Em 18 de outubro de 1970, na cidade do Recife (PE), ocorreu o primeiro concerto da Orquestra Armorial de Câmara e uma exposição de gravuras, pinturas e esculturas, com trabalhos, entre outros, de Gilvan Samico e Francisco Brennand na Igreja de São Pedro dos Clérigos, que, junto com seu pátio, é considerada um dos conjuntos arquitetônicos mais expressivos do barroco pernambucano. Ali começava o movimento Armorial, liderado pelo escritor paraibano Ariano Suassuna.
Movimento amplo pois envolvia não só a música, que valorizava instrumentos como a rabeca, a viola e o violão, na busca da síntese da música de câmara com os temas melódicos do sertão, e as artes visuais, inspiradas na heráldica e simbologias medievais, mas também na literatura que, além do próprio Suassuna, reunia escritores como Maximiniano Campos, Marcus Accioly, Fernando Farias e Raimundo Carrero que recorriam a estruturas épicas para retratar um sertão mítico, além de teatro e dança, que combinavam elementos do auto popular, da commedia dell’arte, do barroco religioso e do misticismo popular.
A palavra armorial, de origem francesa, refere-se a livro de armas ou brasões de famílias nobres, ou seja, à coleção heráldica. Buscando as raízes medievais e ibéricas na cultura brasileira, em particular na nordestina, Suassuna propunha um movimento literalmente conservador, no sentido de preservar os elementos que para ele seriam os pilares de nossa identidade nacional. Mas também conservador politicamente, pois surgindo no momento mais cruel da ditadura militar, não guardava vínculos com os movimentos populares que foram bastante atuantes em Pernambuco uma década antes, como o Movimento Cultura Popular ou as Ligas Camponesas.
Imerso nesse imaginário feudal e cristão, simpatizante do monarquismo, Ariano apoiou o Regime Militar e participou do Conselho Federal de Cultura, criado em 1966, que reunia intelectuais adeptos do Regime. Mesmo após ter virado um crítico dos miliares no final da década de 1970 e se tornado um escritor de esquerda, próximo ao Partido Socialista Brasileiro, não deixou de ser um conservador, pelo menos no que se diz respeito à dimensão cultural. Beirava o folclore suas declarações de ojeriza às expressões da cultura massiva e sua implicância com o estrangeirismo do movimento Mangue Beat, por exemplo.
Como dizem Jonatan Teixeira e Paulo Custódio de Oliveira, para Ariano, a cultura brasileira “está consubstanciada no sertão, espaço mítico em que as temporalidades históricas se fossilizaram e criaram um tipo cultural pregresso, fundido já no cadinho ibérico e mestiçado com o indígena no interior do Nordeste. A obra de Suassuna, bem como a proposta geral dos seguidores deste Movimento, era a de remontar aos tempos da realeza e, ao mesmo tempo, produzir uma arte brasileira fundamentada nas raízes culturais populares sertanejas que fizesse frente ao constante apelo de compositores e artistas de influências estrangeiras”. O que coloca uma questão interessante, cujas possibilidades de respostas transcendem os limites deste artigo: como um pensamento estético e político conservador pode resultar em criações artísticas tão potentes quanto as que se identificaram ou foram identificadas como armoriais?
Basta visitar a exposição “Armorial 50”, que celebra meio século do movimento, para ser impactado por essa vasta e diversificada produção cultural. Atualmente em exposição no Espaço Cultural Unifor, em Fortaleza, já passou por Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Campina Grande, Recife, Salvador e Natal. Com curadoria de Denise Mattar, e consultoria do artista plástico Manuel Dantas Suassuna (filho de Ariano Suassuna) e do poeta e professor da Universidade Federal de Pernambuco Carlos Newton Júnior. A mostra cerca de 140 obras de artistas armoriais, além de Ariano, tais como Francisco Brennand, Gilvan Samico, Aluísio Braga e J. Borges.
Uma oportunidade imperdível para ver como as armas e os brasões de Ariano e sua turma não são a síntese da cultura brasileira, mas como ajudaram e muito pra a sua pluralidade.
Referência:
TEIXEIRA, Jonatan Nunes; DE OLIVEIRA, Paulo Custódio. Movimento Armorial: a dualidade entre o erudito e o popular. Revista de Literatura, História e Memória, v. 13, n. 22, p. 163-174, 2017.
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