Por Gabriel Portela
O cinema brasileiro vive um momento histórico de reconhecimento e projeção no cenário internacional. A consagração do filme “Ainda Estou Aqui”, com indicações ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Atriz, e a vitória histórica na categoria de Melhor Filme Internacional, recolocam o Brasil sob os holofotes da indústria global. O impacto simbólico e político dessa conquista transcende a premiação: ela reposiciona a produção nacional no circuito das grandes narrativas contemporâneas e reforça o papel estratégico da cultura como ativo de desenvolvimento, identidade e inserção internacional. Esse movimento de ascensão não ocorre isoladamente. Ele reflete um longo processo de amadurecimento da cadeia produtiva audiovisual no país, que envolve talentos criativos, políticas públicas, inovação e crescente capacidade de articulação com o mercado internacional.
Embora o mineiro seja conhecido por sua discrição e fala mansa, cercado pelas montanhas que moldam seu jeito, o audiovisual produzido em Minas tem rompido essas fronteiras e ganhado projeção internacional, ocupando um espaço cada vez mais relevante e se destacando como um dos principais polos de produção audiovisual no Brasil com uma rica história que remonta ao pioneirismo de Humberto Mauro, um dos fundadores do cinema nacional.

Foto: Divulgação filme “Marte Um”, de Gabriel Martins
Alguns destaques dessa produção ilustram esse rico panorama das empresas e profissionais mineiros. O filme “Marte Um” (2022), de Gabriel Martins, recebeu quatro prêmios no Festival de Gramado e foi o escolhido para representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2023. O longa foi produzido pela Filmes de Plástico, empresa de Contagem/Belo Horizonte que, ano após ano, vem ganhando cada vez mais destaque, ampliando parcerias com players internacionais e projetando os seus talentos para o mundo.
Ricardo Teodoro, ator mineiro, foi premiado como Melhor Ator Revelação na prestigiada Semana da Crítica de Cannes por sua atuação em “Baby” (2024), do diretor Marcelo Caetano. No campo da animação, “Chef Jack – O Cozinheiro Aventureiro” (2023), primeiro longa-metragem de animação inteiramente produzido em Minas Gerais e dirigido pelo saudoso amigo Guilherme Fiuza, disputou bilheteria com grandes sucessos internacionais e alcançou a oitava posição no ranking de ingressos vendidos em seu final de semana de estreia.
Este é apenas um pequeno recorte entre tantas empresas e profissionais que contribuem para a riqueza do audiovisual mineiro. Há uma ampla gama de talentos que também se destacam e merecem reconhecimento. Ainda assim, os exemplos citados ajudam a ilustrar a diversidade estética, narrativa e de formatos que caracteriza a produção no estado — que vai de dramas intimistas a animações com vocação comercial, evidenciando a força criativa e a capacidade de diálogo global do audiovisual feito em Minas Gerais.
Esse protagonismo artístico se articula com um crescimento econômico efetivo do setor no estado. Minas Gerais é hoje o terceiro maior polo audiovisual do Brasil, com 6% dos agentes econômicos cadastrados na ANCINE, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. Entre 2014 e 2021, o número de empresas cresceu 52% em todo o estado, e mais de 110% em Belo Horizonte, com destaque para o fortalecimento das áreas de pós-produção, games, animação e serviços técnicos especializados. A cadeia produtiva se diversifica e se expande, impulsionada por políticas públicas locais e articulação entre as entidades do setor.
Além da produção, Minas Gerais também se destaca como plataforma de encontro, debate e geração de negócios. A MAX – Minas Gerais Audiovisual Expo consolidou-se como o principal evento de mercado do setor no estado, reunindo produtores, distribuidores, compradores, investidores, programadores e representantes governamentais. Em sua última edição, o evento movimentou mais de R$ 750 milhões em prospecções de negócios, reafirmando o papel dos eventos como dispositivos estratégicos para consolidar a presença de Minas no mapa do audiovisual nacional e internacional. A realização de eventos de mercado como o Brasil CineMundi – International Coproduction Meeting e festivais como a Mostra de Cinema de Tiradentes, também colaboram para fortalecer o ecossistema do setor.
Esse processo vem sendo impulsionado por articulações institucionais importantes. Um exemplo recente foi a presença de produtoras mineiras no LatAm Content Meeting 2025, evento de mercado voltado à América Latina. A ação liderada pelo SINDAV-MG — Sindicato da Indústria do Audiovisual de Minas Gerais — resultou em 67 reuniões de negócios, 32 projetos apresentados e mais de R$ 13 milhões em negócios prospectados, com R$ 4,7 milhões já contratados. A participação organizada de delegações mineiras em eventos internacionais se mostra, portanto, um caminho eficaz para ampliar a visibilidade da produção local, acessar redes de coprodução e distribuição e gerar oportunidades concretas de negócios.
É hora de as instituições públicas e privadas de Minas Gerais enxergarem o audiovisual como o que ele realmente é: uma oportunidade e alternativa estratégica de desenvolvimento econômico, inovação, projeção internacional e fortalecimento da identidade cultural do estado. Países e regiões que compreendem o papel do cinema e das indústrias criativas em suas economias investem com visão, planejamento e continuidade — não apenas por reconhecerem seu valor simbólico, mas por entenderem seu potencial de gerar empregos, atrair investimentos e posicionar territórios no cenário global. Minas Gerais já tem talento, produção qualificada e experiências bem-sucedidas. Agora, o desafio é estruturar um ambiente que permita a expansão sustentável e internacionalizável desse ecossistema criativo.
Isso pode ser feito por meio de políticas públicas que estimulem a presença das empresas mineiras no mercado global por meio de mecanismos de apoio à internacionalização e participação em eventos de mercado internacionais, programas de capacitação para inserção competitiva e ações integradas com outras agendas estratégicas, como a tecnologia, inovação e o turismo.
As obras produzidas em Minas Gerais carregam um modo singular de contar histórias, enraizado na cultura local, nos afetos, na relação com o tempo e o cotidiano, mas que ao mesmo tempo dialoga com questões universais e contemporâneas. Essa potente combinação entre identidade e linguagem global se torna um ativo de grande valor no mercado internacional.
O audiovisual mineiro já demonstrou sua força criativa, seu valor econômico e sua capacidade de dialogar com o mundo. O momento é promissor. Mas para transformar esse potencial em impacto duradouro, é preciso visão estratégica, articulação institucional e investimentos contínuos. A hora de consolidar o audiovisual como vetor de desenvolvimento e projeção global de Minas Gerais é agora.
CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
O Observatório da Diversidade Cultural, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, patrocínio do Instituto Unimed, realiza o ciclo de formação GESTÃO CULTURAL PARA LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS. Período de realização: 10, 17 e 24 de outubro de 2024 Horário: Encontros online às quintas-feiras, de 19 às 21h00 Carga horária total: 6 […]