Por Fayga Moreira, jornalista, pesquisadora, produtora cultural, escritora e mãe.
(Leia assistindo: Show Bad Bunny_Super Bowl Halftime Show)
Para explicar o potencial disruptivo do icônico show do Bad Bunny, em um dos horários nobres mais caros da TV dos EUA, precisamos voltar a outubro de 2024.
Uma “ilha flutuante de lixo”, foi assim que a terra natal do artista foi definida
por um apoiador de Donald Trump, em um comício durante as eleições presidenciais. Apenas mais uma das falas xenofóbicas, ou latinofóbicas, dirigidas à população da América Latina.
Podemos retroceder um poquito más, até o período da colonização espanhola, para lembrar que Porto Rico e Cuba foram os últimos territórios a se tornarem independentes da Espanha. Cuba conseguiu se rebelar e reafirmar sua soberania com a revolução cubana de 1959. Até hoje (e ainda com mais força atualmente), a ilha sofre com o estrangulamento criminoso do embargo econômico imposto pelos ‘americanos’. Porto Rico, por outro lado, nunca foi um estado independente. Passando de colônia espanhola para um protetorado dos EUA. Por isso, a Comissão Especial sobre Descolonização da ONU1 considera o território porto-riquenho como um caso de “situação colonial”. Seus cidadãos têm livre trânsito nos EUA, ou seja não sofrem embargos e parecem ter mais liberdade que os cubanos, mas não podem votar, tampouco têm autonomia para tomar suas próprias decisões políticas-econômicas-sociais. Ou seja, enquanto cubanos pagam o preço da libertação, porto-riquenhos vivem um “não-lugar” político. Nem colônia, nem nação independente. Cidadãos de segunda classe de um país que vê nos latinos a escória da humanidade.
Esse é parte do contexto sócio-histórico por trás do fenômeno Bad Bunny, nome artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio. Um garoto de Porto Rico que chega ao topo das paradas de sucesso nos aplicativos de música mais populares, com letras e ritmos que enaltecem suas raízes culturais, seu povo, seus “mais velhos” e a história de sua terra – muito mais latina e caribenha, muito mais cubana que norte-americana. Por isso, Bad Bunny se torna um holofote contra as políticas anti-imigratórias do atual governo, esse mesmo que está promovendo um caos em todo o ordenamento diplomático e geopolítico internacional. Antes mesmo do show no Super Bowl (o mais visto da história do evento), Bad Bunny já se posicionava de forma incisiva: “Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas, somos humanos e somos americanos”, disse em seu discurso no Grammy.
A estimativa é de que 135 milhões de pessoas tenham assistido ao vivo o show (político, do início ao fim) de Bad Bunny no Super Bowl. E aqui está o ponto que mais me interessa pensar. Entre imagens de plantações de cana-de-açúcar, cenas de festas familiares, comércios e comidas típicas, carros, cadeiras, postes, roupas, posturas, todo o cenário, o figurino, o corpo de baile, tentavam recriar uma ambiência cultural-afetiva de Porto Rico na final do campeonato de futebol americano.
A imagem preconceituosa e unidimensional de uma ilha flutuante de lixo foi contraposta não por outra, mas por muitas outras. No contraste, o lixo se torna riqueza. Na disputa simbólica, a pobreza ética e intelectual ganha a feição de quem enxerga assim um território que só é diminuto em sua extensão geográfica. Bad Bunny, tal qual José Martí2, dispensa o olhar colonial sobre a ilha e reforça sua vinculação com uma latinoamérica combativa, que respira luta. Em uma das canções, interpretada no show por Ricky Martin, essa postura se mostra sem filtros: “Quieren quitarme el río y también la playa/Quieren al barrio mío y que abuelita se vaya/No, no suelte’ la bandera ni olvide’ el lelolai3/Que no quiero que hagan contigo lo que le pasó a Hawái/Aquí nadie quiso irse, quien se fue sueña con volver/Si algún día me tocara, que mucho me va a doler”.
A forma-espetáculo dá vida a uma insurgência decolonial antiimperialista que chega a milhões de espectadores. Onde se vê uma estratégia da indústria cultural para aumentar a audiência do evento esportivo, vemos uma tática de guerrilha contracultural. Do epicentro do poder, a mensagem em neon evocada na mise-en-scéne: Make América Latina Great Again.
Diante da euforia provocada por Bad Bunny e seu manifesto, muitos correram apressadamente para apontar que nada daquilo era disruptivo, apenas a indústria do espetáculo atuando de modo a acomodar a indignação coletiva dentro do jogo simbólico. Será que os neofrankfurtianos têm razão? A carta na manga que trago para reflexão parece muito mais atual e factível que a compreensão do massivo como alienante: as propostas do antropólogo/filósofo colombiano Jesús Martín-Barbero. Entre os anos 80 e o final da década de 90, ele defende o conceito de ‘mediações’ como lente mais apropriada para analisar a recepção de conteúdos midiáticos pelas classes subalternizadas. Um importante deslocamento do entendimento do ‘massivo’: de mecanismo de dominação para um processo social vivido em um campo de batalha discursivo, sempre movente. Nele a disputa
não termina com o apito de um árbitro, mas com a capacidade dos envolvidos de adentrarem o campo do adversário para falar sua “língua” e se contrapor a ele.
Vou além, desconsiderar o caráter transgressor da arte (transformada em espetáculo ou não) é fortalecer o discurso hegemônico. Afinal, o tão aclamado soft power nada mais é que a sofisticada habilidade de sensibilizar mentes (ou colonizá-las). Se o soy latina vai estampar camisas e bonés vendidos em lojas, não nos esqueçamos que, do outro lado, temos a ostentação de bonés com o símbolo do MAGA (Make América Great Again). E são esses últimos que defendem a ideia de que latinos não são confiáveis, são uma ameaça, são inferiores, justificando políticas com impacto imediato sobre as vidas e corpos dos imigrantes. O show de Bad Bunny, que recoloca os latinos dentro de um continente que dá nome (arbitrariamente) a apenas um país, catalisa não só o enaltecimento de todo o território, mas também um olhar profundamente crítico sobre a forma adotada pelo colonizador para manter sua dominação.
Questionar, a partir de um espetáculo, o lugar de enunciação do império sacode seus alicerces. Talvez não provoque revoluções como a de Cuba, mas tem o potencial de salvar vidas na esquina da história em que nos situamos.
Como encerra Benito, “Juntos, somos a América”.
2 Considerado o mártir da independência cubana, foi escritor e fundador do Partido Revolucionário Cubano.
3 Técnica vocal tradicional de Porto Rico, caracterizada por um canto entoado pelos jibaros (povo humilde e trabalhador das montanhas que trabalhava nas plantações de café e fazendas do interior de Porto Rico), muitas vezes com sílabas como “le-lo-lai”.
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