Por Paula Gotelip
Entre as questões que ficaram em aberto depois do Primeiro Encontro Nacional de Teatros para Infâncias e Juventudes da ASSITEJ Brasil, uma me acompanhou com insistência. Surgiu primeiro nos corredores, nas conversas informais entre artistas, gestores e programadores, e depois apareceu brevemente em uma mesa pública. A questão foi lançada, causou desconforto, e não houve tempo para aprofundamento.
Por que o cachê pago a espetáculos para crianças ainda é menor do que o destinado ao teatro adulto? Confesso que tomei um susto. Achava que essa discussão já estivesse superada, que diante dos avanços nos discursos sobre direitos culturais das crianças, participação social e valorização das infâncias, algumas práticas já tivessem sido revistas.
Ao retornar para casa, comecei um exercício de memória. Lembrei das últimas curadorias das quais participei. Em uma delas, dividia a comissão com outra pesquisadora do campo do teatro para infância. O edital previa pontuação extra para propostas voltadas às infâncias. Boa parte do nosso trabalho foi justamente discutir o que significava produzir para crianças.
Nem todo espetáculo livre nasce de uma pesquisa sobre a infância como público. Há trabalhos livres pensados desde a concepção para uma criança espectadora, e há trabalhos livres em que a abertura à infância é apenas um efeito colateral da ausência de restrição. A pergunta que me interessa não é se a criança pode assistir. É se ela foi considerada, desde o início, como interlocutora possível daquele processo artístico.
Quantos festivais ainda reservam um ou dois horários simbólicos para espetáculos infantis, sem dar a eles o mesmo peso curatorial dedicado à programação adulta? O próprio Palco Giratório, maior projeto de circulação de artes cênicas do país, ilustra essa mudança em curso: em edições anteriores, a proporção de espetáculos para infância era mínima diante do total selecionado, em alguns anos um único trabalho num conjunto de dezesseis. Na edição de 2026, dos dezesseis espetáculos do circuito nacional, dois são dirigidos às infâncias e dois às juventudes. No texto que assina no catálogo deste ano, a curadora Karla Mesquita, do Sesc Mato Grosso, cita a pesquisadora Taís Ferreira para afirmar o compromisso da curadoria em romper com estereótipos historicamente cristalizados no teatro infantil.
Quantos espaços culturais têm temporadas permanentes para infância? Quantos editais têm linhas específicas para pesquisa, criação e circulação de obras destinadas às crianças e aos adolescentes? Não busco responder a estas questões agora. Elas revelam uma estrutura cultural que historicamente colocou o teatro para infância em posição secundária, uma estrutura que tem raízes antigas: pesquisas sobre a história do teatro para crianças no Brasil mostram que o campo nasceu, no início do século passado, atrelado ao ideário pedagógico da Escola Nova, e que essa origem ainda deixa marcas em como o trabalho é valorizado hoje.
Durante o encontro, ouvimos gestores falarem sobre formação de público, sobre a importância das infâncias, sobre o papel estratégico das crianças para o futuro das artes cênicas. Ouvimos relatos sobre processos criativos construídos a partir da escuta infantil, sobre participação de crianças em curadorias, sobre pesquisas que reconhecem a infância como produtora de cultura. Ouvimos também relatos de grupos que encontram dificuldades para captar recursos, para circular seus trabalhos, para ocupar espaços de programação.
Todos parecem concordar que as crianças são importantes. Nem todos parecem dispostos a investir nessa importância.
Quem atua no campo sabe que criar para crianças exige pesquisa sobre desenvolvimento humano, acessibilidade, mediação, recepção estética, participação e diversidade das infâncias. Exige pensar públicos que muitas vezes vivem sua primeira experiência artística. Exige responsabilidade ética e artística.
Outra observação que surgiu nessas conversas merece ser registrada aqui, porque amplia o problema para além do cachê. Quando um grupo que faz teatro para crianças ou para juventudes ocupa um espaço cênico, com frequência encontra a luz já montada para o espetáculo adulto que será apresentado à noite. A concepção de iluminação daquele outro trabalho permanece fixada, e é a partir dela que a equipe técnica vai operar. O espetáculo para infância precisa se adaptar ao que já está lá. Na prática, a dramaturgia da luz pensada para aquela criação específica não chega a existir como projeto autônomo. Ela se torna um ajuste, uma negociação dentro dos limites de outra concepção artística.
Talvez por isso as perguntas feitas no encontro mereçam permanecer abertas, não como provocação sobre cachês ou luz, mas como reflexão sobre o lugar que a infância ocupa nas políticas culturais brasileiras. Se acreditamos que as crianças têm direito à arte, à cultura e à experiência estética de qualidade, por que em 2026 ainda nos surpreendemos ao descobrir que o teatro para crianças continua valendo menos, e que sua concepção artística ainda precisa se ajustar ao que já estava montado para outro público?
Até hoje?
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]