COLUNAS

As armas e os bras玫es de Suassuna – Por Alexandre Barbalho

Por聽Alexandre Barbalho

 

Em 18 de outubro de 1970, na cidade do Recife (PE), ocorreu o primeiro concerto da Orquestra Armorial de C芒mara e uma exposi莽茫o de gravuras, pinturas e esculturas, com trabalhos, entre outros, de Gilvan Samico e Francisco Brennand na Igreja de S茫o Pedro dos Cl茅rigos, que, junto com seu p谩tio, 茅 considerada um dos conjuntos arquitet么nicos mais expressivos do barroco pernambucano. Ali come莽ava o movimento Armorial, liderado pelo escritor paraibano Ariano Suassuna.

Movimento amplo pois envolvia n茫o s贸 a m煤sica, que valorizava instrumentos como a rabeca, a viola e o viol茫o, na busca da s铆ntese da m煤sica de c芒mara com os temas mel贸dicos do sert茫o, e as artes visuais, inspiradas na her谩ldica e simbologias medievais, mas tamb茅m na literatura que, al茅m do pr贸prio Suassuna, reunia escritores como Maximiniano Campos, Marcus Accioly, Fernando Farias e Raimundo Carrero que recorriam a estruturas 茅picas para retratar um sert茫o m铆tico, al茅m de teatro e dan莽a, que combinavam elementos do auto popular, da commedia dell’arte, do barroco religioso e do misticismo popular.

A palavra armorial, de origem francesa, refere-se a livro de armas ou bras玫es de fam铆lias nobres, ou seja, 脿 cole莽茫o her谩ldica. Buscando as ra铆zes medievais e ib茅ricas na cultura brasileira, em particular na nordestina, Suassuna propunha um movimento literalmente conservador, no sentido de preservar os elementos que para ele seriam os pilares de nossa identidade nacional. Mas tamb茅m conservador politicamente, pois surgindo no momento mais cruel da ditadura militar, n茫o guardava v铆nculos com os movimentos populares que foram bastante atuantes em Pernambuco uma d茅cada antes, como o Movimento Cultura Popular ou as Ligas Camponesas.

Imerso nesse imagin谩rio feudal e crist茫o, simpatizante do monarquismo, Ariano apoiou o Regime Militar e participou do Conselho Federal de Cultura, criado em 1966, que reunia intelectuais adeptos do Regime. Mesmo ap贸s ter virado um cr铆tico dos miliares no final da d茅cada de 1970 e se tornado um escritor de esquerda, pr贸ximo ao Partido Socialista Brasileiro, n茫o deixou de ser um conservador, pelo menos no que se diz respeito 脿 dimens茫o cultural. Beirava o folclore suas declara莽玫es de ojeriza 脿s express玫es da cultura massiva e sua implic芒ncia com o estrangeirismo do movimento Mangue Beat, por exemplo.

Como dizem Jonatan Teixeira e Paulo Cust贸dio de Oliveira, para Ariano, a cultura brasileira 鈥渆st谩 consubstanciada no sert茫o, espa莽o m铆tico em que as temporalidades hist贸ricas se fossilizaram e criaram um tipo cultural pregresso, fundido j谩 no cadinho ib茅rico e mesti莽ado com o ind铆gena no interior do Nordeste. A obra de Suassuna, bem como a proposta geral dos seguidores deste Movimento, era a de remontar aos tempos da realeza e, ao mesmo tempo, produzir uma arte brasileira fundamentada nas ra铆zes culturais populares sertanejas que fizesse frente ao constante apelo de compositores e artistas de influ锚ncias estrangeiras鈥. O que coloca uma quest茫o interessante, cujas possibilidades de respostas transcendem os limites deste artigo: como um pensamento est茅tico e pol铆tico conservador pode resultar em cria莽玫es art铆sticas t茫o potentes quanto as que se identificaram ou foram identificadas como armoriais?

Basta visitar a exposi莽茫o “Armorial 50”, que celebra meio s茅culo do聽movimento, para ser impactado por essa vasta e diversificada produ莽茫o cultural. Atualmente em exposi莽茫o no聽Espa莽o Cultural Unifor, em Fortaleza, j谩 passou por Belo Horizonte, Rio de Janeiro, S茫o Paulo, Bras铆lia, Campina Grande, Recife, Salvador e Natal. Com curadoria de聽Denise Mattar, e consultoria do artista pl谩stico聽Manuel Dantas Suassuna聽(filho de Ariano Suassuna) e do poeta e professor da Universidade Federal de Pernambuco聽Carlos Newton J煤nior.聽A mostra cerca de聽140 obras聽de artistas armoriais, al茅m de聽Ariano, tais como聽Francisco Brennand,聽Gilvan Samico,聽Alu铆sio Braga e聽J. Borges.

Uma oportunidade imperd铆vel para ver como as armas e os bras玫es de Ariano e sua turma n茫o s茫o a s铆ntese da cultura brasileira, mas como ajudaram e muito pra a sua pluralidade.

 

Refer锚ncia:

TEIXEIRA, Jonatan Nunes; DE OLIVEIRA, Paulo Cust贸dio. Movimento Armorial: a dualidade entre o erudito e o popular.聽Revista de Literatura, Hist贸ria e Mem贸ria, v. 13, n. 22, p. 163-174, 2017.

Deixe aqui o seu comentario

Todos os campos devem ser preenchidos. Seu e-mail n茫o ser谩 publicado.

ACONTECE

Chamada para publica莽茫o 鈥 Boletim 103, N. 01/2025

CHAMADA PARA PUBLICA脟脙O – Boletim 103, n潞 01/2025 Os 20 anos da Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais Per铆odo para submiss茫o: 21 de maio a 08 de setembro de 2025   Este ano a Conven莽茫o sobre a Prote莽茫o e Promo莽茫o da Diversidade das Express玫es Culturais promulgada pelos pa铆ses membros da […]

CURSOS E OFICINAS

Gest茫o Cultural para Lideran莽as Comunit谩rias – Online

O Observat贸rio da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo 脿 Cultura de Belo Horizonte, patroc铆nio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de forma莽茫o GEST脙O CULTURAL PARA LIDERAN脟AS COMUNIT脕RIAS. Per铆odo de realiza莽茫o: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Hor谩rio: Encontros online 脿s quintas-feiras, de 19 脿s 21h00 Carga hor谩ria total: 6 […]

Mais cursos