao coletivo.
De acordo com o que Rancière afirma, então, podemos dizer que o longa-metragem sensibilizou a população para o embate político e jurídico que estava porvir no julgamento contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e os generais envolvidos na trama golpista que culminou no 08/01, ápice da violência contra as instituições constitutivas do Estado Democrático de Direito.
Ainda que reconheçamos as limitações da nossa democracia, é nela que temos o direito legal de participar do jogo político, ainda que seja denunciando suas falhas, especialmente no que tange à representatividade limitada em vista da pluralidade que compõe o país. A urgência de uma democratização da própria democracia, de modo que ela não se limite apenas ao voto popular, é um horizonte para o qual precisamos caminhar, a fim de que as diferenças possam existir com igualdade e segurança para tensionar as narrativas q
ue sustentam a normalidade da dominação.
Não à toa, a arte é tão perseguida, silenciada, atacada em governos autoritários. Porque sua capacidade de recriar imaginários, difundir representações plurais sobre as diferenças e de reorganizar a “partilha do sensível”, desafia a necessidade de controle, vigilância e censura contra discursos dissidentes, próprios às ditaduras.
As artes e culturas se colocam como força motriz indispensável para alargar a democracia, criando novos arranjos de signos e imagens, novas configurações entre o que se vê e o que se diz, entre o que se faz e o que se pode fazer. “Ainda estou aqui”, ouso afirmar, pavimenta o real histórico com vias de subjetivação política democratizantes.
A presença de Rubens Paiva preenche de música, dança e alegria o ambiente familiar do enredo. Seu desaparecimento silencia, embora Eunice insista em sorrir como forma de resistência. Para finalizar, com a homenagem e o agradecimento mais que merecidos, convoco nosso grandioso Hermeto, o mago da música, que tanto nos honrou:
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]