Reza a história: um ano após o fim oficial da escravidão no Brasil, João de Obá e seus filhos e filhas de santo se reuniram no largo do mercado de Santo Amaro para comemorar o feito. Naquele momento, se iniciou um dos mais importantes festejos da cultura afro-brasileira: o Bembé do Mercado. Reconhecido como patrimônio imaterial da Bahia, desde 2012, e do Brasil, desde 2019, trata-se do único candomblé de rua do mundo. Tendo sofrido interrupções em alguns períodos por conta da intolerância e consequente repressão às manifestações simbólicas de matrizes africanas, em especial as religiosas, tornou-se, nos dias correntes, um evento con/sagrado e, diria, consagrador, reunindo uma diversidade de participantes da cidade e de outras localidades do país e do exterior.
Hoje, a festa possui sua associação beneficente [https://bembedomercado.org.br/] que está envolvida com a preservação das religiões de matriz africana em Santo Amaro, o que implica combater os persistentes racismos e intolerâncias religiosas, por meio de ações tanto de proteção e salvaguarda simbólica do patrimônio imaterial, quanto da sustentabilidade material das comunidades de terreiro. A associação de direito privado, sem fins lucrativos, é composta por mais de 60 terreiros de candomblé santo-amarenses.
Atualmente é presidida por José Raimundo Lima Chaves, o Pai Pote, uma liderança entre mães, pais, filhas e filhos de santo e espécie de anfitrião da festa, que recebe os terreiros no barracão instalado no largo do mercado. Neste ano de 2025, na sexta-feira, 16 de maio, na Praça da Purificação, ocorreu a pré-estreia do filme “Pai Pote, o filho de Ogum” [https://www.instagram.com/paipote.ofilme/], dirigido por Laís Lima, primeira realizadora santo-amarense a fazer um longa-metragem na cidade. Projeto contemplado nos editais da Paulo Gustavo Bahia e que contou com uma equipe só de mulheres, o longa refaz o trajeto de Pai Pote na Bahia, na Lavagem da Purificação e no Bembé do Mercado, em Paris, na Lavagem de La Madeleine e na visita à sede da UNESCO, e em Lisboa. Uma noite de chuva não conseguiu dispersar as mais de 300 pessoas que reverenciaram este filho de Ogum.
Tradicionalmente, a festa ocorre de quarta à domingo. Na quarta e quinta são dias de Xirê, quando se dança para evocação dos Orixás de cada nação. Na sexta, dia de Oxalá, não há Xirê, mas, em um ambiente onde predomina o branco, no palco armado próximo ao barracão, tem samba de roda. No sábado é o dia que chegam no mercado os presentes às Yabás Iemanjá e Oxum e se retoma o Xirê. No dia seguinte, domingo, os presentes saem em cortejo que contorna por três vezes a Igreja de Nossa Senhora da Purificação e segue para a praia de Itapema onde são colocados em canoas e levados para o alto mar, os de Iemanjá, e os de Oxum, colocados no rio.
Como diz Ana Rita Machado, ao trazer as memórias e as narrativas das pessoas mais velhas participantes do Mercado do Bembé, o festejo é um modo de “relembrar as lutas pelo fim da escravidão, buscando traduzir nessa data as referências de uma memória que pudesse ser rememorada, tendo em vista as referências civilizatórias que aproximassem a comunidade da lógica que lhes conferiam sentido as suas experiências no mundo onde viviam”, posicionando-se, assim, “no mundo que pretendia hostilizá-los, e interditar a lógica na qual as comunidades dos terreiros evidenciavam e conferiam sentidos as experiências que construíram com o fim da escravidão”.
Referências
Machado, Ana Rita Araújo. Bembé do Largo do Mercado: memória sobre o 13 de maio. 133f. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos, 2009.
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