O Cariri é um dos umbigos do mundo, cujo centro é formado pela conurbação Crajubar, a metrópole que resultada da junção das cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Articulado pela Chapada do Araripe com seus 160 km de extensão, é um território de fronteiras, um entre-lugar do Piauí, Ceará, Paraíba e Pernambuco.
Ali, onde habitam os povos Kariris, há uma produção simbólica perene, que vem das mais profundas matrizes populares em hibridismo com as manifestações da cultura internacional-popular, como diria Renato Ortiz, e das experimentações de múltiplas linguagens. Mestres e mestras da cultura e artistas contemporâneos se alimentam em diversas expressões (folguedos, artes visuais, música, teatro, audiovisual, dança…) e suportes (cerâmica, madeira, pedra, ouro, tela, película, couro…).
Gente envolvida desde muito tempo também em outras artes e vanguardas, como a Confederação dos Kariris, movimento de resistências daqueles povos originários ao processo colonizador; a Revolução Pernambucana de 1871, com seu ideário liberal e republicano que teve na cidade do Crato um de seus centros; e, pouco depois, a Confederação do Equador, em 1824, onde, mais uma vez, os cratenses participaram de forma ativa, e de onde emerge a figura de Bárbara de Alencar, a primeira presa política do país. Isso sem falar nas proezas religiosas e políticas de Cícero Romano Batista, o padim Ciço que transformou uma pequena vila, Juazeiro, em uma das importantes cidades do sertão brasileiro e centro do catolicismo popular.
Uma síntese dessa ebulição cultural (mas também política e social) está na exposição “Cariri: corpo, terra e cultura”, com curadoria de Bitu Cassundé e curadoria adjunta de Maria Macêdo e Francisco Pereira, no Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo (https://centroculturaldocariri.cultura.ce.gov.br/), que faz parte da rede de equipamentos da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará.
Inaugurado em abril de 2022, o Centro Cultural do Cariri promove arte, ciência e tecnologia, em um edifício construído na década de 1940, para abrigar o Seminário da Ordem da Sagrada Família. Com mais de 50 mil metros quadrados, possui espaços expositivos, residências artísticas, rádio escola, salas de formação, palco para espetáculos e projeções de cinema e ateliê de artes e ofícios. A área externa tem pistas de skate e quadras de areias, além de ampla área verde que é ocupada pela população para os mais diversos usos. O centro homenageia Sérvulo Esmeraldo, artista nascido no Crato em 1929 cuja trajetória artística, reconhecida nacional e internacionalmente, abrangeu a escultura, a gravura e o desenho, destacando-se por seu domínio das formas geométricas (https://institutoservuloesmeraldo.com.br/).
“Cariri: corpo, terra e cultura” não é só a maior exposição do Centro Cultural desde a sua inauguração, mas é o principal esforço de todos os tempos de sistematização das artes visuais caririenses. Não há como não lembrar da fabulação em torno do “Museu das Origens” de Mário Pedrosa e das históricas exposições de Lina Bo Bardi: Bahia no Ibirapuera (1959), Nordeste (1963) e A Mão do Povo Brasileiro (1969).
Ao todo, são mais de 170 artistas e, aproximadamente, 2.300 obras (ilustrações, fotografias, esculturas, pinturas, bordados, instalações, vídeos e gravuras) divididas em três núcleos: “Anunciação”, “Encandear” e “Abrir com mãos afiadas o caminho”. Para Bitu Cassundé, a exposição instaura “um campo expandido de experiência, onde paisagem e corpo deixam de existir como categorias isoladas. O território emerge como organismo sensível, enquanto o corpo se revela como superfície viva de inscrição histórica e cosmológica. É nesse entrelaçamento que a exposição se sustenta, como experiência, como escuta e como deslocamento de percepções”.
“Cariri: corpo, terra e cultura” é um cordão umbilical com o campo de possibilidades de nossa existência. Uma ligação vital com o planeta.
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CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO Revista Observatório da Diversidade Cultural, volume 104, nº 01/2026 Diversidade Cultural e Ação Comunitária: possibilidades, experiências e desafios Período para submissão: 09 de março a 04 de maio de 2026 A Revista do Observatório da Diversidade Cultural convida pesquisadoras(es), gestoras(es) culturais, educadoras(es), artistas, estudantes, lideranças comunitárias e integrantes de coletivos culturais […]
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As reginas de Alexandre são sempre lentes que abrem o leitor para um universo que não pode ser uno pois é um de um caleidoscópio. O Cariri é um universo onírico. Alexandre o transcreve sem a ousadia freudiana de interpretar